Eclesiastes 9:5
O Texto
Um professor idoso, cansado de ilusões, coloca lado a lado os vivos e os mortos e faz as contas. Os vivos têm ao menos uma vantagem: sabem que vão morrer. Os mortos não sabem nada, não recebem mais salário nenhum pelo que fizeram, e o próprio nome deles se dissolve: "a sua memoria ficou entregue ao esquecimento". É uma frase seca, sem consolo religioso, dita por alguém que se recusa a enfeitar o buraco.
O Núcleo
Este versículo não é uma doutrina completa sobre o além; é uma observação feita "debaixo do sol", isto é, a partir daqui, do lado de cá da sepultura, com os olhos que temos. E do lado de cá, o que se vê é isto: a morte encerra a conta. Nenhum acerto posterior, nenhuma segunda tentativa, nenhum reconhecimento tardio. Qohélet está desmontando uma ilusão religiosa muito comum, a de que a vida vale porque depois virá a compensação. Ele nos obriga a encarar a vida presente como o lugar onde Deus nos deu algo para viver, comer, amar e trabalhar, e não como uma sala de espera. Saber que morremos é, paradoxalmente, o único conhecimento que nos devolve o dia de hoje.
O Fio Condutor
Há uma honestidade aqui que a Bíblia não apaga depois. Quando Paulo escreve que, se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos porque amanhã morreremos, ele está praticamente citando o clima de Eclesiastes 9, e concorda: sem ressurreição, Qohélet tem razão. A diferença é que agora existe alguém que entrou no lugar do esquecimento e voltou com nome. A promessa cristã não contradiz este versículo, ela o atravessa. Cristo não nega que os mortos "não sabem coisa nenhuma" e que a memória humana falha; ele oferece outra memória, a de Deus, que não se apaga. O ladrão na cruz, que nada tinha a deixar para trás, pede exatamente isto: lembra-te de mim.
O Espelho
Você trabalha para deixar algo. Um filho bem formado, uma escola melhor, um nome respeitado na igreja, um projeto que continue depois de você. Nada disso é errado, mas Qohélet coloca o dedo onde dói: dentro de duas gerações, ninguém saberá seu nome do meio. Os netos dos seus netos não saberão como você tomava café. Se a sua motivação profunda é ser lembrado, você está construindo sobre areia molhada. E há uma segunda ferida: "nem tão pouco teem elles jámais paga". Aquela injustiça no trabalho, aquele reconhecimento que nunca veio, aquela pessoa que morreu sem pedir perdão a você. Debaixo do sol, essas contas ficam abertas. O texto não as fecha. Ele apenas devolve você ao pão de hoje.
O Perfil
Imagine os primeiros ouvintes: judeus de Jerusalém sob domínio persa ou grego, comerciantes, escribas, gente que via caravanas passar e ouvia falar do Egito. E o Egito era o império da memória: nomes gravados em pedra, corpos preservados com natrão, comida deixada nos túmulos para alimentar os mortos. Na Mesopotâmia, famílias faziam oferendas regulares aos antepassados, com o medo real de que um morto esquecido se tornasse um espírito faminto e perigoso. Em Israel, os túmulos ficavam nas encostas fora dos muros, ossos recolhidos junto aos dos pais. Nesse mundo, dizer que a memória do morto foi entregue ao esquecimento não era uma reflexão melancólica; era um golpe na religião funerária inteira. Não alimentem os mortos. Alimentem-se vocês.
O Protagonista
Qohélet é um homem que teve tudo e testou tudo, e cuja marca registrada é recusar-se a mentir para ser edificante. Ele não é cínico; é ferido e lúcido. Repare no que ele faz nos versículos seguintes: depois de dizer que os mortos não sabem nada, ele manda comer o pão com alegria, vestir roupas brancas, passar óleo na cabeça, gozar a vida com a mulher amada. Roupa branca e óleo perfumado eram sinais de festa, o oposto do saco e da cinza do luto. Ou seja: o homem que olhou fixamente para a sepultura é o mesmo que manda fazer festa. Não como fuga, mas porque reconhece que o dia comum é dádiva de Deus, "porque esta é a tua porção n'esta vida".
A Pergunta
Então os mortos não sabem mesmo nada? A pergunta é legítima e não deve ser abafada com um "mas o Novo Testamento resolve". Qohélet fala do que se pode observar, e do lado de cá não se observa nada além do silêncio. Ele não está negando Deus; está negando que tenhamos informação. A tentação piedosa é preencher esse silêncio depressa, dizendo que seu pai está olhando por você lá de cima, que os que partiram acompanham nossos passos. O texto não dá esse conforto, e nem o Novo Testamento o dá nesses termos. O que temos é mais estreito e mais firme: não uma janela para o outro lado, mas uma pessoa que atravessou. Isso é menos do que gostaríamos e suficiente para viver.
Reflexão
Se ninguém se lembrar do seu nome daqui a cem anos, o que muda hoje na maneira como você usa suas horas?
Que conta aberta você ainda espera que a vida acerte, e o que significaria entregá-la a Deus em vez de esperar a compensação debaixo do sol?
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Perguntas frequentes sobre Ecclesiastes 9:5
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O que a comunidade compartilha sobre Ecclesiastes 9
Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Obrigado, Senhor, pela companhia que me deste para gozar a vida, pelas refeições partilhadas, pelas conversas simples ao fim do dia, pelo descanso depois do trabalho. Esses dias fugazes debaixo do sol são presente da tua mão, e eu os recebo com alegria.
Sejam sempre alvas as tuas vestes, e nunca falte o óleo sobre a tua cabeça." Roupa de festa, perfume na cabeça, e isso logo depois de falar da morte que alcança a todos. Não é distração, é coragem. Você não precisa esperar a vida ficar segura para viver bem. Vista a alegria hoje, mesmo sem garantias.
Pai, o mundo grita alto e eu me canso de tanto barulho. Ensina meu coração a valorizar a voz mansa da sabedoria, aquela que só se escuta no silêncio. Que eu fale menos, escute mais e não confunda volume com verdade.
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