Mateus 26:28
O Texto
Na mesa da Páscoa, depois de partir o pão, Jesus levanta o cálice, dá graças e o entrega aos doze com uma frase que desarruma tudo: "isto é o meu sangue, o sangue do Novo Testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos peccados." Ele não comenta o sangue do cordeiro pascal que estava sobre a mesa; fala do próprio sangue, ainda dentro do corpo, já descrito como derramado. E diz para quem serve: para muitos, com um propósito exato, o perdão dos pecados. Num mesmo gole, Jesus interpreta a sua morte antes que ela aconteça e convida os discípulos a bebê-la.
O Cerne
Três palavras carregam o peso do mundo: sangue, aliança, remissão. No Sinai, Moisés aspergiu sangue sobre o povo dizendo que ali estava o sangue da aliança (Êxodo 24), e desde então Israel soube que a comunhão com um Deus santo nunca é barata nem automática: alguém morre para que a relação viva. Jesus assume essa linguagem e a desloca para si. Ele não oferece um animal substituto; oferece a si mesmo, e com isso declara que o problema entre Deus e nós é real, não um mal-entendido que boa vontade resolve. O pecado precisa ser remido, não ignorado. Mas repare na direção do movimento: o juiz não cobra, o juiz paga. A graça aqui não suaviza a justiça, ela a atravessa e sai do outro lado como perdão concreto, servido num copo.
O Fio Condutor
Jeremias prometeu dias em que Deus faria uma aliança nova, não como a do Sinai que o povo quebrou, e cujo centro seria este: "perdoarei a sua maldade, e nunca mais me lembrarei dos seus pecados" (Jeremias 31). Jesus pega nessa promessa gasta por séculos de espera e diz que ela se cumpre no seu sangue. É por isso que a palavra "novo" no versículo não é um detalhe decorativo. Toda a história anterior, cordeiros, altares, dia da expiação, era um sistema que funcionava por repetição, porque nenhum sacrifício conseguia encerrar o assunto. Aqui o assunto se encerra. E note onde isso acontece: numa Páscoa, a festa da libertação do Egito. Jesus não abandona aquela história, ele a leva ao seu destino. O êxodo de um povo de debaixo de Faraó torna-se o êxodo de uma humanidade de debaixo da morte, e o sangue que antes marcava as portas agora é bebido.
O Espelho
Há uma maneira sutil de esvaziar este versículo sem jamais negá-lo: continuar acreditando que o perdão depende do seu desempenho desta semana. Você sabe de cor que Cristo morreu por você, e mesmo assim trata o fracasso de ontem, aquela explosão com o filho, aquele e-mail mesquinho, aquele hábito que você jurou abandonar em janeiro, como se fosse uma dívida que você ainda precisa pagar com culpa suficiente. Mas o cálice não foi oferecido a pessoas resolvidas. Foi oferecido a uma mesa onde um já havia negociado trinta moedas e outro juraria lealdade antes de negar três vezes. "Bebei d'elle todos", disse Jesus, sabendo exatamente quem estava sentado ali. Hoje, antes de dormir, diga em voz alta, nomeando o pecado específico que mais pesa em você neste momento: "isto também está incluído no sangue derramado para remissão dos pecados".
A Pergunta
"Derramado por muitos" é uma expressão que incomoda. Por que não "por todos"? Durante séculos essa única palavra alimentou discussões sobre quem exatamente está dentro. O pano de fundo provavelmente é a figura do servo sofredor de Isaías, que carrega o pecado de "muitos", e ali "muitos" não significa alguns poucos selecionados, mas uma multidão inumerável, o oposto de um. Ainda assim, a ambiguidade permanece, e não convém resolvê-la com pressa. O que o texto garante é que esse sangue é suficiente e eficaz, que ele realmente consegue o que promete e não fica à espera de que alguém o aperfeiçoe. O que ele não faz é entregar a lista. Talvez porque uma lista permitiria admirá-la de fora, enquanto o convite é outro: estender a mão, pegar o cálice, beber.
Contexto
É quinta-feira à noite em Jerusalém, cidade inchada de peregrinos, com Roma de nervos à flor da pele e as autoridades do templo já decididas a prendê-lo "com dolo", de preferência longe da festa, para evitar tumulto. Jesus celebra a Páscoa numa sala emprestada, em segredo, sabendo que o traidor está à mesa. A ceia pascal tinha um roteiro fixo: cada elemento era explicado pelo chefe da refeição como memória do Egito. Era precisamente nesse momento litúrgico, com todos esperando as palavras conhecidas, que Jesus insere outra explicação. Imagine a estranheza. Para judeus, beber sangue era proibição absoluta, e a imagem deve ter soado quase intolerável. Jesus não suaviza. Ele reescreve a festa fundadora de Israel em torno de si mesmo, horas antes de ser preso.
O Detalhe
"Derramado". O particípio está no presente, como se o sangue já estivesse correndo enquanto o cálice circula na mesa. Nenhuma gota havia caído ainda; Getsêmani ainda estava a uma caminhada de distância, Caifás e os açoites e a cruz ainda eram futuro. E, no entanto, Jesus fala da própria morte como algo já em curso, já interpretado, já entregue. Isso muda a natureza do que acontecerá nas próximas horas. A prisão não será um acidente, a traição não será um roteiro desviado, a cruz não será uma derrota que Deus depois conserta. Quando os soldados chegarem com espadas e varapaus, eles não estarão tomando nada; estarão recebendo o que já foi dado nesta sala. O cálice de Getsêmani, que ele pedirá que passe, é o mesmo cálice que ele acabou de oferecer aos amigos.
Reflexão
Onde, na sua vida prática desta semana, você ainda age como se o perdão fosse algo a conquistar em vez de algo já derramado?
Se Jesus ofereceu o cálice sabendo quem trairia e quem negaria, que consequência isso tem para a maneira como você acolhe à mesa pessoas que já lhe falharam?
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Perguntas frequentes sobre Matthew 26:28
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Obrigado, Jesus, porque diante do tribunal, acusado e só, não escondeste quem és: "Tu o disseste". Agora estás assentado à direita do Todo-Poderoso, e virás sobre as nuvens do céu. Minha esperança descansa nessa promessa.
Levantai-vos, vamos; eis que é chegado o que me trai." Jesus não foge nem se esconde. Ele se levanta e caminha na direção da traição, porque o jardim já tinha sido o lugar da entrega: "não seja como eu quero, mas como tu queres." A oração não tirou a cruz, deu forças para ir até ela. E você, quando se levanta da oração, para onde caminha?
Senhor, tu foste levado diante de quem já tinha decidido te condenar, e ainda assim seguiste. Quando sou julgado sem chance de me explicar, ensina-me essa calma tua. Guarda meu coração do rancor e me lembra de quem realmente tem a última palavra.
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