Explicação bíblica

Jó 10

Bíblia
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O Texto

Jó desiste de se conter. Já que sua alma está farta da vida, ele solta a rédea da queixa e fala amargamente: quer saber a acusação, quer o processo aberto, quer entender por que Deus contende com ele. No meio da protesta vem uma lembrança quase terna, o Criador que o moldou como barro, que o coalhou como queijo, que o vestiu de pele e carne e o amarrou com ossos e nervos. E é justamente essa lembrança que se torna a acusação: quem me fez com tanto cuidado agora me consome. O capítulo termina no fundo, com Jó desejando nunca ter saído do ventre e pedindo a Deus apenas isto: afasta-te um pouco, deixa-me respirar antes que eu vá para a terra escuríssima.

O Núcleo

O eixo do capítulo está no versículo 8: "As tuas mãos me fizeram e me formaram todo em roda; comtudo me consomes." Note o "comtudo". Jó não abandona a doutrina da criação para explicar seu sofrimento; ele segura as duas pontas e deixa que o cabo se estique até doer. Deus é o oleiro, e Deus é o caçador de leões do versículo 16. Jó não resolve a contradição, ele a leva a Deus. E no versículo 7 diz o que ninguém no livro tinha coragem de dizer: "Bem sabes tu que eu não sou impio: todavia ninguem ha que me livre da tua mão." Aqui não é ateísmo, é fé sem anestesia. O drama de Jó não é a dúvida sobre a existência de Deus, mas a ausência de alguém que possa ficar entre ele e Deus.

O Fio Condutor

O versículo 4 é uma pergunta retórica: "Tens tu porventura olhos de carne? vês tu como vê o homem?" Jó espera um não. Claro que não. Deus não é limitado como nós, não precisa de dias e anos para apurar um pecado. Mas o evangelho responde àquela pergunta de um jeito que Jó não imaginava: sim. A palavra hebraica que ele usa, basar, carne, é exatamente aquilo que João diz que o Verbo se tornou. Deus assumiu olhos de carne, olhos que choraram diante de um túmulo, que se fecharam na cruz. E o clamor do versículo 7, ninguém há que me livre da tua mão, encontra sua resposta em alguém que pertence aos dois lados, Deus verdadeiro e homem verdadeiro. Jó não está profetizando. Ele está formulando a pergunta que o Antigo Testamento inteiro carrega e que só Cristo fecha.

O Espelho

Leia o versículo 15 devagar: "Se fôr impio, ai de mim! e se fôr justo, não levantarei a minha cabeça." É o cansaço de quem já não sabe mais o que fazer com a própria consciência. Você o reconhece no exame que voltou alterado, no cargo que foi eliminado sem explicação, no filho que parou de responder às mensagens. E reconhece também o medo do versículo 14, o medo de um Deus que observa apenas para registrar falhas, um fiscal celeste com prancheta. Muitos de nós rezamos assim sem admitir. O que Jó desmonta é aquela contabilidade silenciosa que fazemos: se eu me comportar, Deus me protege. Repare, porém, que ele não para de falar com Deus. A amargura dele é dirigida, não dispersa. Isso ainda é oração.

A Intertextualidade

O Salmo 139 usa quase a mesma imagem, o corpo tecido no ventre, os olhos de Deus sobre o embrião. Ali a imagem consola; aqui, em Jó 10, a mesma teologia acusa. Não é contradição, é a diferença entre cantar de dia e rezar de noite. A Escritura guarda as duas. E depois há o Salmo 22, com seu "por que me desamparaste", que Jesus toma nos lábios na cruz. Jó pede "faze-me saber porque contendes comigo" e não recebe resposta. Cristo faz a mesma pergunta, sendo o único que de fato podia dizer com plena verdade o que Jó diz no versículo 7: não sou ímpio. E ele também não recebeu explicação, apenas o silêncio e depois a manhã do terceiro dia.

O Perfil

Os primeiros ouvintes viviam num mundo onde a equação era simples: justo prospera, ímpio sofre. Os amigos de Jó não são vilões, são a voz do senso comum religioso. Ouvir Jó dizer que Deus resplandece sobre o conselho dos ímpios era ouvir alguém rasgar o tecido da ordem moral. Havia mais: nas religiões vizinhas os deuses precisavam investigar, interrogar, descobrir. Jó usa isso como argumento, tu não és assim, então por que age como se fosse? E o fim do capítulo pesava sobre eles mais do que sobre nós. A terra "sem ordem alguma" é o desfazimento de Gênesis 1, o retorno ao caos. Sem uma esperança clara de ressurreição, o versículo 22 era literalmente o fim da linha.

A Pergunta

Por que Deus deixa sua criatura amada no escuro sem explicação? Jó pede a razão e nunca a recebe. Nós, leitores, sabemos do conselho celeste dos capítulos 1 e 2; Jó morre sem saber. E quando Deus finalmente fala, no capítulo 38, ele não responde à pergunta, ele muda o assunto para avestruzes e constelações. Isso incomoda, e deve incomodar. O evangelho não desfaz esse silêncio com informação; ele o desfaz com presença. Cristo não traz a planilha das causas, traz suas próprias cicatrizes. Para alguns isso é insuficiente, e eu entendo. Mas talvez o que Jó realmente queria não fosse a explicação, e sim alguém do outro lado que soubesse, por dentro, o que é ser barro.

Reflexão

Onde, na sua oração, você tem sido cuidadoso e educado quando o texto de Jó lhe daria permissão para ser amargo e direto?

Se a resposta de Deus ao sofrimento é presença e não explicação, o que isso muda no que você diz a quem está sofrendo ao seu lado?

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Perguntas frequentes sobre Job 10

Respostas rápidas às perguntas mais comuns sobre esta passagem bíblica.

O que significa Jó 10?
Jó desiste de se conter. Já que sua alma está farta da vida, ele solta a rédea da queixa e fala amargamente: quer saber a acusação, quer o processo aberto, quer entender por que Deus contende com ele. No meio da protesta vem uma lembrança quase terna, o Criador que o moldou como barro, que o coalhou como queijo, que o vestiu de pele e carne e o amarrou com ossos e nervos.
Sobre o que fala Jó 10?
O versículo 4 é uma pergunta retórica: "Tens tu porventura olhos de carne? vês tu como vê o homem?" Jó espera um não. Claro que não. Deus não é limitado como nós, não precisa de dias e anos para apurar um pecado. Mas o evangelho responde àquela pergunta de um jeito que Jó não imaginava: sim.
Qual é o contexto histórico de Jó 10?
O Salmo 139 usa quase a mesma imagem, o corpo tecido no ventre, os olhos de Deus sobre o embrião. Ali a imagem consola; aqui, em Jó 10, a mesma teologia acusa. Não é contradição, é a diferença entre cantar de dia e rezar de noite. A Escritura guarda as duas. E depois há o Salmo 22, com seu "por que me desamparaste", que Jesus toma nos lábios na cruz.
O que Jó 10 nos ensina sobre o caráter de Deus?
Por que Deus deixa sua criatura amada no escuro sem explicação? Jó pede a razão e nunca a recebe. Nós, leitores, sabemos do conselho celeste dos capítulos 1 e 2; Jó morre sem saber. E quando Deus finalmente fala, no capítulo 38, ele não responde à pergunta, ele muda o assunto para avestruzes e constelações.
Como Jó 10 continua relevante hoje?
Se a resposta de Deus ao sofrimento é presença e não explicação, o que isso muda no que você diz a quem está sofrendo ao seu lado?
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Reflexão Editorial em versículo 6

Jó pergunta a Deus: "Para que indagues da minha iniquidade, e inquiras do meu pecado?" É o clamor de alguém que se sente investigado como um criminoso pelo próprio Criador.

Você já orou assim? Não com palavras bonitas, mas com a dor exposta. Jó nos ensina que Deus suporta a nossa pergunta crua. Ele não foge de quem se aproxima ferido.

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