2 Samuel 2
O Texto
Depois da morte de Saul, Davi pergunta ao Senhor se deve subir a Judá e é ungido rei em Hebrom, enviando uma bênção aos homens de Jabes-Gileade que sepultaram Saul. Mas Abner, o general de Saul, proclama Isbosete rei sobre o resto de Israel, e os dois exércitos se encontram junto ao tanque de Gibeão. O que começa como um "jogo" de doze contra doze termina em massacre, na morte do jovem Asael e numa retirada noturna de irmãos que se mataram.
O Núcleo
Note a diferença de método entre os dois lados. Davi consulta: "Subirei a alguma das cidades de Judah?" Abner simplesmente "tomou a Isboseth" e "o constituiu rei". Um pergunta e é conduzido a um lugar específico, Hebrom; o outro fabrica um trono para um filho de Saul de quarenta anos que nunca aparece falando no capítulo inteiro. O texto não moraliza isso, apenas mostra. E ainda assim Davi, o que pergunta, também recolhe dezenove mortos. A unção não o poupa do sangue. Aqui está o realismo desconcertante de 2 Samuel: Deus estabelece o seu rei dentro da história suja, não acima dela. A eleição divina não dispensa a paciência de sete anos e meio em Hebrom.
O Fio Condutor
Judá contra Israel, o tanque de Gibeão no meio: quem conhece o resto da história sente um arrepio. Esta rachadura de dois anos volta em cheio depois de Salomão, quando Israel diz a Roboão "vai-te à tua casa" e o reino se parte em dois para nunca mais se juntar. O que aqui é ferida recente torna-se cicatriz permanente. E é exatamente essa fratura que o Novo Testamento declara curada em Cristo: "porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um, e derribou a parede de separação" (Efésios 2:14). Paulo fala de judeus e gentios, mas o padrão é o mesmo: só um rei consegue unir o que a espada divide, e ele o faz não empunhando a espada mas recebendo-a no próprio corpo.
O Espelho
"Consumirá a espada para sempre? não sabes tu que por fim haverá amargura?" Abner faz a pergunta certa, mas só depois de estar perdendo, e Joabe responde com a frieza de quem sabe disso: se tivesses calado, teríamos continuado. Reconheça a mecânica. Ela funciona na reunião de conselho da igreja onde ninguém quer recuar primeiro porque recuar parece perder. Funciona entre irmãos que discutem a herança dos pais e descobrem, três anos depois, que a casa foi vendida e a relação também. Funciona no casamento onde a conversa já não é sobre a louça mas sobre quem cede. A amargura vem "por fim", nunca no início; no início parece apenas legítima defesa. A pergunta de Abner precisa ser feita antes da contagem dos mortos.
A Pergunta
Por que Deus permite que o seu ungido comece o reinado assim? Davi obedeceu, perguntou, esperou, e o resultado imediato é um massacre entre irmãos com trezentos e sessenta mortos do outro lado e um sobrinho enterrado em Belém. Se a obediência produz isto, o que produz a desobediência? O texto não oferece consolo. Não diz que Deus quis a morte de Asael nem que valeu a pena. Apenas registra os números, como um relatório militar. Talvez seja isto que precisamos aceitar: a Escritura sabe que a vontade de Deus atravessa a violência humana sem a santificar. Deus não estava ausente em Gibeão, mas também não estava aplaudindo. Fica a sensação incômoda de que o reino chega, e chega caro, e nem sempre entendemos quem pagou.
Contexto
Estamos por volta de 1010 a.C., no vácuo deixado pela derrota em Gilboa. Os filisteus controlam a região central; o que sobra de Israel se refugia na Transjordânia, e Abner instala Isbosete em Maanaim, longe do perigo. Hebrom, por sua vez, é o coração de Judá, a cidade dos patriarcas, território de Calebe: ao subir para lá Davi não conquista, regressa às raízes. E o gesto para Jabes-Gileade é política de alta classe. Foi Jabes que Saul salvou na sua primeira vitória, e foram os homens de Jabes que arriscaram a vida para tirar o corpo dele do muro de Bete-Seã. Davi honra essa lealdade em vez de a punir, e no mesmo sopro informa: "os da casa de Judah já me ungiram a mim rei sobre si."
O Detalhe
Abner mata Asael "com o couto da lança pela quinta costella". Guarde essa expressão, porque ela volta. No capítulo seguinte, Joabe puxa Abner de lado para uma conversa aparentemente amigável e o fere exatamente ali, "pela quinta costela"; e mais tarde fará o mesmo a Amasa. O narrador está a construir uma assinatura. O que Abner fez em plena batalha, tentando por duas vezes dissuadir o rapaz, Joabe fará a sangue-frio e com um abraço. A ironia é amarga: Abner recusou matar por consideração ao irmão de Asael, e é esse mesmo irmão que o mata pelas costas. A vingança de sangue não corrige o desequilíbrio; ele apenas troca de lado, e depois troca outra vez.
Reflexão
Onde na sua vida você está a jogar o "jogo" de Gibeão, chamando de competição saudável algo que já está a produzir feridas reais?
Davi perguntou ao Senhor antes de subir. Em que decisão concreta desta semana você já sabe a resposta que quer, e por isso não pergunta?
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Perguntas frequentes sobre 2 Samuel 2
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Pai, há brigas que eu já não sei como parar. Continuo perseguindo quem deveria ser meu irmão, e no fim só me resta amargura. Ensina-me a dizer basta, a baixar as armas primeiro, antes que a mágoa devore o que ainda pode ser curado.
Obrigado, Senhor, porque enquanto Joabe e Abisai perseguiam Abner, o sol se pôs. Tu marcas o fim do dia e também o fim das nossas corridas por vingança. Grato por cada limite que colocas no meu caminho, quando eu só queria seguir adiante.
Obrigado, Senhor, porque contas cada vida daquele campo de batalha, os trezentos e sessenta homens que ali morreram. Nada te escapa. E te agradeço pela paz que me deste hoje, por não estar em guerra com meu irmão, e por Cristo, que faz cessar a espada.
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