Ezequiel 27
O Texto
Entre os vasos de bronze e os cavalos de Togarma, no meio da lista de mercadorias de Tiro, aparecem "almas de homens" (v. 13). O capítulo inteiro é um canto fúnebre encomendado por Deus: Ezequiel deve cantar a Tiro como se canta a um morto, descrevendo a cidade como um navio magnífico, construído com cedros do Líbano, velas de linho bordado do Egito, remadores de Sidom, pilotos sábios, soldados de aluguel pendurando escudos nos muros. Depois vem o vento oriental (v. 26), e a embarcação afunda com tudo e com todos, enquanto os mercadores do mundo assobiam de espanto à beira da água.
O Cerne
O texto não condena Tiro por ser rica, mas por uma frase: "Eu sou perfeita em formosura" (v. 3). É uma autoproclamação, uma cidade que se declara acabada, completa, autossuficiente. E o poema desmonta essa pretensão de dentro: cada pedaço daquela beleza veio de outro lugar. O cedro do Líbano, o carvalho de Basã, o marfim das ilhas, o linho do Egito. Tiro é inteiramente emprestada e se gaba como se fosse origem. Esse é o pecado que Deus expõe aqui: não o comércio, mas a amnésia da dependência. E o veredito é brutalmente sóbrio: "nunca jamais serás para sempre" (v. 36). Aquilo que se declara eterno por conta própria recebe exatamente o oposto.
O Fio Condutor
Quando João descreve a queda da Babilônia em Apocalipse 18, ele praticamente copia este capítulo: a mesma lista de mercadorias, os mesmos mercadores chorando, e no fim da lista, outra vez, "corpos e almas de homens". João viu que Tiro não era só uma cidade fenícia; era um padrão, o sistema de qualquer era que transforma pessoas em estoque. E entre Ezequiel e João está o Cristo que entrou nesse mercado pelo lado oposto. Tiro comprava almas; ele deu a sua vida em resgate por muitas. Tiro dizia "sou perfeita em formosura"; dele Isaías escreveu que não havia beleza nenhuma que nos atraísse. O navio que não afunda no dia do vento oriental é o único que foi construído de baixo, por um que não se declarou perfeito, mas se fez pobre.
O Espelho
Você provavelmente não negocia escravos. Mas pense em como fala das pessoas quando está sob pressão no trabalho: recurso, headcount, peça que não encaixa. Pense em quanto da sua sensação de estar bem depende de coisas emprestadas que você já passou a chamar de suas: o salário, a saúde do corpo, a reputação construída ao longo de vinte anos, os filhos que ainda estão em casa. Tiro não caiu porque tinha essas coisas, mas porque parou de saber de onde vieram. O vento oriental é o lembrete mais honesto da Bíblia: há um dia em que tudo o que foi emprestado volta. Hoje, antes de dormir, escreva numa folha três coisas que você costuma chamar de "minhas conquistas" e, ao lado de cada uma, o nome de uma pessoa sem a qual aquilo não existiria. Depois agradeça a Deus por esses nomes, em voz alta.
Contexto
Estamos por volta de 586 a.C., com Ezequiel entre os exilados na Babilônia. Jerusalém acabou de cair, e Tiro, a potência comercial fenícia instalada numa ilha fortificada a poucos quilômetros da costa, se alegrou com isso: um concorrente a menos nas rotas de caravanas. Tiro era praticamente inexpugnável; Nabucodonosor a sitiaria por treze anos sem tomá-la de fato. Sua riqueza vinha do mar, da púrpura, do trânsito entre Egito, Anatólia e Arábia. Para os exilados ouvindo este canto, havia um gosto amargo e necessário: a cidade que ri da ruína alheia e se acha intocável porque mora na água recebe o mesmo tratamento. Deus não governa apenas Israel. Governa também as rotas marítimas.
A Pergunta
Por que Deus manda cantar uma lamentação por Tiro? Não um oráculo frio de condenação, mas um lamento, com cinza na cabeça e cabeças raspadas. Há algo desconfortável nisso: Deus parece chorar aquilo que ele mesmo derruba. Alguns resolvem dizendo que é ironia, um canto de zombaria. Talvez haja disso no assobio dos mercadores do versículo 36. Mas o texto se demora longamente na beleza de Tiro, verso após verso de cedro e marfim, e não se demora assim no que se despreza. Prefiro deixar a tensão aberta: o juízo de Deus não é indiferente ao que destrói. Havia glória genuína naquele navio, e ela se perdeu. Isso não torna o juízo injusto. Torna-o triste.
O Detalhe
Volte ao versículo 13: "com almas de homens e vasos de bronze fizeram negócios contigo". A palavra hebraica ali é néfesh, a mesma usada em Gênesis para a criatura viva que Deus anima com seu fôlego. Ezequiel não diz "escravos", um termo técnico de mercado. Ele diz almas, pessoas respirantes, e as coloca gramaticalmente lado a lado com panelas de bronze, ligadas pela mesma conjunção, como itens de uma mesma fatura. A violência do versículo está nessa vírgula. É assim que todo sistema de exploração funciona: não pela crueldade explícita, mas pela listagem, pelo momento em que gente e objeto passam a caber na mesma coluna da planilha. Deus lê essa planilha. E a lê em voz alta.
Reflexão
Onde, na sua semana, alguém aparece na sua cabeça como função antes de aparecer como nome?
Se o vento oriental viesse esta noite e levasse aquilo que mais sustenta sua sensação de segurança, o que restaria de você diante de Deus?
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Perguntas frequentes sobre Ezekiel 27
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