Jó 20
O Texto
Zofar, o naamatita, não aguenta mais. Ofendido com a repreensão de Jó, ele responde num jorro: desde que o homem foi posto sobre a terra vale uma lei fixa, "que o jubilo dos impios é breve, e a alegria dos hypocritas como d'um momento". Segue-se um retrato implacável do ímpio: ele sobe até às nuvens e desaparece como esterco, engole riquezas e as vomita, saboreia o mal como doce na boca até que vire fel de áspides nas entranhas. O céu denuncia sua iniquidade, a terra se levanta contra ele, e tudo termina com a sentença: esta é a porção que Deus reserva ao ímpio.
O Cerne
Zofar não está errado em tudo; está errado no uso. Ele afirma algo que a Escritura também afirma, que o mal se devora a si mesmo e que Deus não é indiferente à opressão dos pobres. O problema é que ele transforma uma verdade geral num mecanismo automático e depois aponta esse mecanismo para um homem específico sentado nas cinzas. A doutrina vira instrumento cirúrgico sem diagnóstico. E repare na sutileza: o discurso inteiro é sobre bens engolidos e vomitados, sobre casas roubadas que não se edificou. Zofar está dizendo, sem nunca dizer, que Jó enriqueceu às custas dos miseráveis. É teologia correta usada como acusação falsa, e é exatamente isso que Deus, no fim do livro, chamará de não ter falado dele o que é reto.
O Fio Condutor
Há uma ironia profunda em Zofar descrever alguém cujos ossos se enchem de pecados ocultos, cujo corpo é atravessado pela flecha, sobre quem Deus faz chover o ardor da sua ira. É a linguagem do sofrimento como prova de culpa. E é precisamente essa lógica que a cruz quebra. O inocente que o céu parece denunciar, a quem se diz "onde está Deus?", o homem traspassado e abandonado: a Escritura nos obriga a ver que o sofrimento extremo pode recair sobre o justo, e não como castigo. Jó é sombra disso. Zofar fala com a voz dos que, diante do Crucificado, concluíram que ele estava sendo ferido por Deus, e erraram completamente.
O Espelho
A tentação de Zofar não é a crueldade; é a necessidade de que o mundo faça sentido. Quando alguém adoece, quando um casamento desmorona, quando o colega perde o emprego, a mente procura a causa escondida, o pecado oculto, o "algo ele fez". Essa busca nos protege: se há causa, estamos seguros, porque não fizemos aquilo. Zofar sofre menos sendo ortodoxo do que sendo honesto. E note o detalhe do versículo 2: ele responde porque seus pensamentos o apressam, porque se sentiu envergonhado. Boa parte do que dizemos aos que sofrem nasce do nosso desconforto, não da dor deles. Hoje: pense numa pessoa em dificuldade a quem você já atribuiu, em silêncio, alguma culpa, e escreva-lhe uma mensagem de três linhas sem nenhum conselho dentro.
O Perfil
Os primeiros ouvintes deste livro viviam num mundo onde a prosperidade era linguagem religiosa: campos férteis, filhos, rebanhos, tudo isso dizia que você estava certo com Deus. Zofar fala essa língua fluentemente, e seu público assentiria. Quando ele diz que os filhos do ímpio procurarão agradar aos pobres e que suas mãos restaurarão a fazenda, está descrevendo o pesadelo social daquele mundo: a ruína que atravessa gerações, os herdeiros mendigando perdão de quem o pai explorou. Era o argumento mais pesado que se podia lançar contra um pai de dez filhos mortos. Os ouvintes antigos sentiriam a pancada muito antes de percebermos que há aqui uma crueldade cuidadosamente embrulhada em ortodoxia.
O Intertexto
O Salmo 73 é a resposta interna da Bíblia a Zofar. Asafe olha para os ímpios e vê exatamente o contrário: gordos, tranquilos, morrendo em paz na cama, sem as dores dos outros homens. Ele só reencontra o chão no santuário, ao ver o fim deles, e mesmo assim sua conclusão não é um mecanismo mas uma presença: estar com Deus. Zofar tem o fim sem o santuário, a fórmula sem a luta. Já em Lucas 12, Jesus conta do homem que encheu os celeiros e ouviu que naquela noite sua alma lhe seria pedida; Zofar acerta a melodia dessa parábola. O que ele não tem é o direito de cantá-la diante de Jó. A mesma frase é verdade na boca de Jesus e mentira na dele.
O Detalhe
Versículo 17: "Não verá as correntes, os rios e os ribeiros de mel e manteiga." Zofar escolheu uma imagem carregada. Mel e leite coalhado são a assinatura da terra prometida, a descrição da fartura que Deus jura dar ao seu povo. Negar isso a alguém não é apenas prever pobreza; é excluí-lo da herança. É dizer: você está fora do pacto, nunca verá os rios que correm para os filhos de Deus. E a palavra final do capítulo confirma: "herança". Zofar trata a herança como salário, calculado pelo comportamento. A Escritura inteira caminha na direção oposta, porque a terra prometida sempre foi dom, nunca pagamento, e é por isso que Jó, arruinado e sem mel algum, ainda pode ser chamado servo de Deus.
Reflexão
Quando alguém perto de você sofre, qual é o primeiro pensamento que lhe ocorre: a causa ou a pessoa?
Em que ponto da sua fé você guarda uma fórmula que funciona bem para explicar a vida dos outros, mas que você nunca aceitaria aplicada à sua própria?
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Perguntas frequentes sobre Job 20
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Obrigado, Senhor, porque a maldade não encontra esconderijo: mesmo quem foge das armas de ferro, o arco de bronze o atravessa. Ninguém escapa da tua justiça, e isso me dá paz diante do mal que parece impune. E te agradeço porque, em Cristo, a flecha que eu merecia não caiu sobre mim.
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