Mateus 27:54
O Texto
Terminada a morte, resta o barulho. A terra treme, as pedras se partem, e o pelotão encarregado de vigiar os três condenados sente o chão ceder sob as sandálias pregadas. Mateus conta que "o centurião e os que com elle guardavam a Jesus, vendo o terremoto, e as coisas que haviam succedido, tiveram grande temor". Homens pagos para administrar a morte, acostumados ao cheiro de sangue seco e ao gemido lento dos crucificados, de repente ficam aterrorizados. E da boca do oficial romano, não de um discípulo, não de um sacerdote, sai a frase que Mateus vinha preparando desde o primeiro capítulo: "Verdadeiramente este era o Filho de Deus." O veredito do império contradiz o veredito do tribunal.
O Cerne
Note onde está a confissão: não diante de um milagre de cura, não diante do túmulo vazio, mas diante de um cadáver. O centurião não reconhece Jesus apesar da cruz, mas por causa dela. É exatamente o contrário do que os zombadores exigiam poucos versículos antes: "Se é o Rei d'Israel, desça agora da cruz, e creremos n'elle." Eles creriam num Deus que se salva. O soldado crê num Deus que não se salvou. Aí está o coração do evangelho de Mateus: a glória de Deus não se revela na fuga do sofrimento, mas no meio dele. E o título "Filho de Deus", que em Roma pertencia ao César, é entregue por um soldado romano a um judeu executado. O império, sem saber, depõe a si mesmo.
O Fio Condutor
Duas vezes nos evangelhos de Mateus uma voz do céu chama Jesus de Filho: no batismo e no monte da transfiguração. Entre esses dois momentos, o título aparece quase sempre na boca de quem duvida ou tenta, começando pelo deserto: "se és Filho de Deus." Os zombadores repetem a fórmula ao pé da cruz, "se és Filho de Deus, desce da cruz", e com isso fecham o círculo da tentação. O que o centurião faz é quebrar o padrão. Pela primeira vez um ser humano pronuncia o título sem condicional, sem "se", diante da evidência mais contrária possível. A confissão que Deus declarou no Jordão é agora repetida por um gentio no Gólgota, e a porta que o véu rasgado abriu no templo aparece aqui encarnada num estrangeiro de armadura. O evangelho que termina com "ide e ensinai todas as nações" já começou a cumprir-se antes do enterro.
O Espelho
Há uma fé que só nasce quando Deus age como esperamos. Você conhece: a oração atendida, o exame que deu negativo, a conta que fechou no fim do mês. É a fé dos sacerdotes, que prometiam crer se o pregado descesse da cruz. E há a fé do centurião, que surge no lugar onde nada foi resolvido, onde o corpo continua pendurado e o céu continua escuro. A pergunta que esse versículo coloca na sua mesa é simples e incômoda: você consegue dizer "verdadeiramente este é o Filho de Deus" diante de um diagnóstico que não mudou, de um casamento que não melhorou, de um filho que não voltou? O soldado não teve explicação alguma. Teve medo e teve verdade, ao mesmo tempo. Hoje, antes de dormir, diga em voz alta, sozinho, nomeando a situação que mais dói: "Nisto também, verdadeiramente este é o Filho de Deus."
O Intertexto
Em Mateus 16, Pedro faz a mesma confissão em Cesareia de Filipe e é chamado de bem-aventurado, mas logo depois tenta impedir Jesus de ir à cruz, e ouve a palavra mais dura do evangelho. Pedro acertou o título e errou o conteúdo. O centurião acerta os dois ao mesmo tempo, porque confessa olhando para o cadáver. E em Salmo 22, cujo primeiro verso Jesus grita na hora nona, o salmista termina prevendo que todos os confins da terra se lembrarão e se voltarão ao Senhor, e que as famílias das nações o adorarão. Mateus coloca esse soldado estrangeiro exatamente ali, no fim do salmo que Jesus começou a rezar. O grito de abandono e a confissão do gentio são as duas pontas do mesmo texto.
O Personagem Principal
Um centurião comandava cerca de oitenta homens e era a espinha dorsal do exército romano: veterano, disciplinado, promovido por competência e não por nascimento. Executar sentenças na Judeia era serviço de rotina, talvez o mais desprezado, e exigia alguém endurecido o bastante para passar seis horas ao lado de um homem morrendo lentamente sem perder o apetite. Esse homem representava o poder que havia pregado Jesus na madeira. E é ele quem treme. Mateus escolhe a palavra temor, o mesmo pavor que toma os discípulos na tempestade. Não é admiração estética; é o reconhecimento de que se pisou em terreno sagrado por engano. O carrasco descobre quem matou. Não sabemos o que foi feito dele depois, e Mateus não nos conta, o que talvez seja o ponto: a confissão vale por si.
O Perfil
Mateus escreve para cristãos de origem judaica que viviam uma pergunta dolorosa: se Jesus é o Messias, por que a liderança do nosso próprio povo o rejeitou, e por que estamos agora sentados ao lado de gentios na mesma assembleia? Esse versículo responde sem suavizar nada. Os que conheciam as Escrituras pediram um sinal e zombaram; o pagão que não sabia nada viu e creu. Para os primeiros leitores, ouvir um oficial romano, provavelmente o próprio tipo de homem que depois incendiaria Jerusalém, dar o nome certo a Jesus era desconcertante e consolador na mesma medida. Deus não depende da expectativa religiosa correta para ser reconhecido. Ele se revela onde quer, inclusive na boca de quem segurou o martelo.
Reflexão
Onde você ainda exige que Deus "desça da cruz" antes de confiar nele?
Quem, no seu círculo, é o "centurião" que você considera distante demais para reconhecer Cristo, e o que isso diz sobre a sua própria fé?
Aprofunde-se em Matthew
Livros selecionados a dedo que aprofundam ainda mais este livro da Bíblia.
À espera do Natal: 25 leituras de Advento, de 1 a 25 de dezembro, guiadas pelo livro de Lucas. Davi, Zacarias, Maria e José, uma pessoa de hoje por...
Mateus: Introdução e Comentário
Um comentário conciso e confiável, versículo a versículo, que ajuda a entender o propósito de Mateus ao apresentar Jesus como o Messias prometido a Israel.
A Mensagem do Sermão do Monte: Contracultura Cristã
Uma exposição calorosa e desafiadora de Mateus 5–7, mostrando como é, na prática, a vida do discípulo no Reino dos céus.
Pregações profundas e pastorais sobre o coração do ensino de Jesus em Mateus 5–7, que unem doutrina sólida e exame do coração.
Faith.network earns a small commission on Kobo purchases made through these links, at no extra cost to you. It helps keep the studies free.
Perguntas frequentes sobre Matthew 27:54
Respostas rápidas às perguntas mais comuns sobre esta passagem bíblica.
O que significa Mateus 27:54?
Sobre o que fala Mateus 27:54?
Qual é o contexto histórico de Mateus 27:54?
O que Mateus 27:54 nos ensina sobre o caráter de Deus?
Como Mateus 27:54 continua relevante hoje?
O que a comunidade compartilha sobre Matthew 27
Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Então, lhes soltou Barrabás; e, após ter açoitado a Jesus, entregou-o para ser crucificado." Repare na ordem: um sai livre porque o outro fica. Barrabás não pediu nada, não se arrependeu, não prometeu mudar. Apenas ouviu as correntes caírem e viu outro tomar seu lugar na cruz. Você já parou para pensar que a cruz preparada era sua?
Obrigado, Senhor Jesus, porque diante de Pilatos o Senhor não negou quem é. Interrogado como réu, respondeu "Tu o dizes" e assumiu a coroa que lhe pertence. Meu Rei ficou de pé naquele tribunal para que eu pudesse ficar de pé diante de Deus.
Ao cair da tarde, veio um homem rico de Arimateia, chamado José, que era também discípulo de Jesus." Ele aparece justo quando não havia mais nada a ganhar. Os corajosos tinham fugido, e o discípulo escondido deu um passo à frente. Às vezes é na hora mais escura que a fé de alguém finalmente aparece. E a sua?
Senhor, aquela placa acima da cruz dizia a verdade sem querer: ali estava o Rei. Ajuda-me a reconhecer teu reinado onde menos espero encontrá-lo, na entrega, na dor, no amor que não desce da cruz. Reina em mim também.
Explore esta passagem em outro nível
Iniciante, teólogo ou uma leitura de outro tamanho? Ajuste as configurações e gere sua própria versão.
Abrir na ferramenta de estudo
