Explicação bíblica

Romanos 4

Bíblia
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O Texto

Paulo põe Abraão no banco das testemunhas. Se alguém teve motivo para se orgulhar diante de Deus, foi ele; mas a Escritura diz que "Creu Abrahão a Deus, e isso lhe foi imputado como justiça". O capítulo desdobra esse único versículo: a justiça foi lançada na conta de Abraão antes da circuncisão, antes da lei, quando seu corpo já não servia para nada, e por isso a promessa alcança também os que creem naquele "que dos mortos resuscitou a Jesus nosso Senhor".

O Coração

O ponto mais escandaloso do capítulo está no versículo 5: Deus "justifica o impio". Não o simpático, não o esforçado, não o que já vai melhorando. O ímpio. Nenhum juiz humano decente faria isso; declarar justo o culpado é o que a Bíblia normalmente chama de corrupção. E é precisamente aí que Paulo coloca a nossa única esperança.

A palavra que ele repete onze vezes é logizomai: lançar na conta, computar. Linguagem de livro-caixa. Paulo contrasta dois modos de receber: o salário, que é "segundo a divida", e o dom, que é "segundo a graça". Se Deus me deve, então tenho direitos e nenhuma segurança, porque meu desempenho oscila. Se Deus me dá, não tenho direitos e tenho tudo.

O Fio Condutor

Paulo não está inventando uma novidade cristã contra o Antigo Testamento; está mostrando que o evangelho é mais antigo que a lei. Abraão foi declarado justo "Não na circumcisão, mas na incircumcisão", ou seja, antes de qualquer marca religiosa no corpo. A circuncisão veio depois, como "sello da justiça da fé", um recibo, não um pagamento. Por isso a promessa nunca foi propriedade de um povo étnico: "Por pae de muitas nações te constitui".

E o fio se aperta no fim. O Deus em quem Abraão creu é o que "vivifica os mortos"; o Deus em quem nós cremos é o que ressuscitou Jesus. É a mesma fé, com o mesmo objeto, agora com um rosto: Cristo "por nossos peccados foi entregue, e resuscitou para nossa justificação".

O Espelho

Você provavelmente não acredita que se salva por obras. Mas repare no que acontece dentro de você depois de uma semana em que orou pouco, se irritou com os filhos, mentiu no trabalho por conveniência: você se aproxima de Deus com menos confiança. E depois de uma semana disciplinada, generosa, serena, se aproxima com mais. Isso é contabilidade de salário, não de graça. É o velho instinto de querer ter "de que se gloriar".

Há também o outro lado, o do corpo amortecido. Talvez você já tenha ultrapassado o prazo de validade de alguma promessa: o casamento que não se recompôs, o filho que não voltou, a vocação que não se realizou, o exame que veio ruim. Abraão contou seus anos, quase cem, e olhou para Sara, e a aritmética dizia não. A fé aqui não é otimismo; é confiar num Deus que "chama as coisas que não são como se já fossem".

Contexto

Paulo escreve a uma igreja que não fundou, em Roma, capital de um império, composta de judeus e de gentios que aprenderam a desconfiar uns dos outros. Para o cristão judeu, Abraão era o avô da família, e a circuncisão, a fronteira sagrada entre povo de Deus e nações. Para o cristão gentio, aquela marca era estranha e, mais tarde, motivo de desprezo.

Discutir Abraão nesse ambiente não era exercício acadêmico: era decidir quem senta à mesa e em que condição. Paulo desarma os dois lados no mesmo golpe. O pai de todos foi justificado quando ainda era, em termos religiosos, um pagão da Mesopotâmia. Ninguém entra na família por herança de sangue nem por adesão a um código; entram os que "andam nas pisadas da fé de nosso pae Abrahão".

A Pergunta

Paulo diz que Abraão "não duvidou da promessa de Deus por desconfiança". Mas Gênesis conta outra coisa: Abraão cai de rosto no chão e ri da ideia de um filho aos cem anos, e antes disso tentou resolver o problema com Hagar. Paulo está embelezando o retrato?

Creio que não, mas também não vou fingir que a tensão desaparece. O que Paulo descreve é a direção geral de uma vida, não a ausência de tremores. A fé de Abraão levou vinte e cinco anos para amadurecer e passou por riso, atalhos e medo. Isso não torna o elogio falso; torna-o suportável. Se a fé que Deus imputa como justiça tivesse de ser límpida, nenhum de nós entraria na conta.

O Detalhe

Uma expressão pequena, fácil de atravessar: "nem attentou para o seu proprio corpo já amortecido". O verbo é olhar com atenção, examinar. Abraão não negou os fatos; ele sabia perfeitamente da própria idade e do ventre de Sara. Simplesmente deixou de fixar o olhar ali.

Isso corrige o que muita gente chama de fé. Fé não é dizer que a biópsia não existe, que a conta bancária está boa, que o casamento vai bem. É saber exatamente quão morta está a situação e ainda assim não fazer daquele diagnóstico o último olhar. Abraão desviou os olhos do seu corpo para o Deus que promete, e, diz Paulo, "foi fortificado na fé, dando gloria a Deus".

Reflexão

Quando você se aproxima de Deus esta semana, está apresentando um recibo ou uma mão vazia? Onde isso aparece na sua oração?

Qual é o "corpo amortecido" que você tem examinado demais, e o que mudaria se você desviasse o olhar dele para a promessa?

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Perguntas frequentes sobre Romans 4

Respostas rápidas às perguntas mais comuns sobre esta passagem bíblica.

O que significa Romanos 4?
Paulo põe Abraão no banco das testemunhas. Se alguém teve motivo para se orgulhar diante de Deus, foi ele; mas a Escritura diz que "Creu Abrahão a Deus, e isso lhe foi imputado como justiça".
Sobre o que fala Romanos 4?
Paulo não está inventando uma novidade cristã contra o Antigo Testamento; está mostrando que o evangelho é mais antigo que a lei. Abraão foi declarado justo "Não na circumcisão, mas na incircumcisão", ou seja, antes de qualquer marca religiosa no corpo. A circuncisão veio depois, como "sello da justiça da fé", um recibo, não um pagamento.
Qual é o contexto histórico de Romanos 4?
Há também o outro lado, o do corpo amortecido. Talvez você já tenha ultrapassado o prazo de validade de alguma promessa: o casamento que não se recompôs, o filho que não voltou, a vocação que não se realizou, o exame que veio ruim. Abraão contou seus anos, quase cem, e olhou para Sara, e a aritmética dizia não.
O que Romanos 4 nos ensina sobre o caráter de Deus?
Paulo diz que Abraão "não duvidou da promessa de Deus por desconfiança". Mas Gênesis conta outra coisa: Abraão cai de rosto no chão e ri da ideia de um filho aos cem anos, e antes disso tentou resolver o problema com Hagar. Paulo está embelezando o retrato?
Como Romanos 4 continua relevante hoje?
Isso corrige o que muita gente chama de fé. Fé não é dizer que a biópsia não existe, que a conta bancária está boa, que o casamento vai bem. É saber exatamente quão morta está a situação e ainda assim não fazer daquele diagnóstico o último olhar. Abraão desviou os olhos do seu corpo para o Deus que promete, e, diz Paulo, "foi fortificado na fé, dando gloria a Deus".
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.

Reflexão Editorial em versículo 11

Repare na ordem: Abraão creu, foi aceito, e só depois recebeu "o sinal da circuncisão como selo da justiça da fé que teve quando ainda incircunciso". O sinal não o tornou justo, apenas confirmou o que Deus já havia feito. E você, o que tem tentado usar como prova diante de Deus? Ele quer sua confiança, não seu currículo.

Agradecimento Editorial em versículo 24

Obrigado, Pai, porque a justiça também é atribuída a nós que cremos naquele que ressuscitou dentre os mortos a Jesus, nosso Senhor. Não foi meu esforço que me tornou aceito, foi a tua promessa cumprida no túmulo vazio. Descanso nisso hoje.

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