2 Crônicas 10
O Texto
Siquém, não Jerusalém: é lá que Roboão tem de ir buscar a coroa do norte, e isso já diz tudo. O povo apresenta uma condição, não um juramento: alivia o jugo do teu pai e seremos teus servos. O rei pede três dias, ouve os velhos conselheiros de Salomão, prefere os amigos da sua geração, responde "asperamente" e perde dez tribos numa frase. O cobrador de impostos é apedrejado, o rei foge de carro para Jerusalém, e o reino de Davi fica partido "até ao dia d'hoje".
O Núcleo
Imagine o cheiro: multidões acampadas, animais, fogueiras, poeira de verão no vale entre o Ebal e o Gerizim. Essa gente veio de aldeias onde faltavam homens, porque tinham sido levados para as pedreiras e para o Líbano. O "jugo" não é metáfora piedosa; é trabalho forçado, é a glória do templo e dos palácios paga com costas suadas. E agora o texto diz algo desconfortável: Deus não defende a monarquia simplesmente porque é davídica. O Senhor confirma a palavra de Aías, o silonita, e o esplendor de Salomão é desmontado pela mesma mão que o construiu. Deus leva a sério o peso que os poderosos põem sobre os pequenos, mesmo quando esses poderosos são ungidos.
O Fio Condutor
O Cronista escreve séculos depois, para gente que voltou do exílio e vive numa Jerusalém pequena, sem rei. Quando leem "Olha agora pela tua casa, ó David", sabem exatamente como aquilo acabou: a casa ficou, mas sem trono. É por isso que a palavra "jugo" atravessa a Bíblia até chegar a outro filho de Davi, que diz "o meu jugo é suave e o meu fardo é leve" (Mateus 11). Não é um jogo de palavras bonito: é a resposta que Roboão tinha na mão e recusou. O rei que o povo pediu, benigno e afável, só aparece quando Deus mesmo o envia, e então junta o que a arrogância tinha dividido.
O Espelho
Repare em quem Roboão consultou em segundo lugar: "os mancebos, que haviam crescido com elle". Pessoas com a mesma idade, a mesma bolha, os mesmos privilégios. Diziam-lhe o que ele já queria ouvir, com uma imagem corporal grosseira para o fazer sentir-se homem. Todos fazemos isso. Escolhemos o grupo de WhatsApp que nos dá razão, o colega que confirma a nossa versão do conflito no trabalho, o amigo que acha que estamos certos sobre aquele irmão da igreja. E depois chamamos a isso oração, discernimento, convicção. Hoje: escreva num papel os nomes das três pessoas cujo conselho você realmente aceita, e veja se as três se parecem demasiado com você. Se sim, telefone hoje a alguém mais velho que não se parece nada com você.
O Protagonista
Roboão tem quarenta e um anos e o medo de um filho de homem grande. Herdou um império sem ter conquistado nada; toda a sua autoridade é emprestada do pai, e é precisamente por isso que não pode suportar a comparação. "O meu dedo minimo é mais grosso do que os lombos de meu pae": quem precisa de dizer isto já perdeu. Ele não é um tirano calculista, é um homem inseguro a imitar força. E nota-se na pressa final: manda Hadoram, e quando as pedras voam "se esforçou a subir para o seu carro". O verbo trai o corpo, um homem desajeitado a trepar para a carruagem enquanto o reino se desfaz. A dureza era fachada; por baixo, pânico.
A Pergunta
O versículo 15 não se desvia: "esta mudança vinha de Deus". Então Roboão foi culpado ou foi instrumento? O texto diz as duas coisas sem pedir desculpa, e recusa-se a explicar como encaixam. Não diz que Deus o obrigou a ser arrogante; diz que Deus usou a arrogância que ele escolheu. E isso não nos consola, porque significa que os nossos piores momentos podem ser exatamente os pontos onde a história de Deus avança, sem que isso nos absolva de nada. O Cronista conhece o Deus que governa também a estupidez humana. Mas nunca sugere que Roboão possa, mais tarde, dizer: afinal era a vontade de Deus. Ninguém é desculpado por ter sido útil.
O Detalhe
Repare em quem o rei envia depois da ruptura: "Hadoram, que tinha cargo dos tributos". De todas as pessoas disponíveis, o rei manda o funcionário dos impostos, o rosto exato da queixa que acabara de ouvir. Isto não é crueldade, é surdez; Roboão ainda não entendeu o que aconteceu em Siquém. Para ele o problema é administrativo, uma questão de cobrança atrasada. As pedras que matam Hadoram são a tradução brutal daquilo que o povo tinha tentado dizer com palavras três dias antes. Quando não ouvimos o pedido, recebemos a revolta; e normalmente é alguém no meio, um subordinado, um funcionário, um filho, quem leva as pedras em nosso lugar.
Reflexão
Onde, nesta semana, você preferiu uma resposta dura a uma resposta verdadeira, e porquê?
Que peso você está a pôr sobre alguém que depende de você, e que esse alguém já tentou nomear sem que você ouvisse?
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Perguntas frequentes sobre 2 Chronicles 10
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Pai, me ajuda a ouvir bem. É fácil procurar conselho só em quem vai confirmar o que eu já quero fazer. Dá me coragem para escutar as vozes mais sábias, e sensibilidade para não tornar pesada a vida de quem está perto de mim.
Roboão perguntou aos anciãos: "Como aconselhais vós que se responda a este povo?" A pergunta era boa. O coração é que já estava decidido. Ele só continuou procurando até achar quem dissesse o que ele queria ouvir. Quantas vezes pedimos conselho assim, não para mudar de rumo, mas para encontrar companhia no caminho que já escolhemos?
Assim se rebelou Israel contra a casa de Davi até ao dia de hoje." Uma resposta dura, dita num só dia, dividiu um povo por gerações. Roboão quis mostrar força e perdeu dez tribos. Pense na palavra que você está prestes a dizer em casa. Ela pode continuar ecoando muito depois que você esquecer.
Veio, pois, Jeroboão e todo o povo a Roboão, ao terceiro dia, como o rei havia ordenado." Três dias. Tempo suficiente para ouvir os anciãos, orar, pesar tudo. Roboão usou esse tempo para procurar quem repetisse o que ele já queria ouvir. E o povo voltou confiando nele. Quando você pede um prazo para decidir, quem você chama para conversar?
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