1 Samuel 19
O Texto
Saul declara abertamente aos seus servos e ao próprio filho que David deve morrer. Jônatas intercede e consegue um juramento do pai, que dura apenas até a próxima crise: a lança voa outra vez contra a parede, e David foge de noite, descido por uma janela pelas mãos de Mical, que engana os mensageiros com uma estátua na cama e uma pele de cabra. David chega a Samuel em Ramá, e ali acontece o mais estranho: cada grupo de soldados enviados para o prender começa a profetizar, e finalmente o próprio rei, alcançado pelo Espírito de Deus, despe as roupas e fica deitado nu diante de Samuel, um dia e uma noite inteiros.
O Núcleo
Repare no que o capítulo faz com a lança. Saul a tem "na mão" enquanto David toca música para o acalmar; o instrumento de cura e a arma de morte estão na mesma sala. E a lança acerta a parede. Sempre a parede. Não é sorte nem agilidade: é a mão invisível de Deus a proteger o seu ungido, sem trovões e sem anjos, apenas através de um desvio de corpo, de uma janela, de uma mulher astuta. O texto ensina algo desconfortável sobre a soberania: Deus guarda David não retirando-o do perigo, mas conduzindo-o através dele. A graça aqui não é ausência de ameaça; é fidelidade dentro da ameaça. O reino que Deus prometeu não avança por força, avança por preservação.
O Fio Condutor
David é o ungido perseguido pelo rei em exercício, salvo por gente que arrisca a própria posição por ele: o herdeiro legítimo do trono, que abdica com palavras em vez de espada, e a filha do rei, que mente ao próprio pai. Já se ouve aqui o padrão que atravessará toda a Escritura: o Ungido de Deus é rejeitado por quem detém o poder e defendido por quem nada ganha com isso. Jônatas argumenta: "Não peque o rei contra seu servo David, porque elle não peccou contra ti". É a lógica do inocente entregue à morte sem causa. David escapa pela janela; Aquele de quem David é sombra não escapará, e é precisamente aí que a fuga de David encontra o seu significado maior.
O Espelho
Há uma pergunta neste capítulo que corta: de que lado da sala você está quando alguém que você inveja é bem-sucedido? Saul viu com os próprios olhos o livramento que Deus deu por meio de David, alegrou-se com ele, e depois passou anos a tentar apagá-lo. Isso acontece em equipas de trabalho, em conselhos de igreja, entre irmãos que herdam de forma diferente. A inveja não nasce do ódio, nasce de uma alegria que se tornou insuportável. E há o outro lado: Jônatas e Mical mostram que proteger alguém tem custo, e que às vezes a fidelidade a Deus se parece com deslealdade a um sistema. Hoje: escreva num papel o nome da pessoa cujo sucesso mais lhe dói, e ore em voz alta, pelo nome, pedindo a Deus que a abençoe mais ainda.
A Pergunta
"O espirito mau da parte do Senhor se tornou sobre Saul." Não há como suavizar isso. O texto não diz que Deus permitiu, diz "da parte do Senhor". A Escritura não nos dá aqui um sistema; dá-nos um rei que se afastou deliberadamente da palavra de Deus e que agora se encontra entregue àquilo que escolheu. Há um juízo que consiste em ser deixado com o que se quis. Mas fica um resíduo que não se resolve: o mesmo Senhor que envia o espírito mau sobre Saul envia depois o seu Espírito sobre Saul, no chão de Ramá. Não sei conciliar os dois versículos numa fórmula limpa. Sei que o Deus da Bíblia é mais livre e mais temível do que o Deus dos nossos esquemas, e que essa liberdade é também o fundamento da nossa segurança.
O Personagem Principal
Saul é a figura mais trágica do Antigo Testamento. Ele não é um vilão de caricatura: jura sinceramente "Vive o Senhor, que não morrerá", e provavelmente naquele momento fala verdade. É um homem que sabe o que é certo, ouve bem os argumentos, e é depois arrastado por algo dentro de si que não controla. Chama David "o meu inimigo" a uma filha que acaba de o desobedecer. E o fim do capítulo é a imagem definitiva do seu reinado: o rei vai a Ramá para matar, e o Espírito o derruba, despido, no chão, ao lado de profetas, incapaz de fazer mal durante um dia e uma noite. Deus não o mata. Humilha-o. Há misericórdia nisso, e também um veredicto.
O Perfil
Israel leu isto quando já tinha reis, e reis que decepcionavam. Para aquele leitor, a pergunta não era académica: como se sabe se o rei no trono é aquele que Deus quer? A resposta do capítulo é subversiva para uma cultura em que o poder do rei era quase absoluto: o rei pode ter a lança, os mensageiros e a casa vigiada, e ainda assim ser impotente. O provérbio "Está também Saul entre os prophetas?" já corria no povo, provavelmente com um sorriso amargo, e este capítulo dá-lhe corpo: nem a unção, nem o cargo, nem a experiência do Espírito garantem um coração fiel. Para ouvintes que confundiam facilmente instituição com bênção, isto era um aviso severo e libertador ao mesmo tempo.
Reflexão
Onde, na sua vida, Deus tem protegido você de uma forma tão pouco espetacular que você quase não a reconheceu como protecção?
Saul teve experiências autênticas do Espírito e continuou a endurecer. O que, na sua rotina, o mantém realmente sob a palavra de Deus, e não apenas perto dela?
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Jônatas diz a Davi: "Eu sairei e estarei ao lado de meu pai no campo em que estiveres; falarei a teu respeito a meu pai, verei o que houver e to declararei." Repare onde ele escolhe ficar: ao lado do pai, no campo onde o amigo se esconde. Entre os dois. Você já arriscou seu lugar para defender alguém que não estava na sala?
Saul não desiste. Os mensageiros falharam três vezes, então ele mesmo vai. Para no poço e pergunta: "Onde estão Samuel e Davi?" A pergunta certa, o coração errado. Ele buscava Davi para matá-lo, e encontrou o Espírito de Deus. Às vezes Deus nos intercepta justo no caminho da nossa pior intenção.
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