Mateus 26
O Texto
"Porque se faz este desperdicio?" Essa é a primeira pergunta ética do capítulo, e vem dos discípulos, não dos inimigos. Mateus 26 vai da unção em Betânia até o canto do galo: o conselho secreto de Caifás, o perfume derramado sobre a cabeça de Jesus, os trinta moedas de prata de Judas, a ceia pascal onde o pão é partido e o cálice é dado, o Getsêmani com seus três pedidos e seus três discípulos adormecidos, a prisão com espadas e varapaus, o julgamento noturno, as cusparadas, e Pedro chorando amargamente no pátio. Uma mulher gasta tudo; um discípulo vende tudo; todos os outros fogem.
O Cerne
O capítulo inteiro é construído sobre um contraste de entregas. "O Filho do homem será entregue", diz Jesus no versículo 2, e a partir dali todo mundo entrega alguém: Judas entrega Jesus, os sacerdotes o entregam a Pilatos, Pedro entrega a própria lealdade em troca de segurança. Mas no centro está a frase que subverte tudo: "isto é o meu sangue, o sangue do Novo Testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos peccados". Jesus não é entregue; ele se entrega. A traição humana não produz a cruz, ela é absorvida por ela. É por isso que a ética cristã nunca começa com o nosso esforço: começa com um corpo partido que nos foi dado antes de qualquer decisão nossa.
O Fio Condutor
Jesus escolhe a Páscoa deliberadamente. "O meu tempo está proximo; em tua casa celebro a paschoa." A refeição que recordava o cordeiro cujo sangue poupou Israel no Egito agora recebe um novo referente: o próprio anfitrião. Quando ele diz "sangue do Novo Testamento", está citando a cerimônia do Sinai, onde Moisés aspergiu o povo com sangue para selar a aliança. Só que ali o sangue vinha de bois; aqui vem de quem convida. E a promessa olha para a frente: "até áquelle dia em que o beber de novo comvosco no reino de meu Pae". A ceia é memória e antecipação ao mesmo tempo, o passado do Egito e o futuro do banquete apertados num só gole.
O Espelho
Os discípulos tinham razão em termos de planilha. O perfume valia quase um ano de salário, e os pobres existem. A aritmética deles era impecável, e mesmo assim Jesus a chama de aflição imposta a uma mulher. Isso deveria nos incomodar, a nós que sabemos calcular: quanto tempo uma visita custa, quanto rende aquele dinheiro aplicado, se vale a pena faltar ao trabalho pelo enterro de um conhecido. Há um tipo de responsabilidade que é só avareza bem vestida. E depois há Pedro, que prometeu morrer e negou diante de uma criada, não diante de um soldado. Nossas traições também costumam ser assim, baratas: o silêncio na mesa do almoço quando alguém zomba da fé, a frase "não é bem assim que eu penso" dita para não constranger ninguém. Hoje, antes de dormir, faça uma coisa que não se justifica economicamente: dê a alguém algo que você preferia guardar, ou gaste trinta minutos com uma pessoa que não lhe rende nada. Faça sem anunciar.
Contexto
É quinta-feira à noite em Jerusalém, cidade inchada de peregrinos. Os sacerdotes querem prender Jesus "com dolo", e expressamente "não durante a festa, para que não haja alvoroço": é cálculo político, medo de multidão, gestão de risco. O julgamento acontece de madrugada, na casa de Caifás, com testemunhas arranjadas, o que já diz tudo sobre a legalidade do procedimento. Betânia, onde a mulher unge Jesus, fica na casa de "Simão, o leproso", ou seja, num ambiente socialmente marcado, longe do centro de poder. E o Getsêmani era um olival no sopé do monte das Oliveiras, lugar previsível, conhecido por Judas. Jesus não se esconde. Quem precisa de escuridão é o conselho.
O Intertexto
Jesus cita Zacarias: "Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho se dispersarão." Note o sujeito do verbo: ferirei, primeira pessoa, Deus. A dispersão dos discípulos não pega o céu de surpresa; está dentro do plano, o que torna a fuga do versículo 56 trágica mas não fatal, pois vem acompanhada da promessa "irei adiante de vós para a Galilea". Já diante de Caifás, Jesus responde com Daniel 7, o Filho do homem "vindo sobre as nuvens do céu". O acusado anuncia que será juiz do seu tribunal. Rasgar as vestes foi a única reação honesta do sumo sacerdote: ou aquele homem era blasfemo, ou era quem dizia ser. Não existe terceira opção confortável.
A Personagem Central
O Jesus deste capítulo não é sereno. "A minha alma está cheia de tristeza até á morte." Ele pede três vezes que o cálice passe, e três vezes acrescenta a cláusula que muda tudo: "não como eu quero, mas como tu queres". Obediência aqui não é ausência de vontade própria, é vontade própria entregue com os olhos abertos. E repare na ternura áspera com os amigos: repreende Pedro por não velar uma hora, mas diz "o espirito está prompto, mas a carne é fraca", desculpando-o na mesma frase. A Judas, que chega com um beijo, chama de "Amigo". Essa palavra, nos lábios de quem está sendo vendido, é o evangelho inteiro em quatro letras.
Reflexão
Onde, no meu orçamento ou na minha agenda desta semana, a lógica do "desperdício" seria exatamente a obediência?
Em que situação concreta eu já disse "não conheço tal homem" sem usar essas palavras, e o que o canto do galo seria para mim hoje?
Aprofunde-se em Matthew
Livros selecionados a dedo que aprofundam ainda mais este livro da Bíblia.
À espera do Natal: 25 leituras de Advento, de 1 a 25 de dezembro, guiadas pelo livro de Lucas. Davi, Zacarias, Maria e José, uma pessoa de hoje por...
Mateus: Introdução e Comentário
Um comentário conciso e confiável, versículo a versículo, que ajuda a entender o propósito de Mateus ao apresentar Jesus como o Messias prometido a Israel.
A Mensagem do Sermão do Monte: Contracultura Cristã
Uma exposição calorosa e desafiadora de Mateus 5–7, mostrando como é, na prática, a vida do discípulo no Reino dos céus.
Pregações profundas e pastorais sobre o coração do ensino de Jesus em Mateus 5–7, que unem doutrina sólida e exame do coração.
Faith.network earns a small commission on Kobo purchases made through these links, at no extra cost to you. It helps keep the studies free.
Perguntas frequentes sobre Matthew 26
Respostas rápidas às perguntas mais comuns sobre esta passagem bíblica.
O que significa Mateus 26?
Sobre o que fala Mateus 26?
Qual é o contexto histórico de Mateus 26?
O que Mateus 26 nos ensina sobre o caráter de Deus?
Como Mateus 26 continua relevante hoje?
O que a comunidade compartilha sobre Matthew 26
Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Obrigado, Jesus, porque diante do tribunal, acusado e só, não escondeste quem és: "Tu o disseste". Agora estás assentado à direita do Todo-Poderoso, e virás sobre as nuvens do céu. Minha esperança descansa nessa promessa.
Levantai-vos, vamos; eis que é chegado o que me trai." Jesus não foge nem se esconde. Ele se levanta e caminha na direção da traição, porque o jardim já tinha sido o lugar da entrega: "não seja como eu quero, mas como tu queres." A oração não tirou a cruz, deu forças para ir até ela. E você, quando se levanta da oração, para onde caminha?
Senhor, tu foste levado diante de quem já tinha decidido te condenar, e ainda assim seguiste. Quando sou julgado sem chance de me explicar, ensina-me essa calma tua. Guarda meu coração do rancor e me lembra de quem realmente tem a última palavra.
Explore esta passagem em outro nível
Iniciante, teólogo ou uma leitura de outro tamanho? Ajuste as configurações e gere sua própria versão.
Abrir na ferramenta de estudo

