Salmos 8:1
O Texto
O salmo abre e fecha com a mesma frase, como duas mãos que seguram o mesmo objeto: "Ó Senhor, nosso Senhor, quão admiravel é o teu nome em toda a terra." No primeiro versículo, o poeta não argumenta nem pede nada; ele exclama. Diz que o nome de Deus é grandioso em todo o território habitado, em cada palmo de chão onde alguém respira, e acrescenta a razão: "pois pozeste a tua gloria sobre os céus." A glória não está contida na terra, está acima dela, estendida sobre a abóbada noturna como um manto largo demais para ser medido. O verso é ao mesmo tempo um grito de admiração e uma confissão de posse: esse Deus imenso é nosso Senhor.
O Cerne
Repare na duplicação: "Senhor, nosso Senhor." No hebraico não é repetição, são duas palavras diferentes. A primeira é o nome próprio revelado a Moisés na sarça, o nome que Israel mal ousava pronunciar. A segunda é Adonai, "meu soberano", a palavra que um servo usaria diante do dono da casa. O salmo junta as duas e produz algo teologicamente explosivo: o Deus que tem nome, que se apresentou pessoalmente a um povo de escravos, é também o Soberano cuja glória ultrapassa o céu visível. Intimidade e transcendência na mesma respiração, sem que uma dilua a outra. É por isso que o versículo importa: um deus apenas imenso seria esmagador, um deus apenas próximo seria pequeno demais para salvar. Aqui os dois são o mesmo.
O Fio Condutor
Um salmo que começa com a glória colocada acima dos céus e termina, poucos versículos depois, com um mortal coroado de honra já traça sozinho o arco da história da salvação: o alto se inclina para o baixo. O Novo Testamento leu exatamente assim. Hebreus toma este salmo e diz que ainda não vemos todas as coisas sujeitas ao homem, mas vemos Jesus, coroado de glória e honra por causa do sofrimento da morte. Ou seja, aquilo que o Salmo 8 canta sobre a humanidade só se cumpre integralmente em um homem específico, e por um caminho que o salmista não imaginava: descendo. A glória que estava "sobre os céus" desceu abaixo do céu, entrou na poeira, e de lá tornou o nome de Deus admirável em toda a terra de um modo definitivo.
O Espelho
Nós também colocamos glória em algum lugar. No currículo, na casa reformada, nos filhos que se saíram bem, na reputação dentro da igreja ou do trabalho. Fazemos isso quase sem perceber, e depois passamos anos defendendo esse pequeno depósito de honra contra qualquer coisa que o ameace: um colega mais competente, um filho que decepciona, um corpo que envelhece. O salmo não condena a beleza dessas coisas, mas as tira do centro do palco com uma frase só. A glória que sustenta o mundo já está guardada, e está fora do seu alcance, alta demais para ser roubada e alta demais para depender de você. Isso é humilhante e é um alívio enorme, nessa ordem.
Hoje à noite, saia de casa, olhe para o céu por um minuto inteiro sem falar, e depois diga em voz alta: "Ó Senhor, nosso Senhor, quão admiravel é o teu nome em toda a terra."
O Detalhe
"Pozeste a tua gloria sobre os céus." Não nos céus, mas sobre eles. Para o ouvinte antigo, o céu não era espaço vazio; era o teto sólido do mundo, o limite superior de tudo o que existe, a fronteira onde a criatura para. E o poeta diz que a glória de Deus foi colocada acima daquilo. É como dizer que o teto da catedral não é o topo, apenas o chão de outra coisa. O verbo é ativo e deliberado: Deus colocou ali, escolheu, como quem pendura algo fora do alcance das crianças. O universo inteiro, portanto, não contém Deus; ele é o degrau mais baixo da glória dele. E é justamente esse Deus que se deixa chamar de "nosso".
O Perfil
Imagine quem cantava isso. Um povo pequeno, encaixado entre impérios que sabiam fazer propaganda: monumentos egípcios com o nome do faraó gravado em pedra para durar mil anos, torres babilônicas apontando para deuses chamados Lua, Sol, Estrela. Israel não tinha nada disso. Tinha um pátio de templo, o cheiro de gordura queimada e incenso, e à noite um céu absolutamente escuro, sem uma única lâmpada elétrica, com uma quantidade de estrelas que nós praticamente nunca vemos. Sob aquele céu, o cantor afirma que a Lua e as estrelas não são deuses, são obra dos dedos de Deus, e que o nome do seu Deus, não o do imperador, é grande em toda a terra. Era uma afirmação politicamente insolente feita por gente sem exército.
O Protagonista
O protagonista deste versículo é Deus, e o que impressiona é a combinação do que ele faz com o que ele permite. Ele posiciona a própria glória acima do céu, num lugar que nenhuma mão alcança, nenhum culto manipula, nenhum rei imita. Não é um deus disponível, doméstico, que se deixa carregar em procissão como um talismã. E, ao mesmo tempo, ele deu um nome a si mesmo e o entregou a um povo, sabendo que esse povo o usaria mal, o esqueceria e voltaria. Um Deus que se torna nomeável torna-se, de certo modo, vulnerável: pode ser chamado no meio da noite, pode ser cobrado, pode ser blasfemado. Ele aceitou esse risco. A distância é real, e a proximidade também.
Reflexão
Onde, nesta semana, você tentou colocar sua própria glória num lugar seguro, e o que aconteceu quando alguém a tocou?
Se o nome de Deus já é admirável em toda a terra, sem a sua ajuda, o que muda no modo como você fala dele para as pessoas que ainda não o conhecem?
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Perguntas frequentes sobre Psalms 8:1
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