Mateus 6
O Texto
Jesus toma as três colunas da devoção judaica, a esmola, a oração e o jejum, e faz a mesma pergunta a cada uma delas: para quem é isto? Se é para os olhos das pessoas, então o pagamento já foi feito e não sobra nada; se é para o Pai "que vê em secreto", então há recompensa, mas ela vem de outra mão. No meio disso ele entrega a oração que resume tudo: nome, reino, vontade, pão, perdão, livramento. Depois desloca a mesma lógica para o dinheiro e para o tempo: não acumules onde a traça come, não sirvas a dois senhores, não te inquietes com o amanhã. Olha para as aves. Olha para os lírios. Busca primeiro o reino.
O Núcleo
O que está em jogo aqui não é a intensidade da nossa piedade, mas o seu público. Jesus não diz que a esmola dada em público é ineficaz para o pobre; diz que já recebeu o seu pagamento, e que quem paga é a plateia. Deus aparece três vezes como "teu Pae, que vê em occulto", e essa é a raiz de toda a ética do capítulo: existe um olhar que não precisa ser conquistado, e por isso todo o esforço de aparecer se torna desnecessário. Daí a frase que vira do avesso a nossa psicologia comum: "onde estiver o vosso thesouro, ahi estará tambem o vosso coração". Não é o coração que arrasta o tesouro; é o tesouro que arrasta o coração. Mude o destino do seu dinheiro e o afeto seguirá atrás. E Mammon não é uma tentação, é um senhor com pretensões salariais.
O Fio Condutor
Repare em quem Jesus ensina a chamar de Pai. Ele não diz "orem ao Altíssimo", diz "Pae nosso", e coloca essa palavra na boca de camponeses endividados. Isso só é possível porque quem ensina a oração é o Filho: ele partilha o seu próprio acesso. E o próprio Jesus orará mais tarde, no Getsêmani, a frase central desta oração, "seja feita a tua vontade", num lugar onde ela custou tudo. A oração que aqui parece simples foi, na verdade, rezada até o fim por ele, e o pedido "perdoa-nos as nossas dividas" encontrou resposta numa cruz. Por isso o capítulo não é um código de conduta religiosa superior; é a descrição da vida de quem já foi acolhido. O reino que pedimos que venha já entrou pela porta com aquele que nos manda pedir.
O Espelho
A tentação moderna não é tocar trombeta na sinagoga, é a fotografia. O donativo que precisa de um post, o jejum mencionado casualmente na conversa, o serviço na igreja que se torna insuportável quando ninguém agradece. Jesus não condena a visibilidade em si; ele diz que ela é um pagamento, e que quem recebe esse pagamento fica com ele em vez da recompensa do Pai. É um cálculo, não um insulto. E depois vem a parte mais desconfortável: o dinheiro. Não "não ames o dinheiro", mas "ninguem pode servir a dois senhores". A pergunta não é se você tem poupança, é quem decide o seu calendário, a sua escolha de emprego, a sua tolerância ao risco de perder. Quem responde a essas perguntas é o seu senhor. E a inquietação das três da manhã sobre a hipoteca, a saúde, os filhos, Jesus chama-lhe "pouca fé" sem pedir desculpa, e ao mesmo tempo manda olhar para as aves, o que é uma forma estranhamente terna de repreensão.
Hoje: entre num quarto, feche a porta, deixe o telefone fora, e reze o Pai Nosso em voz alta, devagar. Ao chegar a "assim como nós perdoamos aos nossos devedores", pare e diga em voz alta o nome da pessoa que lhe deve algo.
A Pergunta
Os versículos 14 e 15 não se deixam domesticar: "Se, porém, não perdoardes aos homens as suas offensas, tambem vosso Pae vos não perdoará as vossas offensas." Isto soa a condição, e nós fomos ensinados que a graça não tem condições. Não vale fingir que Jesus quis dizer outra coisa. O que se pode dizer honestamente é isto: o perdão não é uma moeda que compramos com boas atitudes, mas é algo que se recebe com as mãos abertas, e uma mão fechada em torno de uma dívida não consegue receber nada. Quem se recusa a perdoar declara, na prática, que as dívidas devem ser pagas, e escolhe assim o regime em que ele próprio será julgado. Isso não torna a frase mais suave. Deixa-a onde está: como um aviso, não como um enigma.
O Perfil
Quem ouvia isto vivia da colheita e do jornal diário. "O pão nosso de cada dia nos dá hoje" não era poesia devocional, era o salário de hoje para a refeição de hoje. Os tesouros que a traça come e a ferrugem consome são roupas e utensílios de metal, a poupança real de uma casa camponesa, e ladrões que "minam" cavam mesmo através das paredes de barro. A esmola, nessa sociedade, era o sistema de segurança social e também o mercado da honra: dar publicamente comprava reputação, e quem recebia sabia a quem devia. Jesus corta esse fio. E quando fala do "olho bom" e do "olho mau", usa uma expressão corrente que significava generoso e mesquinho. O olho que mede tudo com desconfiança escurece a casa toda.
O Intertexto
Êxodo 16 está por baixo deste capítulo como um baixo contínuo: o maná que se recolhia dia a dia, e que apodrecia se alguém tentasse fazer reserva para amanhã. Israel aprendeu no deserto exatamente aquilo que Jesus pede aqui, e aprendeu murmurando. "Basta a cada dia o seu mal" não é otimismo; é a disciplina de quem recebe rações, não patrimónios. O contraste vem de dentro do próprio texto: Salomão, o homem dos armazéns e das frotas, aparece vestido pior que uma flor de campo. A glória acumulada perde para a glória dada. E o Getsêmani mostra o preço: dizer "seja feita a tua vontade" pode significar receber, em vez de pão, um cálice.
Reflexão
Se amanhã ninguém pudesse saber nada do bem que você faz, o que continuaria a fazer e o que deixaria cair?
Olhe para a sua última grande decisão prática, de dinheiro, de tempo, de emprego. Qual dos dois senhores a assinou?
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Perguntas frequentes sobre Matthew 6
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Porque Deus, o vosso Pai, sabe do que tendes necessidade, antes que lho peçais." Então por que orar? Não para informar, nem para convencer. Você ora porque precisa ouvir a própria voz dizendo em quem confia. Repare: Jesus não diz "Deus sabe", diz "o vosso Pai sabe". Isso muda o tom da oração inteira.
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