Mateus 8
O Texto
Jesus desce do monte onde ensinou, e a multidão desce com ele. Um leproso se ajoelha; Jesus estende a mão e toca nele. Depois vem um oficial romano que não quer que Jesus entre em sua casa, apenas que fale. Segue-se a sogra de Pedro com febre, uma noite inteira de endemoninhados curados, dois candidatos a discípulo que recebem respostas duras, uma tempestade atravessada por um homem que dormia, e uma cidade que, diante do poder que libertou dois possessos, pede educadamente que Jesus vá embora.
O Cerne
Repare no que Jesus faz primeiro: "estendendo a mão, tocou-o". Ele podia ter curado à distância; com o centurião fará exatamente isso. Mas o leproso não sofria só de pele. Sofria de anos sem pele contra pele, de gente atravessando a rua, de gritar "impuro" ao se aproximar. Jesus toca antes de curar. E o que se esperava não acontece: a impureza não sobe pelo braço de Jesus, a pureza desce pelo braço dele. É a lógica invertida do Reino. Deus, em Cristo, não se protege da nossa contaminação; ele a absorve. O capítulo inteiro gira em torno disso, e Mateus o diz sem rodeios no versículo 17: "Elle tomou sobre si as nossas enfermidades".
O Fio Condutor
Mateus cita Isaías 53 no meio de uma tarde de curas, e a escolha é ousada. Aquele texto fala do Servo ferido, e Mateus o aplica a alguém que ainda está apenas tocando doentes em Cafarnaum. Ele está dizendo: o que acontece na cruz já começou aqui. Cada cura é um pedaço antecipado do Gólgota, porque em cada uma Jesus não distribui saúde de longe, mas assume algo. A palavra "levou" é palavra de carregador, de quem põe nas costas. O caminho que termina no madeiro começa numa mão estendida para um leproso. Não há dois Jesus, o curador e o crucificado. Há um só, que cura carregando.
O Espelho
O centurião não é um homem religioso. É um homem de organograma: "digo a este: Vae, e elle vae". Ele entende Jesus porque entende autoridade, e entende que não a possui diante dele. Talvez seja aqui que o texto o alcance. Você sabe o que fazer com sua equipe, com o orçamento, com a agenda de sábado, com o filho adolescente, até certo ponto. E depois vem o ponto em que nada obedece: o exame que não melhora, o casamento que não se conserta por gestão. O centurião não fingiu competência. Disse "não sou digno" e pediu uma palavra. Jesus se maravilhou. Deus se admira menos com nossa força do que com nossa honestidade.
O Intertexto
Quando os discípulos gritam "Senhor, salva-nos, que perecemos", estão repetindo, sem saber, o Salmo 107, onde marinheiros em pânico clamam ao Senhor e ele "faz cessar a tormenta". Ali o mar obedece a Deus, apenas a Deus. Por isso a pergunta no barco não é de gratidão, é de espanto quase assustado: "Quem é este, que até os ventos e o mar lhe obedecem?". E há o contraste amargo: Isaías 53 promete um Servo que carrega doenças, e no fim do capítulo uma cidade inteira olha esse Servo e pede que ele se retire. Os porcos custaram mais caro que os dois homens libertos.
O Protagonista
Vale demorar-se no Jesus que dorme. A tempestade cobre o barco, homens experientes no mar estão apavorados, e ele dorme. Não é indiferença; é a única postura possível para quem está inteiramente em casa dentro da vontade do Pai. E logo depois esse mesmo homem dirá que não tem "onde reclinar a cabeça", mais desabrigado que raposas e pássaros. Ele dorme porque descansa em Deus, não porque tenha uma cama. Esse é o retrato: um Senhor com autoridade sobre o vento e sem endereço; que toca leprosos e é expulso de cidades; que se admira com a fé de um pagão e chama seus próprios amigos de "homens de pouca fé", sem deixar de acalmar o mar por eles.
A Pergunta
Por que Jesus responde tão asperamente ao homem que só queria enterrar o pai? "Deixa aos mortos sepultar os seus mortos" soa cruel, e é. Enterrar os pais era dever sagrado, quase inegociável. Não há como suavizar isso sem tirar do texto o que ele quer nos dar. Talvez a chave esteja no "primeiro": permite-me que primeiro vá. Jesus não está contra funerais; está contra a fila em que ele ocupa o segundo lugar por tempo indeterminado. Ainda assim, a frase machuca, e deve machucar. Segui-lo custa mais do que costumamos admitir num culto de domingo. O texto não nos diz o que o homem decidiu. Esse silêncio, suspeito, é para nós.
Reflexão
Onde, na sua vida, você tem pedido a Jesus que cure de longe porque não quer que ele entre em casa e veja o que há ali dentro?
Os gadarenos calcularam o preço da presença de Jesus e concluíram que era alto demais. O que, concretamente, você teme perder se ele ficar?
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Saindo dos sepulcros, tão ferozes que ninguém podia passar por aquele caminho." Era o caminho que todos evitavam. E Jesus atravessou o mar justamente para pisar nele. Existe em você alguma região de sepulcros, onde ninguém entra, nem você mesmo? Ele não desvia. Ele desembarca ali.
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