Deuteronômio 33
O Texto
Moisés, chamado aqui "homem de Deus", está a horas da própria morte e usa o último fôlego não para se despedir, mas para abençoar. Começa com uma visão: o Senhor que vem de Sinai, que resplandece desde o monte Parã, acompanhado de dez milhares de santos, com "o fogo da lei" à sua direita. Depois desce ao concreto e percorre as tribos uma a uma, Rúben, Judá, Levi, Benjamim, José, Zebulom, Issacar, Gade, Dã, Naftali, Aser, dando a cada uma uma palavra talhada à sua medida, umas largas e luminosas, outras curtas e quase secas. E termina erguendo os olhos outra vez: "Não ha outro, ó Jeshurun, similhante a Deus!", um povo salvo pelo Senhor, deitado sobre braços eternos.
O Cerne
Repare em quem fala e de onde. Moisés abençoa uma terra que ele próprio não vai pisar. Não há nele um fio de amargura, nenhuma tentativa de se incluir na bênção. Isso diz algo decisivo: a bênção não é propriedade de quem a pronuncia nem prémio de quem a recebe. Rúben, que profanou o leito do pai, ouve "Viva Ruben, e não morra". Levi, nascido da violência em Siquém, recebe o Urim e o Tumim e o ensino da lei. Deus não distribui bênção conforme o currículo das tribos, mas conforme a sua própria aliança. E o fundamento é dito sem rodeios: "por baixo sejam os braços eternos". A segurança de Israel não está no chão que conquista, mas nos braços que o sustentam por debaixo desse chão.
O Fio Condutor
Há uma frase nesta bênção que atravessa toda a Escritura como um nervo: "O amado do Senhor habitará seguro com elle: todo o dia o cobrirá, e morará entre os seus hombros." A imagem é de alguém carregado ao colo, encostado ao peito, protegido o dia inteiro. É assim que Deus quer habitar com o seu povo, e é exatamente isso que acontece quando o Filho arma a sua tenda no meio de nós. Note também Judá: "Ouve, ó Senhor, a voz de Judah, e introduze-o no seu povo." Uma oração por um regresso, por uma reunião. Dessa tribo virá aquele que não só regressa ao povo, mas o traz consigo. Moisés abençoa de fora da terra; Cristo abençoa de dentro da morte.
O Espelho
Repare onde o seu coração se agarra quando lê isto. Talvez queira ser José, com as bênçãos do céu, do orvalho, do sol e da lua empilhadas umas sobre as outras. E talvez tenha recebido, na distribuição real da sua vida, o versículo de Dã: uma linha, sem explicação. Um emprego que não deslumbra ninguém, um casamento que resiste mas não brilha, um corpo que já não faz o que fazia. A tentação é medir-se pelo comprimento da sua bênção comparada com a do irmão ao lado. Mas repare em Aser: "O ferro e o metal será o teu calçado; e a tua força será como os teus dias." Não força para a vida inteira de uma vez. Força à medida dos dias, entregue ao dia. É uma promessa que humilha o nosso desejo de garantias antecipadas e liberta quem já não aguenta pensar no próximo ano.
Hoje, escreva num papel a frase "a tua força será como os teus dias" e cole-a no sítio onde a primeira coisa que faz de manhã acontece: o espelho, a máquina do café, o ecrã do computador.
O Perfil
Os que ouviram isto estavam acampados nas planícies de Moabe, à vista do Jordão, com quarenta anos de areia atrás de si. Eram, quase todos, a segunda geração: nasceram no deserto, enterraram os pais no deserto, nunca viram o Egito nem o mar aberto. E agora o único líder que conheceram vai morrer antes da travessia. Para eles, esta bênção não era poesia litúrgica, era testamento. Cada tribo ouviu o seu nome dito em voz alta por um moribundo, e isso tinha peso jurídico e espiritual: a palavra de bênção de um pai, no Antigo Oriente, não se revogava. Ouvir "Viva Ruben, e não morra" significava que o passado da tribo não determinava o seu futuro.
Contexto
Deuterônimo inteiro é um discurso de fronteira. Israel não está nem no deserto nem na terra; está na soleira. Moisés acabou de recitar um cântico duro no capítulo anterior, cheio de avisos sobre a infidelidade que virá. Deus já lhe disse que subirá o monte Nebo para ver a terra e morrer ali. É nesse enquadramento que surge o capítulo 33: depois da ameaça, a bênção; depois da lei, o colo. As tribos ainda não têm território definido, não têm rei, não têm templo. São doze clãs com rivalidades antigas e memórias feias. E o que os mantém juntos não é um exército nem uma instituição, mas uma aliança e um nome partilhado: Jesurum, "o reto", o apelido carinhoso que Deus dá a um povo que ainda não é reto.
A Personagem Principal
Moisés aparece aqui pela primeira e única vez no Pentateuco como "homem de Deus", e é significativo que o título chegue no fim, quando já não lhe serve para nada. O homem que discutiu com Deus, que partiu as tábuas, que bateu na rocha em Meribá e perdeu por isso a entrada na terra, gasta o último sopro a desejar bem a quem vai entrar sem ele. Não pede um epitáfio. Não se queixa. Olha para cima e diz: "Não ha outro, ó Jeshurun, similhante a Deus!" É o retrato de uma alma que chegou ao fim e descobriu que o que a sustentava nunca foi o seu próprio êxito, mas uns braços por debaixo dela.
Reflexão
Qual é a bênção que você acha que lhe foi dada em versão curta, e o que mudaria se a lesse como palavra talhada à sua medida e não como sobra?
Onde é que você tem procurado força para o ano inteiro quando Deus só prometeu força para os seus dias?
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Deuteronômio: Introdução e Comentário
Um comentário claro e confiável, versículo por versículo, que ajuda o leitor a entender a aliança, as leis e a pregação de Moisés em Moabe dentro do contexto do antigo Oriente Próximo e da história da redenção.
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Perguntas frequentes sobre Deuteronomy 33
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O que a comunidade compartilha sobre Deuteronomy 33
Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Moisés está se despedindo, e o que ele guarda do Sinai não é só o fogo. É isto: "todos os seus santos estão na tua mão". A mesma mão que entrega a lei é a que te segura. E repare onde o povo fica: "eles se colocaram a teus pés para receberem as tuas palavras". Perto o suficiente para ouvir. Você tem ficado assim?
De ferro e de bronze será o teu ferrolho; e a tua força será como os teus dias." Moisés abençoa Aser na fronteira, onde o perigo chegava primeiro. Deus não promete força estocada para o ano inteiro, mas força medida dia a dia. Talvez por isso você se sinta sem reservas hoje. Ela vem com o amanhecer, não antes.
Obrigado por levantar quem ensina os teus juízos a Jacó e a tua lei a Israel. Sou grato pelas pessoas que me abriram a Escritura, que me corrigiram com paciência e me ensinaram a te adorar. Que o incenso e o culto da minha vida te agradem hoje.
Senhor, obrigado pelo que o sol amadurece devagar e pelo que cresce em silêncio, mês após mês. Ensina-me a confiar no teu tempo quando ainda não vejo fruto algum, sabendo que cada estação da minha vida está nas tuas mãos generosas.
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