Mateus 27:17
O Texto
A praça está cheia, a multidão se junta, e o governador faz uma pergunta que soa quase administrativa: "Qual quereis que vos solte? Barrabás, ou Jesus, chamado Christo?" Pilatos coloca dois nomes lado a lado, como quem apresenta duas opções de igual peso a um júri improvisado, e espera. Um é um preso "bem conhecido", o outro é chamado Cristo, Ungido, e esse título fica ali pendurado no ar sem que ninguém, nem mesmo quem o pronuncia, pareça medir o que está dizendo. A cena inteira cabe em uma frase interrogativa. Deus é submetido a uma votação popular, e o texto não comenta, não se indigna, não explica. Apenas registra a pergunta e segue adiante.
O Cerne
O que mais incomoda aqui não é a crueldade, é a normalidade. Jesus não é arrancado e morto num acesso de fúria; ele é oferecido, num procedimento, dentro de um costume de festa. O Filho de Deus entra na história como item de escolha, e a pergunta de Pilatos faz com que a vontade humana se sente no lugar do tribunal supremo. Há algo quase insuportável nisso: Deus permitindo que sua pergunta seja a nossa resposta. E, ao mesmo tempo, o que se anuncia nessa frase é exatamente o evangelho invertido e revelado: um culpado será solto, um inocente ficará. A troca já está desenhada antes de ser votada. Seria o acaso de um político acuado, ou a forma como a graça prefere aparecer, escondida dentro de um cálculo humano?
O Fio Condutor
O nome do outro preso é, em aramaico, Bar-abbas, "filho do pai". A ironia é quase grosseira demais para ser literária: diante da multidão estão dois filhos do pai, e se escolhe o errado. Mas a escolha errada serve exatamente ao propósito certo. Desde o Egito, a libertação de Israel passa sempre por uma vida que fica no lugar de outra: o cordeiro na porta, o bode mandado embora enquanto o outro morre, a festa que relembra tudo isso e durante a qual, justamente, esta pergunta é feita. Pilatos não sabe que está celebrando a Páscoa de verdade. Ele pensa estar negociando com um povo difícil, e está repartindo o mundo em duas colunas: quem é solto, e quem paga por isso. O evangelho inteiro cabe nessa aritmética.
O Espelho
É cômodo ler esta cena como quem assiste de longe, indignado com a multidão. Mas a pergunta de Pilatos continua sendo feita, e nós respondemos diariamente, quase sem perceber. Barabbás é sempre o conhecido, o concreto, o que resolve agora: o emprego que exige a consciência um pouco dobrada, a reputação que se defende com meia verdade, o rancor que se alimenta porque dá uma sensação de força, o dinheiro que promete segurança que Deus não prometeu. Jesus é "chamado Cristo", um título mais lento, mais exigente, menos palpável. Escolher Barabbás raramente parece uma traição; parece bom senso. E essa é a parte que deveria nos assustar. Hoje, escreva num papel o nome Barabbás e, ao lado, o seu nome. Fique dois minutos em silêncio olhando para os dois e diga em voz alta: "o solto fui eu".
O Intertexto
Levítico 16 descreve dois bodes no Dia da Expiação: um é sacrificado, o outro é solto vivo no deserto carregando as culpas do povo. Aqui a imagem aparece de ponta-cabeça e completa: o culpado real é solto vivo, e o inocente leva o sangue. Matheus não explica a conexão, deixa que ela faça seu trabalho em silêncio. Mais tarde, Pedro dirá a esse mesmo povo, em Jerusalém, que eles negaram o Santo e o Justo e pediram que lhes fosse dado um homicida; não como acusação para esmagar, mas como porta para o arrependimento. A memória da escolha errada se tornou o lugar do perdão. É assim que Deus costuma trabalhar: ele não apaga nossa pior decisão, ele a transforma em terreno de graça.
O Personagem Principal
Pilatos é um homem que tenta resolver um problema espiritual com ferramentas políticas. Ele percebe a inveja dos acusadores, recebe o aviso da esposa, reconhece a inocência do réu, e mesmo assim entrega a decisão à multidão. É a covardia mais familiar que existe: não a de quem faz o mal, mas a de quem organiza as condições para que o mal aconteça sem sua assinatura. Mais tarde ele lavará as mãos, gesto que não limpa nada. Diante dele está alguém que não responde "nem uma palavra", e esse silêncio desarma o governador mais do que qualquer defesa. Dois homens: um que fala muito e não decide nada, outro que cala e sustenta o mundo. Quem está realmente no comando dessa cena?
O Perfil
Os primeiros leitores de Mateus eram, em boa parte, judeus que haviam reconhecido Jesus como o Messias e viviam agora numa dolorosa fratura com sua própria comunidade. Para eles, esta cena doía de um jeito que para nós é abstrato. Sabiam que Barabbás não era um ladrão qualquer, mas um tipo popular, provavelmente envolvido em revolta contra Roma, o homem que a multidão admirava porque pegava em armas. Escolher Barabbás era escolher um messias que lutava do jeito esperado. Esses leitores conheciam a tentação por dentro. E ouviam a pergunta de Pilatos não como história antiga, mas como a pergunta que sua própria geração havia respondido errado, e que Deus, surpreendentemente, não usou para condená-los, mas para salvá-los.
Reflexão
Se Pilatos fizesse hoje essa pergunta usando os nomes das coisas que você realmente quer, qual nome estaria ao lado do de Jesus?
O que muda em você ao perceber que, nesta cena, seu lugar não é na multidão nem no tribunal, mas na cela de onde alguém saiu livre?
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Perguntas frequentes sobre Matthew 27:17
Respostas rápidas às perguntas mais comuns sobre esta passagem bíblica.
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O que Mateus 27:17 nos ensina sobre o caráter de Deus?
Como Mateus 27:17 continua relevante hoje?
O que a comunidade compartilha sobre Matthew 27
Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Então, lhes soltou Barrabás; e, após ter açoitado a Jesus, entregou-o para ser crucificado." Repare na ordem: um sai livre porque o outro fica. Barrabás não pediu nada, não se arrependeu, não prometeu mudar. Apenas ouviu as correntes caírem e viu outro tomar seu lugar na cruz. Você já parou para pensar que a cruz preparada era sua?
Obrigado, Senhor Jesus, porque diante de Pilatos o Senhor não negou quem é. Interrogado como réu, respondeu "Tu o dizes" e assumiu a coroa que lhe pertence. Meu Rei ficou de pé naquele tribunal para que eu pudesse ficar de pé diante de Deus.
Ao cair da tarde, veio um homem rico de Arimateia, chamado José, que era também discípulo de Jesus." Ele aparece justo quando não havia mais nada a ganhar. Os corajosos tinham fugido, e o discípulo escondido deu um passo à frente. Às vezes é na hora mais escura que a fé de alguém finalmente aparece. E a sua?
Senhor, aquela placa acima da cruz dizia a verdade sem querer: ali estava o Rei. Ajuda-me a reconhecer teu reinado onde menos espero encontrá-lo, na entrega, na dor, no amor que não desce da cruz. Reina em mim também.
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