Atos 13
O Texto
Em Antioquia, um grupo misto de profetas e mestres, um africano, um cireneu, um homem criado na corte de Herodes, jejua e adora, e no meio desse silêncio o Espírito fala: "Apartae-me a Barnabé e a Saulo para a obra para que os tenho chamado." Eles partem, atravessam Chipre, enfrentam um mago que tenta impedir a fé de um procônsul, perdem um companheiro pelo caminho e chegam a Antioquia da Pisídia. Ali, num sábado comum, Paulo se levanta na sinagoga e conta a história inteira de Israel até chegar ao túmulo vazio. Na semana seguinte quase a cidade toda aparece. E então vem a inveja, a contradição, a expulsão. O capítulo termina com uma frase que não combina com nada disso: os discípulos ficaram cheios de alegria.
O Cerne
O capítulo inteiro gira em torno de uma iniciativa que não é humana. Ninguém em Antioquia propôs uma estratégia missionária; o Espírito interrompeu uma reunião de oração e disse o que já havia decidido. E no coração do sermão de Paulo está a mesma lógica: Deus escolheu, Deus tirou do Egito, Deus suportou, Deus levantou juízes, Deus levantou Davi, Deus levantou Jesus, Deus o ressuscitou. O verbo se repete até doer. A conclusão não é moral, é jurídica e libertadora: "de tudo o que, pela lei de Moysés não podestes ser justificados n'este é justificado todo aquelle que crê." Aquilo que a obediência não conseguiu produzir, a graça entrega de graça. Fica a pergunta incômoda: por que isso provoca alegria em uns e inveja em outros?
O Fio Condutor
Repare no que Paulo faz com a história de Israel: ele a conta como uma linha que não se quebra, mas que também não se explica sozinha. Davi serviu, dormiu, "e viu a corrupção". O túmulo de Davi ainda estava em Jerusalém quando Paulo falava. A promessa, portanto, apontava para além de quem a recebeu. É essa a chave de todo o sermão: o Salmo 2 e a promessa das "sanctas e fieis bençãos de David" só encontram carne num homem que a morte não conseguiu segurar. Israel inteiro, o Egito, o deserto, os juízes, os reis, tudo isso não é pano de fundo decorativo; é a longa gestação de uma frase: "Porém Deus o resuscitou dos mortos." E o mais estranho é que os que condenaram Jesus, sem saber, cumpriram as vozes que liam todo sábado. A rejeição também serviu ao propósito. Isso não nos consola facilmente. Deveria nos silenciar um pouco.
O Espelho
Há uma palavra neste capítulo que talvez você reconheça melhor do que gostaria: inveja. Não é dúvida teológica que fecha a sinagoga de Antioquia, é ver a multidão e sentir que algo seu está sendo tirado. Acontece quando o colega mais novo recebe a promoção que você esperava, quando o grupo que você fundou cresce sob a liderança de outro, quando a graça alcança alguém que, no seu íntimo, você achava menos merecedor. Paulo diz uma frase terrível: "vos não julgaes dignos da vida eterna." Ninguém disse isso a eles; eles mesmos disseram, com o comportamento. E depois há João Marcos, que simplesmente foi embora, sem explicação no texto. Também isso é um espelho. Nem toda saída tem motivo declarado. Você já saiu de algum lugar sem dizer por quê?
O Perfil
Os primeiros ouvintes de Lucas viviam num mundo em que religião e cidadania estavam entrelaçadas. Na sinagoga de Antioquia da Pisídia havia judeus, prosélitos e aquele grupo curioso que Paulo cumprimenta separadamente: "os que temeis a Deus", gentios atraídos pelo Deus de Israel mas sem circuncisão, sem lugar pleno, sempre na periferia do pátio. Imagine ouvir, sentado nesse banco de segunda classe, que a palavra desta salvação é enviada também a você, sem passar pela porta estreita da Lei. Não é de estranhar que tenham pedido para ouvir o mesmo de novo no sábado seguinte, nem que a cidade inteira tenha aparecido. Para quem estava dentro, isso soava como perda de fronteira. Para quem estava fora, soava como a primeira porta aberta da vida.
O Personagem Principal
Paulo aparece aqui com dois nomes na mesma frase, "Saulo, que tambem se chama Paulo", e a partir desse versículo Lucas nunca mais o chama de Saulo. Algo vira. Ele encara Elimas e o chama de filho do diabo, cego temporário diante do sol, e é impossível não lembrar que ele mesmo ficou cego a caminho de Damasco e precisou de alguém que o guiasse pela mão. Será que Paulo viu isso? O texto não diz. Ele fala com autoridade e com ternura no mesmo capítulo: dureza contra quem torce os caminhos retos do Senhor, insistência gentil com os que o seguiram, exortando-os "a que permanecessem na graça de Deus". Um homem marcado pela misericórdia costuma ser assim: incapaz de ser morno com quem a obstrui.
Contexto
Estamos por volta do ano 46 ou 47. Antioquia da Síria era a terceira cidade do império, mistura de línguas e cultos, e a igreja ali já era um sinal do que viria: um judeu chamado Simeão apelidado Níger, um cireneu, um homem criado com Herodes o tetrarca. Chipre era a terra de Barnabé. Um procônsul romano como Sérgio Paulo era o homem mais poderoso da ilha, e ter um mago na corte era prática comum entre aristocratas romanos, que colecionavam adivinhos como quem colecionava conselheiros. Antioquia da Pisídia era colônia romana, com elite bem definida, e por isso a perseguição vem exatamente pelas "mulheres religiosas e honestas" e pelos "principaes da cidade": as redes de influência local. Sacudir o pó dos pés era gesto conhecido, uma ruptura formal. E ainda assim: alegria.
Onde, na sua vida de fé, você tem esperado uma estratégia quando o texto sugere que Deus interrompe e envia sem consultar?
O que em você reage como inveja quando a graça de Deus alcança alguém que você não teria escolhido?
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Senhor, quando me abrirem espaço para falar, dá me uma palavra que console e não que pese. E quando for a minha vez de ouvir, deixa meu coração aberto ao que preciso escutar, mesmo que venha de alguém que eu não esperava.
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