Explicação bíblica

2 Samuel 22

Bíblia
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O Texto

Um rei velho olha para trás. As mãos que um dia vergaram um arco de cobre já tremem, as guerras acabaram, Saul está morto há décadas, e David faz o que faz melhor: canta. O cântico começa empilhando nomes para Deus como quem empilha pedras numa muralha (rochedo, lugar forte, escudo, alto retiro), passa por uma tempestade em que o próprio céu desce à terra, reivindica com ousadia uma vida de mãos limpas, descreve vitórias sangrentas sobre inimigos esmagados como lama de rua, e termina num lugar inesperado: não em David, mas na sua semente, para sempre.

O Cerne

Repare na desproporção. Um homem encurralado grita, e a resposta é esta: "Então se abalou e tremeu a terra, os fundamentos dos céus se moveram e abalaram, porque elle se irou." Sobe fumo dos narizes de Deus. Ele monta um querubim e voa. As trevas viram tenda. O mar inteiro recua até se verem os fundamentos do mundo. Tudo isto, diz o cântico, porque "do seu templo ouviu elle a minha voz". O Deus de Israel não é um poder neutro que mantém o universo em equilíbrio; ele toma partido. E a razão dada não é o mérito de David, apesar de tudo o que o cântico dirá depois sobre justiça e pureza, mas algo mais íntimo e mais escandaloso: "porque tinha prazer em mim." Deus desceu porque gosta deste homem.

O Fio Condutor

O cântico não fecha com o cantor. Fecha assim: "usa de benignidade com o seu ungido, com David, e com a sua semente para sempre." É a promessa do capítulo 7 deste mesmo livro a ecoar no fim, e ela aponta para além do túmulo de David. Quem poderá, sem gaguejar, dizer "guardei os caminhos do Senhor: e não me apartei impiamente do meu Deus"? David diz; nós franzimos a testa. Mas há um Filho de David que o disse com o corpo todo, que foi cercado pelas ondas de morte e pelos laços do sepulcro, e que foi tirado dali para a largura. Paulo cita o versículo 50 em Romanos 15 e aplica-o a Cristo louvando o Pai no meio das nações: o cântico do rei guerreiro torna-se o cântico do Rei crucificado entre os povos que não o conheciam.

O Espelho

Há uma arrogância serena nos versículos 21 a 25 que nos incomoda, e com razão, porque conhecemos o resto da história deste homem. Mas antes de corrigir David, pergunte o que ele está mesmo a fazer: ele não está a comparar-se com os justos, está a responder a quem o chamou usurpador, bandido, traidor. Há situações assim na sua vida. O colega que o pinta aos outros com cores que não são as suas. O familiar que decidiu há anos qual é a sua versão e não a vai rever. A noite em que você repassa a conversa e pensa: eu não fiz isto por ambição. David leva isso a Deus em vez de levar ao tribunal da opinião pública, e Deus responde com luz: "tu, Senhor, és a minha candeia." Hoje, em voz alta, sozinho, diga o versículo 2 nomeando a coisa concreta de que precisa de ser livrado: "O Senhor é o meu rochedo, e o meu logar forte, e o meu libertador." Diga o nome a seguir. Em voz audível.

O Detalhe

No meio de uma estrofe de músculo (pés de corça, mãos treinadas para a peleja, arcos de bronze a estalar) aparece de repente isto: "pela tua brandura me vieste a engrandecer." A palavra hebraica é ‘anwâh, mansidão, condescendência, o abaixar-se de quem é grande. É quase um erro de género literário: num hino de guerra, o rei confessa que o que o fez grande não foi a força de Deus mas a sua delicadeza. Deus não o levantou à bruta; inclinou-se. Quem já viu um adulto ajoelhar-se para ficar à altura dos olhos de uma criança sabe o que David está a descrever. E é este o Deus cujos narizes fumegam nos versículos anteriores. A mesma mão.

A Pergunta

E depois vêm os versículos 38 a 43, e não há maneira elegante de os cantar. David persegue, consome, atravessa, não volta atrás até acabar com eles, mói-os como pó, pisa-os como lama das ruas. Pior: "Olharam, porém não houve libertador: sim, para o Senhor, porém não lhes respondeu." Gente a gritar a Deus e a ouvir silêncio, enquanto o grito de David abala os céus. Não vou suavizar isto. É linguagem de rei antigo, moldada pelo mundo em que foi escrita, e o Novo Testamento vira a espada para dentro: o Filho de David vence sendo pisado, não pisando. Mas o incómodo permanece, e talvez deva permanecer, porque o cântico recusa fingir que o mal se dissolve sozinho. Alguém, algures, é derrotado. Fico com isso por resolver, de propósito.

O Perfil

Os primeiros a ler este cântico no seu lugar actual, quase no fim do livro, já não tinham rei. Liam-no de um país ocupado ou de um exílio, cantando sobre fundamentos do mundo descobertos e filhos de estranhos a sair dos seus esconderijos, enquanto por fora eram eles os que obedeciam a voz estrangeira. Para eles, "a sua semente para sempre" não era nostalgia, era a única promessa que sobrava. Cantavam memória e esperança ao mesmo tempo, o que é exactamente o que a Igreja faz na Ceia. Ouviam um cântico de vitória num tempo de derrota e recusavam concluir que o rochedo tinha rachado.

Reflexão

Onde é que você precisa, esta semana, de Deus como candeia mais do que como escudo: luz para ver, antes de protecção para resistir?

Se tivesse de escrever o seu próprio cântico, acabaria em si mesmo ou numa promessa maior do que a sua vida?

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Perguntas frequentes sobre 2 Samuel 22

Respostas rápidas às perguntas mais comuns sobre esta passagem bíblica.

O que significa 2 Samuel 22?
Um rei velho olha para trás. As mãos que um dia vergaram um arco de cobre já tremem, as guerras acabaram, Saul está morto há décadas, e David faz o que faz melhor: canta.
Sobre o que fala 2 Samuel 22?
O cântico não fecha com o cantor. Fecha assim: "usa de benignidade com o seu ungido, com David, e com a sua semente para sempre." É a promessa do capítulo 7 deste mesmo livro a ecoar no fim, e ela aponta para além do túmulo de David. Quem poderá, sem gaguejar, dizer "guardei os caminhos do Senhor: e não me apartei impiamente do meu Deus"?
Qual é o contexto histórico de 2 Samuel 22?
No meio de uma estrofe de músculo (pés de corça, mãos treinadas para a peleja, arcos de bronze a estalar) aparece de repente isto: "pela tua brandura me vieste a engrandecer." A palavra hebraica é ‘anwâh, mansidão, condescendência, o abaixar-se de quem é grande. É quase um erro de género literário: num hino de guerra, o rei confessa que o que o fez grande não foi a força de Deus mas a sua delicadeza.
O que 2 Samuel 22 nos ensina sobre o caráter de Deus?
Os primeiros a ler este cântico no seu lugar actual, quase no fim do livro, já não tinham rei. Liam-no de um país ocupado ou de um exílio, cantando sobre fundamentos do mundo descobertos e filhos de estranhos a sair dos seus esconderijos, enquanto por fora eram eles os que obedeciam a voz estrangeira.
Como 2 Samuel 22 continua relevante hoje?
Se tivesse de escrever o seu próprio cântico, acabaria em si mesmo ou numa promessa maior do que a sua vida?
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Reflexão Editorial em versículo 41

Também fizeste que meus inimigos me virassem as costas." Davi olha para trás e vê a mão de Deus onde antes só havia perseguição. Saul, filisteus, traições, tudo cabia agora numa só frase de louvor.

Talvez o que hoje te faz correr esteja sendo virado sem tu perceberes. Nem sempre a vitória vem com espada erguida. Às vezes ela chega quando o inimigo simplesmente dá as costas, e só Deus sabe por quê.

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