Explicação bíblica

Isaías 63

Bíblia
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O Texto

Uma sentinela avista alguém que sobe de Edom, com as roupas manchadas de vermelho, e pergunta quem é. A resposta vem em primeira pessoa: "Eu, que fallo em justiça, poderoso para salvar." O caminhante explica a mancha: pisou sozinho o lagar, e o que salpicou suas vestes foi sangue, não vinho. Ninguém o ajudou; seu próprio braço lhe trouxe a salvação. Então, sem aviso, o tom muda. A voz do profeta começa a recitar as bondades do Senhor, lembra o Êxodo, o mar aberto, o Espírito no meio do povo, e a rebeldia que transformou o Salvador em adversário. O capítulo termina em pergunta aberta e ferida: "Onde estão o teu zelo e as tuas forças?", e numa confissão desesperada, "Tu, ó Senhor, és nosso Pae."

O Núcleo

Duas imagens de Deus se chocam neste capítulo, e o texto não as reconcilia depressa. Há o Deus que pisa o lagar sozinho, terrível, e há o Deus de quem se diz: "Em toda a angustia d'elles elle foi angustiado." O mesmo Senhor que esmaga é o que carrega: "os tomou, e os trouxe sobre si todos os dias da antiguidade." Você provavelmente prefere o segundo e desconfia do primeiro. Mas o profeta não oferece essa escolha. A solidão do vinhateiro no lagar é a mesma solidão de quem salva sem ajudante: "não havia quem me ajudasse". Ou seja: a salvação não é colaboração. Nada em você a sustenta. E é justamente por isso que a rebeldia do versículo 10 não a cancela, apenas fere o Espírito que a operou.

O Fio Condutor

Repare no que o solitário do lagar diz e no que ele não diz. Ele fala "em justiça", é "poderoso para salvar", e a força que o sustenta é o próprio furor. Ninguém entra com ele. Séculos depois, outro homem ficaria sozinho num jardim enquanto os amigos dormiam, e ninguém entraria com ele naquilo. A diferença é o que o Novo Testamento faz com a imagem: o sangue que mancha a veste do Messias, no fim, é o dele mesmo. O padrão continua o mesmo, e é ele que importa: Deus salva sem sócios, sem contribuição humana, sem colaboração. E o versículo 9, "elle foi angustiado", já aponta para o Deus que não salva de fora, mas de dentro da angústia do seu povo.

O Espelho

Você gosta de Deus quando ele carrega. Fica desconfortável quando ele pisa. Só que a maior parte da sua vida de fé acontece justamente no lugar onde o profeta termina o capítulo: sem resposta, com o santuário pisado por adversários, olhando para a própria história e sem reconhecer o Deus que costumava agir. É a casa em que a oração de dez anos atrás foi respondida e a de agora não. É o casamento que parece ter secado, o filho que não volta, o corpo que já não coopera, o trabalho que consome sem devolver sentido. E vem a pergunta perigosa do versículo 17: será que é Deus quem está endurecendo meu coração? O texto não repreende essa pergunta. Ele a coloca na boca do orante. Note também a última linha: "Somos feitos como aquelles sobre quem tu nunca dominaste." Esse é o medo real, não o de sofrer, mas o de já não pertencer.

Hoje, pegue papel e escreva em uma frase a pergunta que você não tem coragem de fazer a Deus. Depois leia-a em voz alta e termine dizendo, também em voz alta: "Tu, ó Senhor, és nosso Pae."

Contexto

Estamos nos capítulos finais de Isaías, com a paisagem do exílio ao fundo: Jerusalém arrasada, templo profanado, "nossos adversarios pizaram o teu sanctuario". Edom não é escolhido ao acaso. Edom é Esaú, o povo irmão, o vizinho que aplaudiu quando Jerusalém caiu. Bozra era sua cidade principal, e o nome soa perto do verbo hebraico de vindimar, colher uvas. O trocadilho é amargo e proposital. Some-se a isso o golpe social: um povo sem terra, sem culto e sem prestígio, cuja única credencial sempre foi a descendência. E o versículo 16 admite que essa credencial acabou: "ainda que Abrahão nos não conhece". A linhagem calou. Restou apelar não ao sangue dos pais, mas à paternidade de Deus.

O Detalhe

"O arroido das tuas entranhas, e das tuas misericordias, detem-se para comigo." A palavra hebraica ali é rachamim, misericórdias, parente próxima da palavra para ventre materno. O orante não pede que Deus pense nele. Pede que Deus sinta um embrulho nas vísceras, aquele aperto físico que uma mãe sente quando o filho grita no outro cômodo. E a acusação é ainda mais ousada: essas entranhas estão contidas, retidas, se detêm. O problema não é que Deus esteja longe demais para ver. É que ele está segurando o próprio afeto. Poucas orações na Bíblia chegam tão perto da beira. E ela está nas Escrituras, autorizada, sem nota de rodapé pedindo desculpas.

O Intertexto

Duas conexões iluminam este capítulo. A primeira: em Apocalipse 19, o cavaleiro fiel e verdadeiro aparece com a veste tinta em sangue antes da batalha começar, e a imagem do lagar retorna. João lê Isaías 63 como retrato de Cristo, não como uma página constrangedora a ser descartada. A segunda: quando JesusIsaías 61 na sinagoga de Nazaré, ele para exatamente antes da frase sobre o dia da vingança. Aqui, em 63:4, a frase é dita inteira: "o dia da vingança estava no meu coração; e o anno dos meus remedios é chegado." Vingança e redenção na mesma respiração. Jesus não apagou a primeira metade; adiou-a.

Reflexão

Qual foi a última vez em que você orou com a franqueza do versículo 15, e o que o impediu de fazê-lo desde então?

Se a salvação é obra de um braço só, sem ajudantes, o que muda na maneira como você mede o próprio desempenho espiritual esta semana?

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Perguntas frequentes sobre Isaiah 63

Respostas rápidas às perguntas mais comuns sobre esta passagem bíblica.

O que significa Isaías 63?
Uma sentinela avista alguém que sobe de Edom, com as roupas manchadas de vermelho, e pergunta quem é. A resposta vem em primeira pessoa: "Eu, que fallo em justiça, poderoso para salvar." O caminhante explica a mancha: pisou sozinho o lagar, e o que salpicou suas vestes foi sangue, não vinho.
Sobre o que fala Isaías 63?
Repare no que o solitário do lagar diz e no que ele não diz. Ele fala "em justiça", é "poderoso para salvar", e a força que o sustenta é o próprio furor. Ninguém entra com ele. Séculos depois, outro homem ficaria sozinho num jardim enquanto os amigos dormiam, e ninguém entraria com ele naquilo.
Qual é o contexto histórico de Isaías 63?
Hoje, pegue papel e escreva em uma frase a pergunta que você não tem coragem de fazer a Deus. Depois leia-a em voz alta e termine dizendo, também em voz alta: "Tu, ó Senhor, és nosso Pae."
O que Isaías 63 nos ensina sobre o caráter de Deus?
"O arroido das tuas entranhas, e das tuas misericordias, detem-se para comigo." A palavra hebraica ali é rachamim, misericórdias, parente próxima da palavra para ventre materno. O orante não pede que Deus pense nele. Pede que Deus sinta um embrulho nas vísceras, aquele aperto físico que uma mãe sente quando o filho grita no outro cômodo.
Como Isaías 63 continua relevante hoje?
Qual foi a última vez em que você orou com a franqueza do versículo 15, e o que o impediu de fazê-lo desde então?
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O que a comunidade compartilha sobre Isaiah 63

Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.

Oração Editorial em versículo 12

Pai, tu abriste caminho onde só havia mar e medo, e seguraste a mão do teu povo até o outro lado. Diante do que hoje parece intransponível, lembro disso. Guia me com a mesma força, mesmo quando eu não enxergo o chão à frente.

Agradecimento Editorial em versículo 2

Obrigado, Senhor, porque as tuas vestes vermelhas me dizem que não ficaste apenas olhando o mal de longe. Tu mesmo pisaste o lagar, sozinho, e tomaste para ti a batalha que eu jamais venceria. Onde só enxergo injustiça, Tu já entraste em ação.

Oração Editorial em versículo 1

Pai, tu vens caminhando com força, e eu nem sempre reconheço tua chegada. Quando a injustiça parece vencer e o medo fala mais alto, lembra o meu coração de que tu falas o que é certo e tens poder de sobra para salvar. Confio nisso hoje.

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