Jó 33
O Texto
Eliú, o mais jovem dos que rodeiam Jó, finalmente toma a palavra e insiste que Jó o escute até o fim. Ele se coloca ao lado de Jó, não acima dele: também foi cortado do barro, também depende do sopro do Todo-poderoso. Repete a queixa de Jó ("limpo estou, sem transgressão") e responde que Deus não é um réu obrigado a se explicar; Deus fala de outras formas, em sonhos, em advertências noturnas, e mesmo na dor da cama de um doente, para arrancar o homem da cova. E se houver um mensageiro, um intérprete, então Deus dirá: "já achei resgate".
O Núcleo
O centro deste capítulo é uma afirmação incômoda e libertadora ao mesmo tempo: Deus fala mais do que ouvimos. "Antes Deus fala uma e duas vezes; porém ninguém atenta para isso." O problema não é o silêncio de Deus, diz Eliú, é a surdez humana. E o propósito dessa fala não é humilhar, mas resgatar: "para apartar o homem daquilo que faz, e esconder do homem a soberba". Note a direção do movimento. Deus não fala para nos arrasar, mas para nos desviar da cova antes de chegarmos lá. Eliú também não abre mão da assimetria fundamental: "maior é Deus do que o homem". Não é uma frase para calar quem sofre, mas para lembrar que ninguém intima o Criador ao banco das testemunhas.
O Fio Condutor
O versículo 23 é uma das faíscas mais surpreendentes do Antigo Testamento: "Se com ele pois houver um mensageiro, um intérprete, um entre milhares, para declarar ao homem a sua retidão." Jó já havia gemido por alguém que pusesse a mão sobre os dois lados, alguém entre ele e Deus. Aqui Eliú, quase sem perceber o tamanho do que diz, aponta para essa figura: um único intérprete no meio de milhares, e junto dele uma palavra que ainda hoje ecoa, "já achei resgate". O termo hebraico é kofer, o preço que cobre uma vida devida. Eliú não sabe o nome desse mediador. Nós sabemos. O Novo Testamento chamará Cristo de o único mediador que se deu a si mesmo em resgate, e o que aqui é hipótese ("se houver") lá é fato consumado.
O Espelho
Eliú faz uma pergunta que arde: e se Deus já tiver falado com você três vezes esta semana e você tenha classificado tudo como coincidência, mau humor, insônia, cansaço? A noite em que você acordou às três da manhã com aquele nome na cabeça. A conversa que ficou atravessada. O exame de rotina que veio alterado. Não estou dizendo que sua dor é castigo; o livro de Jó existe justamente para destruir essa equação. Mas estou dizendo o que Eliú diz: a soberba é a coisa mais bem escondida de nós mesmos, e às vezes só um golpe na saúde, na carreira ou na reputação nos mostra o quanto construímos nossa identidade sobre sermos irrepreensíveis. "Limpo estou, sem transgressão" é uma frase que dizemos com outras palavras: eu não tenho nada a pedir desculpas, fiz tudo certo, o problema é o outro.
Hoje, faça isto: sente-se em silêncio por cinco minutos, sem celular, e pergunte em voz alta a Deus uma única coisa: "Onde é que estou orgulhoso e não vejo?" Depois escreva a primeira resposta que vier, mesmo que seja uma frase curta e desconfortável.
O Intertexto
Salmo 32 descreve exatamente o percurso do versículo 27 ao 28: o silêncio que faz os ossos consumirem-se, e depois a confissão que traz alívio. Eliú antecipa esse padrão, colocando na boca do homem restaurado uma frase sem desculpas: "Pequei, e perverti o direito, o que de nada me aproveitou." Do outro lado está o contraste: o próprio Deus, em Jó 42, dirá que Jó falou dele o que era reto, e os amigos não. Isto nos obriga a ler Eliú com honestidade dupla. Sua teologia da advertência é verdadeira e bela; sua aplicação a Jó é errada. Nem toda dor é pedagógica, e é uma crueldade insistir nisso diante de quem chora.
O Perfil
Os primeiros ouvintes deste livro conheciam sonhos e visões como canais normais de comunicação divina; não achavam estranho que Deus selasse instrução no ouvido de alguém à noite. Conheciam também a economia do resgate: um valor pago para libertar um escravo, salvar um condenado, cobrir um sangue derramado. Quando ouviam "já achei resgate", pensavam em dinheiro real, em transação real, em alguém pagando. E conheciam a cova, o Sheol, como lugar sem retorno. Ouvir que Deus procura ativamente o que impeça alguém de descer até lá, duas e três vezes, era ouvir algo quase escandaloso a respeito da paciência divina.
O Detalhe
"Uma e duas vezes" no versículo 14; "duas e três vezes" no versículo 29. Não é vago, é hebraico: uma forma de dizer repetidamente, insistentemente, mais vezes do que se poderia esperar. É a linguagem de quem bate na porta e não desiste na primeira. E entre as duas ocorrências está toda a lista dos meios: sonho, visão, dor, febre, magreza, e por fim o mensageiro. Deus varia o instrumento porque o alvo é uma pessoa, não uma lição. A pergunta que sobra não é se Deus falou. É quantas vezes.
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Se você fizesse uma lista das três últimas vezes em que algo interrompeu o seu ritmo, o que aconteceria se você tratasse uma delas como fala de Deus e não como acidente?
Onde você se parece mais com Eliú, aplicando uma verdade correta a uma pessoa errada?
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Perguntas frequentes sobre Job 33
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Eis que nisto não tens razão; eu te responderei, pois Deus é maior do que o homem." Eliú não nega a dor de Jó, ele só toca no ponto onde a dor virou acusação. Talvez você também esteja exigindo explicações de Alguém que é maior que sua capacidade de entender. Deus não te deve resposta. E mesmo assim se aproxima.
Obrigado, Senhor, porque falas comigo pelo nome, como Eliú disse a Jó: "Agora, pois, ó Jó, ouve as minhas razões." No meio da minha dor não me deixaste no silêncio. Ainda envias palavras, ainda me chamas a escutar. Sou grato por esse cuidado tão pessoal.
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