Juízes 8:1
O Texto
A poeira ainda não assentou. Midiã está quebrada, os trezentos homens de Gideão estão exaustos, e a primeira voz que se ouve depois da vitória não é um cântico: é uma queixa. Os homens de Efraim chegam com uma pergunta que soa a acusação: "Que é isto que nos fizeste, que não nos chamaste, quando foste pelejar contra os midianitas?" E o texto acrescenta uma frase seca, quase um ruído de fundo que não passa: "E contenderam com elle fortemente."
O Cerne
Repare no que falta neste versículo. Deus não aparece. Nem uma palavra. Acabou de acontecer o impossível, um exército desfeito por trezentos homens com cântaros e tochas, precisamente para que ninguém pudesse reclamar o crédito, e a primeira reação registada em Israel é uma disputa sobre quem devia ter sido convidado. O verbo hebraico aqui é rîb, o termo dos tribunais, de uma queixa formal apresentada contra alguém. Efraim não desabafa; processa. E isso diz algo desconfortável sobre nós: a salvação que Deus faz de graça é imediatamente convertida em moeda de honra entre os salvos. O milagre mal arrefeceu e já se discute a repartição da glória de um feito que não foi de ninguém.
O Fio Condutor
O livro dos Juízes conta duas histórias ao mesmo tempo. Em primeiro plano, Deus livra o seu povo repetidamente dos inimigos de fora. Em segundo plano, e cada vez mais alto, o povo desfaz-se por dentro. Este versículo é uma das primeiras rachaduras visíveis nessa parede. A ameaça a Israel deixará de vir de Midiã e passará a vir de Israel. Nenhum juiz consegue curar isto, porque nenhum deles é imune a isto: o próprio Gideão, que aqui responde com brandura, dentro de poucos versículos ameaça trilhar carne humana com espinhos. O que o texto faz, sem dizer, é abrir espaço para um Salvador que não precise de defender a sua honra, que não conte votos nem convites, e cuja vitória não pode ser reclamada por ninguém porque foi ganha sozinho, fora da cidade, sem apoiantes.
O Espelho
A pergunta de Efraim é uma das mais humanas de toda a Escritura: por que é que não me chamaram? Você conhece-a. O projeto que avançou sem si na reunião de segunda-feira. A decisão sobre o pai idoso tomada entre os irmãos num telefonema em que você não entrou. O grupo da igreja que se reorganizou e alguém se esqueceu de lhe dizer. E note a mecânica: a ferida não é a derrota, é a vitória alheia. Ninguém se queixa de não ter sido chamado para o fracasso. O que dói não é ter ficado de fora do trabalho, é ter ficado de fora do reconhecimento. Deixe a pergunta ficar sem resposta rápida: quando foi a última vez que alguém venceu sem si e você se alegrou sem esforço?
O Intertexto
Efraim volta a fazer exatamente isto em Juízes 12, com Jefté, e com a mesma pergunta. Só que Jefté não responde com brandura, e o episódio termina com quarenta e dois mil mortos numa passagem do Jordão, israelitas mortos por israelitas por causa da pronúncia de uma palavra. O mesmo orgulho, duas respostas diferentes, dois desfechos separados por um abismo. E há um eco mais distante: o irmão mais velho da parábola de Lucas 15, parado à porta enquanto lá dentro se celebra, recusando-se a entrar porque ninguém contou com ele. A festa é verdadeira nos dois casos. E nos dois casos alguém prefere a sua mágoa à festa.
O Perfil
Para quem ouvia esta história no antigo Israel, "Efraim" não era um nome qualquer. Era a tribo de José, a tribo de Josué, a tribo onde ficava o santuário de Siló. Efraim tinha estatuto, memória e a convicção sincera de que a liderança lhe pertencia por direito. Gideão, por contraste, vinha de Abiezer, um clã pequeno dentro de Manassés, o irmão mais novo e menor. O escândalo, para os ouvintes, era esse: os grandes foram ignorados e os pequenos foram usados. Quem lia isto já sabia como a história acabaria, com o reino dividido e o norte, chamado precisamente Efraim pelos profetas, a separar-se de Judá. Este versículo é a primeira rachadura de uma fratura que levará séculos a abrir-se por completo.
A Personagem Central
Os homens de Efraim chegam tarde, armados de razão. Não são traidores nem cobardes; combateram, capturaram Orebe e Zeebe, fizeram a parte mais visível do trabalho de limpeza. Talvez seja isso que torna o episódio tão reconhecível: não é a inveja dos ociosos, é o ressentimento dos que ajudaram e acham que ajudaram de menos. Por baixo da indignação há medo, o medo antigo de se tornar dispensável, de que a história siga sem nos mencionar. E há algo que o texto não resolve: Gideão acalma-os com uma palavra, a ira abranda, mas nada indica que tenham mudado. O orgulho foi lisonjeado, não convertido. Fica a pergunta suspensa sobre o resto do capítulo, e sobre nós: quantas pazes fazemos que são apenas o nosso amor-próprio devidamente alimentado?
Reflexão
Onde, nesta semana, a sua mágoa foi na verdade uma pergunta sobre reconhecimento disfarçada de pergunta sobre justiça?
Se Deus vencesse algo importante na sua igreja, na sua família ou no seu trabalho sem o chamar, o que é que isso revelaria sobre aquilo que você realmente procura ao servir?
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Senhor, esse relato me incomoda. Vejo em mim os dois lados: a dureza de quem nega pão a quem está exausto e a vontade de revidar quando me ferem. Ensina meu coração de outro jeito, com misericórdia, e não com espinhos.
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