Salmos 53:3
O Texto
Deus se debruçou sobre a terra à procura de alguém, e o versículo 3 é o relatório do que ele viu. Não um relatório parcial, nem uma amostragem: todos se afastaram do caminho, todos juntos apodreceram, e não sobrou ninguém capaz de fazer o bem. O salmista repete a negação como quem fecha uma porta e depois confere a tranca: "não ha quem faça o bem, não, nem sequer um". A busca do versículo 2 termina de mãos vazias. O olhar que veio do céu procurando entendimento e alguém que buscasse a Deus não encontra objeto. O que era ateísmo prático de um "nescio" no versículo 1 revela-se, sob inspeção divina, condição de toda a espécie.
O Núcleo
O verbo hebraico traduzido por "fizeram immundos" é ne'elachu, usado para leite que azedou, comida que estragou. Não é sujeira que se lava por fora; é fermentação interna, algo que era bom e virou. Isso importa teologicamente: o salmo não diz que a humanidade foi mal fabricada, diz que ela se corrompeu. A doutrina da criação permanece intacta, e por isso mesmo o julgamento dói. Deus não está inspecionando um produto defeituoso de fábrica, mas uma imagem sua que se estragou. E o veredito é universal precisamente porque vem do único lugar de onde se enxerga tudo: o céu. Nenhum tribunal humano poderia dizer "nem sequer um". Deus pode. Aqui a graça deixa de ser um complemento simpático à vida moral e passa a ser a única saída de uma sala sem portas.
O Fio Condutor
Paulo pegou este versículo e o colocou como pedra angular do seu argumento em Romanos 3, junto com outros textos, para provar que judeus e gregos estão igualmente sob o pecado. Ele não distorceu o salmo; leu-o corretamente. E é exatamente por isso que o versículo 3 é um dos degraus mais importantes da história da redenção: sem esse "nem sequer um", a cruz vira um gesto exagerado. O próprio salmo aponta para frente quando geme no versículo 6: "Oh! se já de Sião viera a salvação de Israel!". A busca de Deus, que no versículo 2 volta de mãos vazias, só termina quando Deus deixa de procurar um justo entre os homens e envia o Justo aos homens. O céu que olhou para baixo acabou descendo.
O Espelho
O truque que todos usamos contra este versículo é a comparação. Você lê "não ha quem faça o bem" e imediatamente pensa no colega que manipula números, no parente que abandonou a família, no político que rouba, e a frase se acomoda confortavelmente sobre a cabeça deles. É assim que o versículo perde o dente. Mas a palavra é "todos", e ela inclui o pai paciente, a professora dedicada, o presbítero fiel, você depois de uma manhã inteira de leitura bíblica. Não porque seus atos bons sejam falsos, mas porque nenhum deles compra nada diante de Deus. Escreva hoje, num papel, o nome da pessoa que você secretamente considera moralmente abaixo de você, coloque o seu nome ao lado dela e ore uma frase por vocês dois.
O Personagem Principal
O personagem central aqui não é o néscio, é Deus, e o modo como ele age surpreende. Um Deus onisciente não precisaria olhar; contudo o salmo insiste que ele "olhou desde os céus", que inspecionou, que procurou. É a linguagem do juiz que não condena de ouvido, que desce e verifica antes de sentenciar. Há nisso uma seriedade moral impressionante: Deus não deprecia a humanidade por princípio, ele procura o bem antes de declarar sua ausência. E há também algo doloroso. Quem procura, espera encontrar. O retrato que emerge não é o de um Deus frio catalogando culpas, mas o de um Criador que examina sua própria imagem estragada e diz a verdade sobre ela, porque só a verdade pode ser curada.
O Intertexto
Antes do dilúvio, Gênesis registra que o Senhor viu que a maldade do homem se multiplicara e que todo desígnio do seu coração era só mau continuamente. O padrão é idêntico: Deus olha, Deus vê, Deus conclui. O Salmo 53 é aquele olhar repetido séculos depois, com o mesmo resultado, o que significa que nem o dilúvio nem a lei nem o templo produziram o "um" que faltava. E quando Paulo cita este versículo em Romanos, ele o faz logo antes de anunciar a justiça de Deus manifestada sem lei. A sequência não é acidental: a sentença universal existe para que a graça também possa ser universal. Quem nunca ouviu o "nem sequer um" nunca entenderá o "de graça".
O Perfil
Israel cantava isto num contexto de opressão real. O versículo 4 fala de gente que devora o povo de Deus como quem come pão, e o versículo 6 sonha com o retorno dos cativos. O ouvinte original, portanto, começava este salmo com uma vítima no espelho e um agressor à vista. Ele esperava ouvir uma denúncia dos pagãos, dos que cercavam Jerusalém, dos que não invocavam a Deus. E então vinha o versículo 3 e desfazia a fronteira: "todos", "juntamente", "nem sequer um". Cantar isso no templo era admitir que a diferença entre o povo da aliança e seus inimigos não estava na qualidade moral, mas apenas na escolha de Deus. A eleição deixa de ser mérito e vira misericórdia pura.
Reflexão
Em que área da sua vida você ainda vive como se fosse a exceção do "nem sequer um", e o que mudaria se você parasse de se defender diante de Deus?
Se a sentença do versículo 3 é a base da graça, por que tantas vezes preferimos suavizá-la em vez de descansar nela?
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Perguntas frequentes sobre Psalms 53:3
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Repare no detalhe estranho: "Tomados foram de grande pavor, onde não havia pavor algum." Quem diz no coração que não há Deus não fica sem medo, fica com medo de tudo, até do que nem existe. Tirar Deus do caminho não traz paz, traz sombras. E você, do que tem tremido ultimamente sem motivo real?
Depois de encarar tanta corrupção ao redor, o salmista não termina em cinismo. Ele suspira: "Quem me dera que de Sião viesse já o livramento de Israel!" É um gemido, não uma conclusão fechada. Talvez você esteja aí, vendo tudo torto e sem forças para consertar nada. Este salmo te dá permissão para gemer e esperar ao mesmo tempo.
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