Mateus 26:30
O Texto
Um versículo de doze palavras, no meio da noite mais pesada dos Evangelhos: "E, tendo cantado o hymno, sairam para o monte das Oliveiras." A ceia terminou, o pão foi partido, o cálice foi passado, o traidor já saiu com a decisão tomada. E antes de qualquer coisa acontecer, eles cantam. Depois se levantam da mesa e caminham, no escuro, para fora da cidade, subindo a encosta onde daí a pouco Jesus cairá de rosto no chão.
O Coração
Há algo quase insuportável nesse canto. Jesus acabara de dizer que seu sangue seria derramado, acabara de anunciar que um dos doze o entregaria, acabara de recusar o vinho até o dia do Reino. E então canta. Não como quem se distrai da dor, mas como quem a coloca dentro de algo maior. O verbo grego aqui é simples, hymnēsantes, "tendo cantado um hino", e não descreve emoção alguma. Mateus não nos diz se as vozes tremiam. Ele apenas registra que houve canto, e depois houve caminhada. O que este versículo diz sobre Deus é isto: o louvor não é o oposto da agonia. Cristo entra na morte cantando, e isso desmonta nossa ideia de que adoração exige circunstâncias adequadas.
O Fio Condutor
O hino cantado ao fim da ceia pascal era a segunda metade do Hallel, os Salmos que Israel repetia todos os anos naquela noite: salmos sobre as cordas da morte que envolvem, sobre a pedra rejeitada pelos construtores, sobre a pedra que se torna cabeça de esquina, sobre o sacrifício amarrado com cordas aos cornos do altar. Israel cantava isso há séculos sem saber para onde as palavras apontavam. Naquela noite, o próprio conteúdo do salmo estava sentado à mesa, movendo os lábios. O canto que celebrava a libertação do Egito foi cantado pelo Cordeiro que estava prestes a ser morto. A liturgia antiga finalmente encontrou seu significado, e quem a cantava era ele.
O Espelho
Você provavelmente já cantou sem sentir nada. Já ficou de pé num culto na semana em que o exame deu ruim, em que o casamento rangia, em que o dinheiro não fechava, e as palavras saíram da boca sem passar pelo peito. E talvez tenha concluído: sou hipócrita, é melhor calar. Este versículo sugere outra coisa. Jesus não cantou porque se sentia bem; cantou porque aquelas palavras eram verdadeiras independentemente de como ele se sentia, e daí a pouco, no Getsêmani, ele diria que sua alma estava cheia de tristeza até à morte. O canto e a angústia coexistiram na mesma pessoa, na mesma hora, no mesmo caminho. Não são fases. São companheiros de estrada.
O Perfil
Mateus escreve para leitores que conheciam aquela noite por dentro. Para eles, "cantado o hino" não precisava de explicação: era o encerramento normal da páscoa, a coisa que todo pai de família fazia. E era exatamente essa normalidade que doía. Naquela noite, milhares de famílias em Jerusalém cantaram os mesmos salmos e depois foram dormir. Este grupo cantou e saiu para a escuridão. Os leitores judeus de Mateus, muitos deles já expulsos das sinagogas, sabiam o que era cantar as canções antigas enquanto o chão se movia debaixo dos pés. Este versículo lhes dizia: o Messias também cantou a caminho do escuro. Vocês não estão fazendo nada estranho.
O Intertexto
Um rei já subira antes aquela mesma encosta em fuga, chorando, descalço, traído por um homem de sua mesa: Davi, deixando Jerusalém enquanto Aitofel passava para o lado do filho rebelde. Mateus não faz o paralelo explícito, mas o monte das Oliveiras carrega essa memória, e o leitor atento sente o eco. A diferença é decisiva: Davi fugia da morte, Jesus caminha ao encontro dela. E há o outro eco, mais adiante no próprio capítulo, quando ele diz que o pastor será ferido e as ovelhas se dispersarão. As vozes que acabaram de cantar juntas se calarão em poucas horas. O coro se desfaz, mas o Pastor continua andando.
O Protagonista
Repare no que Jesus faz com o tempo que lhe resta. Não corre, não se esconde, não organiza uma defesa. Ele canta e caminha. Cada passo naquela subida foi voluntário; ninguém o arrastou. Ele mesmo dirá depois que poderia pedir ao Pai mais de doze legiões de anjos. O que vemos aqui não é resignação, é decisão sustentada minuto a minuto. E há uma dignidade quieta nisso que o texto não comenta: Mateus se recusa a nos dar acesso ao coração de Jesus neste versículo. Só nos dá o gesto. Talvez porque algumas coisas só possam ser observadas de longe, com respeito. Ele cantou. Ele saiu. Nós ficamos com o silêncio entre uma coisa e outra, e talvez seja ali, nesse silêncio, que Deus nos espera.
Reflexão
Que canção você ainda consegue cantar quando não sente nada, e por que essas palavras continuam verdadeiras mesmo assim?
Há uma subida que você sabe que precisa fazer e vem adiando. O que mudaria se você a fizesse cantando, em vez de esperar sentir-se pronto?
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