Salmos 80
O Texto
O salmo é um grito em três tempos. Primeiro, um apelo ao Pastor de Israel que se assenta entre os querubins, para que desperte o seu poder diante das tribos de José e venha salvar. Depois, a queixa: o povo come "pão de lagrimas", é motivo de riso entre os vizinhos, e Deus parece irritado até com a própria oração dos seus. Por fim, a grande alegoria: a videira que Deus tirou do Egito, plantou, fez crescer até o mar, e cujos muros ele mesmo derrubou, de modo que o javali da selva a devasta. Três vezes soa o refrão: "Faze-nos voltar, ó Deus, e faze resplandecer o teu rosto, e seremos salvos."
O Cerne
Repare no que o refrão não diz. Não diz "vamos voltar", nem "ajuda-nos a decidir". Diz: faze-nos voltar. O verbo hebraico é shuv, voltar, converter-se, e aqui está na forma causativa: a conversão é algo que Deus tem de operar em nós. O povo sabe que perdeu até a capacidade de retornar. Essa é a doutrina da graça em estado bruto, séculos antes de Paulo formulá-la. E o segundo pedido é gêmeo do primeiro: "faze resplandecer o teu rosto". É a bênção sacerdotal de Números 6 transformada em súplica desesperada, porque o rosto que devia brilhar agora repreende. Salvação, aqui, não é circunstância alterada; é rosto voltado. A face de Deus é o próprio conteúdo da salvação.
O Fio Condutor
A videira arrancada do Egito e plantada em terra limpa é a história da redenção em miniatura: eleição, êxodo, conquista, crescimento. Deus como jardineiro do seu povo. Mas o salmo termina sem restauração, apenas com um pedido estranho no verso 17: "Seja a tua mão sobre o varão da tua dextra, sobre o filho do homem, que fortificaste para ti." O salmista pede um homem, um representante, sobre quem a mão de Deus repouse para que o povo inteiro viva. Videira devastada e filho do homem, lado a lado. Quando Jesus diz "Eu sou a videira verdadeira" (João 15), ele não está inventando uma imagem bonita; está respondendo a este salmo. Ele é a videira que não será arrancada e o Filho do homem sobre quem a mão do Pai repousa.
O Espelho
Há orações que a gente reza sabendo que Deus não parece estar ouvindo. O salmo põe isso em palavras que quase escandalizam: "até quando te indignarás contra a oração do teu povo". Não contra o pecado do povo; contra a oração dele. Você já esteve ali. O casamento que não se recompõe apesar de anos de intercessão. O filho que se afastou e a cada telefonema você percebe que ele está mais longe. O diagnóstico que voltou. E há ainda o verso 6, que dói de outra maneira: sermos motivo de riso, a fé cristã tratada como curiosidade folclórica no ambiente de trabalho. O salmo não resolve nada disso. Ele apenas ensina onde depositar o grito, e insiste, três vezes, que a saída não está em nós.
O Perfil
Quem canta isto são pessoas que viram o reino do norte cair. Efraim, Benjamim e Manassés são justamente as tribos do centro e do norte, as primeiras a serem devoradas pela Assíria no final do século VIII antes de Cristo. O "javali da selva" não é um símbolo vago: é o exército imperial que atravessa a terra arrancando raízes e levando populações inteiras para o exílio. Estes cantores sabiam de cor as promessas sobre a terra e viam com os próprios olhos os muros da vinha derrubados. E a confissão mais dura do salmo é esta: não foram os assírios que quebraram os valados. "Porque quebraste então os seus vallados". Deus mesmo. O inimigo é apenas o instrumento.
Contexto
O salmo dirige-se a Deus com dois títulos que carregam todo o peso do momento. "Pastor d'Israel" evoca cuidado, condução pelo deserto, a memória de que este povo foi carregado nos braços. "Deus dos Exercitos" evoca poder militar, os batalhões celestes. E "tu, que te assentas entre os cherubins" aponta para a arca no templo, o trono terreno do Rei invisível. Ou seja: o povo apela ao Pastor, ao General e ao Rei entronizado, e os três estão em silêncio. Num mundo onde a derrota militar significava a derrota do deus nacional, cantar isto no santuário era um ato de coragem teológica. Israel não conclui que o Senhor é fraco. Conclui que o Senhor está zangado, o que é infinitamente mais grave e infinitamente mais esperançoso.
O Intertexto
Isaías 5 canta a mesma vinha e responde à pergunta que o Salmo 80 não responde: por que os muros caíram. O profeta descreve o cuidado meticuloso do dono e a colheita de uvas bravas, e conclui que a destruição é juízo justo. O salmo, mais ousado, não se explica; apenas pede. Já em João 15, Jesus assume a imagem e a desloca: a videira não é mais o povo que decepciona, é ele mesmo, e nós somos ramos nele. O javali continua rondando a história, mas a raiz agora está fora do alcance dele. O refrão do salmo permanece nossa oração, só que agora sabemos o nome do rosto que resplandece.
Reflexão
Em que área da sua vida você tem tentado "voltar" pelas próprias forças, quando o que precisa pedir é que Deus o faça voltar?
Se salvação é o rosto de Deus voltado para você, o que muda naquilo que você tem pedido nas suas orações mais recentes?
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Olha o que eles pedem: "Ó Deus dos Exércitos, volta-te, nós te rogamos, atende dos céus, e vê, e visita esta videira." Não pedem muros novos nem colheita farta. Pedem que Deus olhe. Talvez seja isso que falta na sua oração hoje: menos explicações, mais o desejo de ser visto por Ele. E Ele vê.
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