Salmos 75
O Texto
O salmo começa com louvor pelo nome de Deus que "está perto" e pelas suas maravilhas, e então, abruptamente, uma outra voz toma a palavra: alguém anuncia que, quando ocupar o lugar determinado, julgará retamente, e declara que foi ele quem firmou as colunas de uma terra que se dissolvia. Segue-se um aviso direto aos arrogantes: a exaltação não vem de nenhum ponto do horizonte, porque Deus é o Juiz, "a um abate, e a outro exalta". No fim, uma imagem que corta: um cálice de vinho tinto na mão do Senhor, cheio de mistura, cujas borras os ímpios terão de sorver até o fundo.
O Coração
Este salmo desmonta a geografia do poder. "Nem do oriente, nem do occidente, nem do deserto vem a exaltação": o poeta percorre os pontos cardeais, os caminhos por onde chegavam os exércitos, os mercadores, as alianças políticas, e conclui que nenhum deles produz ascensão real. A exaltação não é um recurso que se conquista por posição, rede de contatos ou força militar. Ela é distribuída por uma única mão. Isso é ao mesmo tempo demolidor e libertador: demolidor porque arranca de nós a ilusão de que subimos por mérito próprio, libertador porque significa que ninguém pode nos derrubar de um lugar que Deus nos deu. E note-se que o juízo aqui não é apenas punição; é a restauração da ordem em uma terra que estava literalmente se desfazendo.
O Fio Condutor
Duas coisas neste salmo apontam adiante de si mesmas. Primeiro, a voz do verso 2: alguém que ainda não ocupa o lugar determinado, mas ocupará, e então julgará retamente. Nenhum rei de Israel cumpriu isso. Davi julgou mal no caso de Urias; Salomão, no fim, julgou pelo peso do ouro. A promessa fica pendurada, esperando um Juiz que não se corrompa. Segundo, o cálice. Nos profetas ele é o cálice da ira, e é exatamente essa a palavra que Jesus usa no Getsêmani quando pede: "passa de mim este cálice". A borra que os ímpios deveriam sorver, o Justo bebeu. Aí está a torção surpreendente do evangelho: o Juiz que vem julgar retamente começa bebendo a sentença em lugar dos réus.
O Espelho
Você conhece por dentro o movimento do verso 5, "não levanteis a vossa fronte altiva". Ele acontece em coisas pequenas: na reunião onde você deixa cair, casualmente, uma informação que mostra o seu valor; no comentário sobre o irmão da igreja que não chegou onde você chegou; na conta bancária que funciona como termômetro secreto da sua dignidade. E conhece também o medo espelhado: a angústia de ser passado para trás, de ver o outro promovido, de envelhecer sem ter subido. Este salmo não diz que essas coisas não importam. Diz que elas não estão nas suas mãos nem nas mãos de quem você teme. Hoje, escreva num papel o nome da pessoa cuja posição você inveja, e ao lado a frase do verso 7, "Deus é o Juiz", e ore por essa pessoa em voz alta, pedindo bênção para ela. Depois rasgue o papel.
O Personagem Principal
O retrato de Deus aqui tem uma tensão que não devemos amaciar. Ele é o Deus cujo "nome está perto", próximo, acessível, celebrado com louvor; e é o mesmo que segura um cálice de vinho misturado e o serve. Perto não significa inofensivo. As "colunas" da terra são sustentadas pela sua mão, o que faz dele o único fiador da estabilidade em um mundo que, sem ele, se dissolve. E ele fala. Não julga em silêncio burocrático; adverte primeiro, "Não enlouqueçaes", como quem prefere que o arrogante desça por vontade própria antes de ser descido. Há paciência nesse aviso. O Deus que quebra as forças dos ímpios primeiro os chama de loucos, o que é menos uma ofensa que um diagnóstico e um convite.
O Intertexto
O cálice liga este salmo diretamente ao Getsêmani, e vale ler os dois lado a lado: em Mateus 26, Jesus, prostrado, pede que o cálice passe, e o aceita. A logica do Salmo 75 exigia que os ímpios sorvessem as borras; a cruz coloca o Filho no lugar deles. O segundo eco está no cântico de Maria, em Lucas 1, onde ela canta que Deus derrubou os poderosos dos tronos e elevou os humildes. Maria está cantando o verso 7 deste salmo, mas no tempo passado, como coisa já feita, porque ela traz no ventre o cumprimento. O salmo prometia um juízo futuro; o Magnificat anuncia que ele começou, e começou pequeno.
O Perfil
Quem cantava isto morava num território minúsculo encaixado entre impérios. Oriente significava Assíria e Babilônia; ocidente, o mar e depois Roma; o deserto, as incursões do sul. Dizer que a exaltação não vem de nenhuma dessas direções era uma afirmação politicamente insolente: os reinos que decidiam o destino de Israel não decidiam nada. Para um lavrador que vira sua colheita requisitada por soldados estrangeiros, esse salmo não era filosofia, era esperança concreta de que a fronteira do poder real passava por outro lugar. E quando eles cantavam "cantarei louvores ao Deus de Jacob", invocavam o Deus do patriarca fraco e enganador que foi feito grande sem merecer. Era exatamente esse o ponto.
Reflexão
Em que área da sua vida você age como se a exaltação viesse do oriente, do ocidente ou do deserto, ou seja, de alguma direção que você mesmo consegue controlar?
Se Cristo bebeu as borras do cálice do verso 8, o que muda na maneira como você espera o juízo final: com pavor, com indiferença ou com alívio?
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Perguntas frequentes sobre Psalms 75
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