Atos 1:6
O Texto
Depois de quarenta dias em que o Ressuscitado comeu com eles, mostrou as cicatrizes e falou "do que respeita ao reino de Deus", os discípulos reunidos fazem a pergunta que carregavam no peito havia anos: "Senhor, restaurarás tu n'este tempo o reino a Israel?" Não é uma pergunta solta, jogada ao acaso; ela nasce diretamente daquilo que Jesus vinha ensinando. Ele falou do reino durante seis semanas, e eles ouviram nisso a promessa antiga de um trono restaurado, de Israel de pé outra vez, livre de Roma. A pergunta é sobre poder, sobre tempo e sobre um povo específico com um endereço específico.
O Cerne
Costuma-se tratar essa pergunta como o último tropeço de discípulos obtusos. Mas repare no que eles acertam. Eles creem que Deus é fiel ao que prometeu a Abraão e a Davi; creem que a salvação não é uma fuga espiritual do mundo, mas a restauração concreta de um povo, de uma terra, de uma história. Isso é teologia do pacto em estado puro, e Jesus não a corrige. O que ele reordena, no versículo seguinte, é o calendário e o mapa: os tempos pertencem ao Pai, e o reino chegará como testemunho que atravessa fronteiras até "aos confins da terra". Ou seja: o reino não é menor do que eles imaginavam, é maior. A graça não cancela o pacto; ele se abre. E o instrumento dessa abertura não será uma espada, mas o Espírito derramado sobre testemunhas.
O Fio Condutor
"Restaurar o reino a Israel" é linguagem dos profetas. É a promessa de que o trono de Davi não ficaria vazio para sempre, de que os ossos secos se levantariam, de que o exílio teria fim não apenas geograficamente, mas diante de Deus. Os discípulos estão citando a esperança de séculos. O que eles ainda não conseguem enxergar é que a restauração já começou, e começou num túmulo aberto. O Rei está de pé diante deles; o exílio mais profundo, o da morte, já foi rompido. Por isso Jesus não responde "não haverá reino", mas "recebereis a virtude do Espírito Santo". A restauração acontece de dentro para fora: primeiro um povo renovado pelo Espírito, depois as nações, e no fim aquilo que os anjos prometem no versículo 11, o retorno visível daquele que subiu. O fio vai de Abraão até o horizonte, e passa inteiro por Jesus.
O Espelho
Existe uma pergunta que você também carrega, formulada quase sempre com a mesma estrutura: "Senhor, neste tempo?" Neste ano em que o casamento se arrasta. Neste mês em que o exame ainda não voltou. Nesta fase em que o filho não atende o telefone. Não é uma pergunta ilegítima, e Jesus não repreende quem a faz. Mas ele desloca o centro. A resposta que os discípulos recebem não é uma data, é uma missão e uma presença. Deus raramente entrega o cronograma; ele entrega o Espírito e um lugar onde você deve testemunhar, que geralmente é a sua Jerusalém, isto é, exatamente onde você está agora. Hoje, antes de dormir, escreva num papel a pergunta "neste tempo?" que você vem repetindo a Deus, e abaixo dela escreva uma única frase: o nome de uma pessoa a quem você pode falar de Cristo esta semana. Guarde o papel onde você vai vê-lo amanhã.
A Pergunta
Fica um incômodo: Jesus simplesmente não responde. "Não vos pertence saber os tempos ou as estações." Não é uma explicação, é um limite. E limites impostos por Deus são difíceis de engolir para pessoas que aprenderam a pesquisar tudo. Por que o Pai reservou isso "em seu proprio poder"? O texto não diz. Podemos suspeitar que uma igreja que soubesse a data viveria de outro modo, calculando em vez de testemunhando, e a história das profecias de calendário dá razão a essa suspeita. Mas isso é dedução nossa, não revelação. O que resta é confiar num Pai que guarda o relógio na própria mão, e admitir que parte da fé consiste precisamente em não saber e mesmo assim ir.
O Perfil
Lucas escreve para Teófilo e para comunidades que já haviam descoberto, na pele, que o reino não chegou como esperavam. Jerusalém não foi libertada de Roma; foi destruída por Roma em 70 d.C. Cristãos judeus perderam templo, cidade e centro. Para eles, esta pergunta dos apóstolos não era curiosidade histórica, era ferida aberta: e então, Deus esqueceu Israel? A resposta que Lucas registra é de uma delicadeza enorme. Jesus não nega a promessa, apenas recusa o calendário e amplia o mapa. Os leitores que estavam espalhados pelo Império podiam ouvir nisso que o próprio espalhamento deles era o reino avançando, não fracassando.
O Personagem Principal
Impressiona a paciência de Jesus. Quarenta dias ensinando sobre o reino, e a última pergunta mostra que eles ainda pensam em termos de território e trono. Ele não suspira, não os humilha, não retira a comissão. Trata a esperança deles como algo verdadeiro que precisa apenas ser alargado. Esse é o mesmo Senhor que comeu com eles depois de ter sido abandonado por eles. Ele conhece o tamanho da nossa compreensão e ainda assim nos confia a missão. O Cristo que sobe em uma nuvem é o Cristo que confia testemunho a homens que ainda não entenderam direito. A graça, aqui, não é sentimento; é delegação.
Reflexão
Qual "neste tempo?" você repete a Deus, e o que mudaria se a resposta viesse como presença em vez de data?
Se o reino avança por testemunhas e não por poder, onde fica sua Jerusalém hoje, e quem está nela?
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Perguntas frequentes sobre Acts 1:6
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