Mateus 24:6
O Texto
Jesus acaba de anunciar a queda do templo, e os discípulos querem datas e sinais. A resposta começa por desmontar a pergunta: cuidado com quem engana, cuidado com quem chega dizendo "Eu sou o Christo". E então vem o versículo 6: "E ouvireis de guerras e de rumores de guerras; olhae não vos assusteis, porque é mister que isso tudo aconteça, mas ainda não é o fim." Ou seja: haverá guerra e haverá boato de guerra, notícia confirmada e notícia solta, e ambas chegarão aos ouvidos dos discípulos. A ordem não é interpretar, é não entrar em pânico. E o motivo dado é duplo e desconcertante: isso precisa acontecer, e isso ainda não significa nada de conclusivo.
O Cerne
O peso da frase está naquele "é mister", em grego dei, o mesmo verbo que Jesus usa quando diz que o Filho do homem tem de sofrer e ser morto. Não é fatalismo, é necessidade dentro de um propósito. A história convulsionada não escapou das mãos de Deus nem foi entregue ao acaso; ela corre dentro de um plano que já foi anunciado e cujo centro é a cruz. Por isso o discípulo pode ouvir a notícia e não se assustar: o mesmo Senhor que atravessou o "é mister" do próprio sofrimento é quem governa o "é mister" da história. E vem o freio: "ainda não é o fim". Guerra não é calendário. Quem lê tanque de guerra como relógio profético já está sendo enganado pelo versículo anterior.
O Fio Condutor
Repare em quem fala e onde. Jesus está sentado no monte das Oliveiras, de frente para o templo que acabou de sentenciar, e fala sobre o futuro do mundo como quem fala de casa própria. Dias depois estará preso, julgado e crucificado, e o mundo dele se acabará numa sexta-feira. É exatamente aí que se enxerga o fio: a história caminha para um fim, mas o fim não é o colapso, é a vinda do Filho do homem "sobre as nuvens do céu, com poder e grande gloria". Entre a cruz e essa vinda existe um intervalo longo, barulhento e sangrento, e esse intervalo tem uma tarefa: "este evangelho do reino será prégado em todo o mundo". Guerra não adianta nem atrasa o relógio de Deus. O evangelho é que corre.
O Espelho
Você provavelmente não vive em zona de guerra, mas vive em zona de rumor. O telefone vibra e chega a manchete: mísseis, colapso, o gráfico do seu setor caindo, o exame que o médico pediu de novo, o boato de demissão na empresa. E o corpo reage antes da teologia: aperto no peito, insônia, a rolagem infinita às onze da noite procurando alguém que diga que vai ficar tudo bem. Jesus não promete que vai ficar tudo bem no sentido que queremos. Ele diz outra coisa, mais dura e mais firme: não se assustem. Há uma diferença entre saber da guerra e ser governado por ela. O medo quer transformar cada notícia em veredito final sobre a sua vida. Cristo diz que o veredito final já tem dono, e não é a manchete.
O Intertexto
A pergunta dos discípulos nasce de Daniel, o profeta que Jesus cita adiante ao falar da "abominação da desolação". Daniel escreveu para exilados que viam impérios se levantando e caindo por cima deles, e a mensagem dele era: os reinos passam, o Reino permanece. Jesus assume esse fio e o desloca para si mesmo. E dentro do próprio capítulo há um contraponto duríssimo ao pânico: "aquelle que perseverar até ao fim será salvo". Não diz "aquele que decifrar os sinais". A promessa não é para o analista profético, é para o que continua fiel quando o amor de muitos esfria. Perseverança, não decodificação, é o que atravessa o barulho da história.
O Personagem Principal
O que impressiona nesse discurso é a serenidade de Jesus. Ele descreve nações se levantando umas contra as outras, fome, terremoto, traição entre irmãos, e não há na voz dele nem alarme nem indiferença. Ele chama tudo isso de "principio de dôres", uma palavra que em grego evoca contrações de parto. Quem usa essa imagem sabe que a dor é real e que ela tem direção. E note o cuidado pastoral: antes de qualquer previsão, ele avisa três vezes contra o engano, porque conhece o coração humano que, apavorado, corre atrás de qualquer voz que prometa controle. Jesus não protege os discípulos do sofrimento. Protege-os da mentira sobre o sofrimento. Isso é amor de pastor, não de guru.
O Perfil
Mateus escreve para cristãos judeus que viram, ou souberam de perto, o que aconteceu em Jerusalém no ano 70: cerco, fome, o templo em chamas, pedra sobre pedra derrubada exatamente como fora dito. Para eles, "ouvireis de guerras e de rumores de guerras" não era metáfora. Era o vizinho voltando com notícia das legiões. E era também a tentação concreta de seguir algum líder armado que se apresentasse como o Cristo libertador, porque havia vários. Ouvir Jesus dizer "ainda não é o fim" era ao mesmo tempo um alívio e uma decepção: o templo cai, e ainda assim não é o desfecho. O desfecho tem outro nome e outro rosto, e virá visível como relâmpago, sem precisar de boato.
Reflexão
Qual notícia recente teve poder de determinar o seu humor, seu sono e suas decisões, e o que isso revela sobre onde você realmente ancora sua segurança?
Se o sinal da fidelidade não é decifrar os acontecimentos, mas perseverar quando "o amor de muitos esfriará", em que relação concreta o seu amor está esfriando agora?
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