Romanos 7:25
O Texto
Vem imediatamente depois do grito: "Miseravel homem que eu sou! quem me livrará do corpo d'esta morte?" E a resposta não é uma explicação, é um agradecimento: "Dou graças a Deus por Jesus Christo nosso Senhor." Paulo não responde à pergunta "como", nem "quando", nem "por que meio"; responde com um nome. E logo em seguida, sem amaciar coisa alguma, repete o diagnóstico que acabou de fazer: "eu mesmo com o entendimento sirvo á lei de Deus, mas com a carne á lei do peccado." Num só versículo cabem duas coisas que normalmente separamos em capítulos diferentes da nossa vida espiritual: a gratidão pela libertação já garantida e a constatação honesta de que a guerra interna continua em pé.
O Cerne
O que este verso diz sobre a salvação é desconcertantemente simples: ela não é uma técnica, é uma pessoa. Paulo passou vinte versos dissecando o mecanismo do pecado, mostrando que a lei é "sancta, e o mandamento sancto, justo e bom", e que o problema, portanto, está em mim. Quando chega ao fundo, não oferece um método de melhoria, mas dá graças. A saída do "corpo d'esta morte" está fora de mim, nas mãos de outro. E aqui está a parte que costumamos querer apagar: essa saída, já certa, não elimina hoje a divisão que sinto. Paulo continua servindo duas leis. A graça não é a anestesia da tensão; é a garantia de quem, no fim, será o dono. Isso importa porque poupa você de duas mentiras: a de que ser cristão significa não sentir mais o combate, e a de que sentir o combate significa não ser cristão.
O Fio Condutor
Repare na estrutura do capítulo inteiro: começa com um casamento e uma morte. A mulher está ligada ao marido "emquanto elle viver", e Paulo aplica isso ao crente: "tambem vós estaes mortos para a lei pelo corpo de Christo, para que sejaes d'outro, d'aquelle que resuscitou de entre os mortos". Ou seja, antes de chegar ao grito do verso 24, Paulo já disse que houve uma troca de senhorio. A gratidão do verso 25 não é otimismo espontâneo; é a lembrança de um fato jurídico já consumado na cruz. Toda a história da redenção funciona assim: Deus resolve primeiro a questão da propriedade, depois trabalha a transformação. Israel foi tirado do Egito antes de receber a lei no Sinai. Você foi comprado antes de ser consertado. E é justamente essa ordem que permite a Paulo agradecer com a batalha ainda em curso.
O Espelho
Você conhece esse verso melhor do que gostaria. É a manhã em que você orou com sinceridade e, quarenta minutos depois, respondeu ao seu filho com um tom que o envergonhou. É a decisão de não olhar aquilo, mantida por onze dias e quebrada no décimo segundo. É a inveja que sobe quando o colega é promovido, exatamente na mesma semana em que você ensinou sobre contentamento. Nós temos duas reações típicas, e as duas são fuga: fingir que a divisão não existe, e desistir de lutar porque ela existe. Paulo faz o terceiro caminho, que é o mais difícil: nomeia a divisão sem disfarce e agradece no meio dela. Hoje, faça as duas coisas na ordem dele. Diga em voz alta, sozinho: "Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor." E depois, ainda em voz alta, diga a Deus o nome exato daquilo que você fez esta semana e detesta ter feito. Não a categoria; o fato. Nessa ordem, e leva menos de dez minutos.
O Perfil
Quem ouvia esta carta em Roma era uma comunidade mista, judeus e gentios, e a fricção entre eles era real. Para o ouvinte judeu, dizer que estava "morto para a lei" soava perto de blasfêmia, e por isso Paulo insiste que a lei é santa e boa, que o problema é a carne. Para o gentio recém-convertido, cercado por cultos que prometiam êxtase e purificação imediata, o verso 25 era quase decepcionante: nenhuma promessa de perfeição instantânea, apenas um Senhor e uma luta. Ambos precisavam ouvir que a vida cristã não era desempenho religioso nem transe, mas pertencer a outro. Numa cidade onde a identidade se definia por a quem você pertencia, ser de Cristo era a única credencial que valia.
O Intertexto
Duas conexões ajudam. Em Gálatas 5, Paulo descreve o mesmo conflito, mas ali a carne se opõe ao Espírito, e não à mente; é o mesmo campo de batalha visto de outro ângulo, com a diferença de que lá se nomeia quem luta do nosso lado. E logo no verso seguinte, no início do capítulo 8, Paulo dirá que não há condenação para os que estão em Cristo Jesus. Isso é decisivo: o verso 25 não é o fim da frase. A divisão que ele confessa está permanentemente cercada por duas afirmações, a gratidão antes e a ausência de condenação depois. Quem lê o verso 25 isolado ouve derrota. Quem o lê no lugar onde Paulo o colocou ouve um homem cercado por graça, ainda cansado, mas já não em perigo.
O Personagem Principal
Paulo escreve isto como apóstolo maduro, não como convertido recente, e é isso que dói. Ele não descreve uma fase superada; usa o presente. Este é um homem que "tenho prazer na lei de Deus" e que, ao mesmo tempo, se vê preso por "outra lei" nos seus membros. O retrato espiritual é de alguém que abandonou por completo a esperança de se salvar pela própria coerência, e que descobriu que essa perda não o destruiu. Ele agradece. Não agradece pelo pecado; agradece pelo Senhor que o tem nas mãos apesar do pecado. É a voz de um homem que parou de administrar a própria imagem, e por isso pode ser honesto sem se desmoronar.
Reflexão
Qual das duas fugas é a sua: fingir que a divisão não existe, ou concluir que ela invalida sua fé?
Quando foi a última vez que você agradeceu a Deus no meio de uma derrota, e não apenas depois de uma vitória?
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Perguntas frequentes sobre Romans 7:25
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim." Repare que Paulo não descobre isso enquanto peca. Ele descobre justamente quando quer acertar. É no esforço sincero que o desejo torto aparece, e isso dói mais do que a queda. Se você tem se assustado com o que enxerga dentro de si bem na hora em que tentava agradar a Deus, saiba que esse susto é de alguém que já foi tocado pela graça.
Obrigado, Senhor, porque o teu preceito não me deixou seguir na ilusão de que eu era bom. Quando o pecado reviveu e eu morri, ali enxerguei o tamanho da minha necessidade de ti. Doeu, mas foi misericórdia me mostrar a verdade a tempo.
Pai, tantas vezes ainda vivo sob o peso de regras que já não têm poder sobre mim. Lembra o meu coração de que morri para aquilo que me acusava e agora pertenço a Cristo. Ensina me a viver como quem foi libertado, não como quem ainda está preso.
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