2 Reis 14
O Texto
Amasias sobe ao trono de Judá com vinte e cinco anos, faz "o que era recto aos olhos do Senhor", embora sem a integridade de Davi, executa os assassinos do seu pai mas poupa os filhos deles em obediência expressa à lei de Moisés, e derrota Edom no vale do Sal. Embriagado com a vitória, desafia Jeoás de Israel, é humilhado em Bete-Semes, vê o muro de Jerusalém arrombado e o tesouro do templo levado para Samaria, e acaba assassinado numa conspiração em Laquis. O capítulo termina no norte, com Jeroboão II reinando quarenta e um anos, fazendo o que era mau, e apesar disso restaurando as fronteiras de Israel "conforme a palavra do Senhor".
O Coração
Este capítulo coloca lado a lado duas coisas que a nossa lógica não gosta de ver juntas: um rei relativamente bom que perde tudo, e um rei declaradamente mau por quem Deus liberta o seu povo. A explicação está nos versículos 26 e 27: "viu o Senhor que a miseria d'Israel era mui amarga, e que nem havia encerrado, nem desamparado, nem quem ajudasse a Israel". O motivo da salvação não está no salvador humano; está no olhar de Deus sobre uma miséria amarga e no seu compromisso de não apagar ainda aquele nome debaixo do céu. Graça, aqui, não é recompensa por comportamento. É teimosia divina. E isso é ao mesmo tempo consolador e desconfortável, porque significa que a prosperidade de Jeroboão não prova nada sobre a sua alma.
O Fio Condutor
O detalhe mais surpreendente do capítulo é um nome: "Jonas, filho do propheta Amithai… de Gath-hepher". É o mesmo profeta do livro que leva o seu nome. Aqui ele aparece como o profeta das fronteiras recuperadas, o homem cuja palavra sustentou a expansão nacional de Israel. E é precisamente esse profeta que Deus depois envia a Nínive, a capital do império que devorará Israel. O nacionalista que anunciou a restauração dos limites é obrigado a levar misericórdia para fora dos limites, e detesta a tarefa. Nessa fissura já se ouve o evangelho: o Deus que teve compaixão da miséria amarga de Israel não pretendia parar em Israel. Jesus tomaria o nome de Jonas como sinal da sua própria morte e ressurreição, e o profeta relutante tornou-se, sem querer, a figura de uma graça que atravessa fronteiras.
O Espelho
Jeoás manda a Amasias uma frase que devia estar pregada na parede de todos nós: "o teu coração se ensoberbeceu: gloria-te d'isso, e fica em tua casa". Amasias tinha uma vitória real nas mãos. O problema não foi a vitória; foi a incapacidade de a deixar em paz. Você conhece esse mecanismo. O projeto correu bem, a discussão foi ganha, o filho passou no exame, e em vez de agradecer você começa a procurar o próximo adversário, o comentário que finalmente vai provar que tem razão, a conversa em que vai colocar aquela pessoa no lugar dela. É aí que o muro de Jerusalém se rompe, não na derrota, mas na vitória mal digerida.
Hoje: abra aquela conversa no telefone onde você já redigiu mentalmente a mensagem que provaria que está certo, e apague o rascunho sem enviar.
O Detalhe
A fábula do cardo e do cedro (v. 9) não é um insulto improvisado. Israel já tinha ouvido uma história assim, quando Jotão, no monte Gerizim, contou às árvores que escolheram o espinheiro para reinar sobre elas, e o espinheiro prometeu fogo. As fábulas de plantas, em Israel, servem para desmascarar pretensões de poder. Jeoás usa o género com precisão cruel: o cardo pede a filha do cedro em casamento, isto é, propõe uma aliança entre iguais, e antes de qualquer resposta os animais do campo o pisam. Amasias nem chega a ser derrotado pelo cedro; é atropelado de passagem. E há uma ironia amarga no facto de o rei idólatra do norte falar aqui como um sábio, enquanto o rei que "fez o que era recto" não ouve.
Contexto
Estamos no início do século VIII antes de Cristo. A Síria de Damasco, que durante décadas esmagou Israel, está enfraquecida pela pressão assíria, e por isso abre-se uma janela de prosperidade para os dois reinos hebreus. Jeroboão II aproveita-a: quarenta e um anos de reinado, fronteiras alargadas "desde a entrada de Hamath até ao mar da planicie", riqueza que os profetas daquela geração descreverão como construída sobre as costas dos pobres. Judá, o reino menor, tenta acompanhar. Bete-Semes fica na Sefelá, na fronteira entre os dois, e o arrombamento de quatrocentos côvados do muro de Jerusalém, mais os reféns levados, não é vandalismo: é a forma antiga de dizer que Judá passou a ser vassalo de Samaria. O rei sobreviveu quinze anos a essa humilhação, e depois morreu pelas mãos dos seus próprios homens, exatamente como o pai.
O Personagem Principal
Amasias é o homem dos meios-termos, e o narrador não o esconde: recto, mas "não como seu pae David"; recto, mas os altos ficaram. O seu momento mais alto é surpreendente. Podia ter exterminado as famílias dos assassinos do pai, como qualquer monarca do seu tempo, e não o fez, porque estava escrito na Torá que "cada um será morto pelo seu peccado". Um rei que abre o livro da lei e limita o próprio poder por causa dele: isso é raro e admirável. Mas a obediência de Amasias foi um episódio, não um carácter. Poupou os filhos dos assassinos e depois arrastou o reino inteiro para uma guerra por causa do seu ego ferido. A lição não é que ele fosse hipócrita; é que a fidelidade pontual não sustenta uma vida. Só a graça faz isso, e essa graça, neste capítulo, aparece do lado mais improvável do mapa.
Reflexão
Onde é que, na minha vida, uma vitória recente está a alimentar uma vontade de brigar que eu ainda chamo de "defender a verdade"?
Se Deus pode livrar por mãos como as de Jeroboão II, o que é que isso muda na leitura que faço do meu próprio sucesso ou da minha estagnação?
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Perguntas frequentes sobre 2 Kings 14
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