Salmos 53
O Texto
O tolo não proclama seu ateísmo em praça pública; ele o diz "no seu coração", num sussurro interior que ninguém ouve e que muda tudo. O salmo abre com esse murmúrio e imediatamente mostra seu fruto: corrupção, iniquidade abominável, ninguém que faça o bem. Então a câmera sobe: Deus se debruça do céu e varre a terra com os olhos, procurando alguém que entenda, alguém que o busque. O veredito é devastador, "não ha quem faça o bem, não, nem sequer um". Os versos seguintes mostram esses homens devorando o povo de Deus como quem come pão, até que o pânico cai sobre eles sem motivo aparente, e o poema termina num suspiro: "Oh! se já de Sião viera a salvação de Israel!"
O Cerne
O que este salmo diz sobre Deus é surpreendentemente pouco elogioso a nós e profundamente consolador ao mesmo tempo. Deus olha. Não é um deus distraído nem uma força impessoal; ele inspeciona, avalia, procura. E o que encontra não é uma humanidade dividida entre bons e maus, mas uma humanidade inteira desviada. O tolo do versículo 1 não é o intelectual cético, é o homem prático que vive como se não houvesse conta a prestar, e o salmo insiste que esse cálculo interior está em todos nós. A negação de Deus não começa numa tese; começa numa conveniência. Por isso o remédio não pode vir de dentro da humanidade examinada, mas de fora, de Sião, de onde ainda não veio e por isso se implora.
O Fio Condutor
Este salmo termina com um desejo não realizado: "Oh! se já de Sião viera a salvação de Israel!" É um poema que fica de boca aberta, esperando. Séculos depois, Paulo recolhe exatamente estes versículos, junto com outros, para montar sua acusação em Romanos 3, e o faz com um propósito claro: fechar todas as saídas antes de abrir a única. Ele quer que ninguém escape do "nem sequer um", porque só assim a graça deixa de ser um complemento e passa a ser a única possibilidade. E então a salvação vem de Sião, não como exército libertador mas como um homem crucificado fora dos muros daquela mesma cidade. O salmo pedia que Deus fizesse voltar os cativos; a resposta foi mais funda do que o pedido, porque o cativeiro mais real nunca foi o babilônico.
O Espelho
Repare onde o salmo localiza o ateísmo: no coração, não na cabeça. Você provavelmente não duvida da existência de Deus. Mas há aquela decisão no trabalho que você tomou calculando que ninguém jamais perguntaria; há o modo como você fala do seu cunhado quando ele não está; há o dinheiro que você move sem nunca submeter a ninguém. Em cada um desses momentos operou uma frase silenciosa, "aqui Deus não olha", e o salmo diz que essa frase é a definição de tolice. Não porque Deus seja um fiscal, mas porque agir assim é viver contra a realidade. E a realidade é que ele "olhou desde os céus", com uma atenção que não é ameaça, é busca: procurando alguém que o buscasse.
Hoje, antes de dormir, escreva numa folha uma decisão da última semana que você tomou contando que ninguém saberia, e diga em voz alta a Deus qual foi. Depois rasgue a folha.
O Perfil
Imagine quem cantava isto. Jerusalém cercada, ou a memória fresca de um cerco: fogueiras inimigas no horizonte à noite, o cheiro de fumaça e de animais, mensageiros gritando insultos em hebraico junto ao muro para que as mulheres nas casas entendessem. Dentro, celeiros esvaziando. Os "que obram a iniquidade" não eram uma categoria moral abstrata; eram assírios, ou babilônios, ou os próprios nobres de Judá que compravam terra de camponeses arruinados. "Comem o meu povo como se comessem pão" era literal para quem via a colheita requisitada. E o versículo 5 descreve algo que aqueles ouvintes talvez tivessem visto com os próprios olhos: um exército que entra em pânico sem que ninguém o ataque, ossos espalhados e insepultos no campo, a pior desonra imaginável naquele mundo. Deus agiu, e ninguém soube explicar como.
A Pergunta
Há uma contradição incômoda no salmo. O versículo 3 diz que não há quem faça o bem, nem um só. O versículo 4 fala do "meu povo", devorado pelos ímpios. Se ninguém presta, quem é esse povo? O texto não resolve isso, e talvez seja bom não resolvermos rápido. A tentação é dividir a humanidade em dois times, os corrompidos e os fiéis, e nos colocarmos no segundo. Mas a única razão de o povo de Deus existir não é sua qualidade moral, e sim o fato de Deus tê-lo chamado de "meu". A vítima do versículo 4 está incluída no veredito do versículo 3. Ser oprimido não santifica ninguém. Isso é duro, e o salmo não o suaviza.
O Detalhe
"Como se comessem pão." Não como quem devora uma presa, com fome e violência. Como quem come pão: distraidamente, todo dia, sem pensar. É a imagem mais assustadora do salmo, porque descreve a crueldade que virou hábito. O opressor não odeia sua vítima; ele simplesmente a consome como parte da rotina, do mesmo modo como parte um pedaço de pão à mesa e continua a conversa. É assim que funcionam sistemas injustos, então e agora: não por ódio ardente, mas por indiferença digerida. E o salmo liga isso diretamente à frase do coração no versículo 1. Quem decidiu que Deus não olha come gente sem perder o apetite.
Reflexão
Em que área concreta da sua vida você age como quem acredita que "Deus não olha", mesmo confessando o contrário na igreja?
Onde você participa, sem raiva e sem pensar, de algo que consome outras pessoas "como se comessem pão"?
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Perguntas frequentes sobre Psalms 53
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O que a comunidade compartilha sobre Psalms 53
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Repare no detalhe estranho: "Tomados foram de grande pavor, onde não havia pavor algum." Quem diz no coração que não há Deus não fica sem medo, fica com medo de tudo, até do que nem existe. Tirar Deus do caminho não traz paz, traz sombras. E você, do que tem tremido ultimamente sem motivo real?
Depois de encarar tanta corrupção ao redor, o salmista não termina em cinismo. Ele suspira: "Quem me dera que de Sião viesse já o livramento de Israel!" É um gemido, não uma conclusão fechada. Talvez você esteja aí, vendo tudo torto e sem forças para consertar nada. Este salmo te dá permissão para gemer e esperar ao mesmo tempo.
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