Explicação bíblica

João 17:1

Bíblia

O Texto

A sala ainda cheira a pão e a vinho. As palavras longas da despedida acabaram de cessar, e por um instante ninguém fala. Então Jesus faz algo que os discípulos nunca o tinham visto fazer assim, diante deles: ergue o rosto, não para olhá-los, mas para olhar além do teto, além da noite de Jerusalém. "Jesus disse estas coisas, e levantou seus olhos ao céu, e disse: Pae, é chegada a hora; glorifica a teu Filho, para que tambem o teu Filho te glorifique a ti." Em resumo: terminado o ensino, Jesus se vira para o Pai, declara que o momento decisivo finalmente chegou e pede uma coisa só, que o Pai o glorifique, e isso para que o Pai mesmo seja glorificado no Filho.

O Cerne

Repare no que Jesus não pede. Não pede fuga, nem força, nem que a hora passe (essa oração virá depois, no jardim, e será vencida). Pede glória. E a glória que pede está a poucas horas de distância, com forma de cruz. É aqui que o Evangelho de João nos desconcerta: aquilo que todo mundo lerá como derrota pública, abandono e vergonha, Jesus chama de o momento em que o Pai brilha. Deus não se revela apesar do sofrimento do Filho, revela-se nele. E "a hora", que durante capítulos inteiros ainda não tinha chegado, chega agora por escolha, não por acidente. Nada foi arrancado de Jesus. Tudo foi entregue. O amor de Deus não é um sentimento declarado a distância; é uma decisão tomada em voz alta, de olhos erguidos, na véspera da morte.

O Fio Condutor

"É chegada a hora" é uma frase que vem de longe. Desde Caná, onde Jesus disse à mãe que sua hora ainda não tinha vindo, João vem armando um relógio que só agora toca. E o que toca é a Páscoa. Na mesma semana em que cordeiros são degolados no templo, um homem ergue os olhos e pede que o Pai o glorifique. Toda a história de resgate, o êxodo, o sangue na porta, o sacerdote que entra diante de Deus carregando nomes, se concentra neste gesto de um rosto levantado. O Antigo Testamento esperava alguém que falasse com Deus em favor do povo e não recuasse. Aqui ele fala. E não recua.

O Espelho

Nós também temos horas. A conversa que vem sendo adiada há meses, o resultado do exame marcado para quinta, a reunião em que seu nome será dito de um jeito que você não escolheu. E o instinto é sempre o mesmo: torcer para que a hora não chegue, ou chegar nela encolhido, administrando danos. Jesus entra na hora dele de olhos abertos e erguidos, pedindo que Deus seja honrado ali dentro, não que a hora seja cancelada. Isso corta fundo, porque a maior parte das nossas orações é pedido de cancelamento. Hoje, antes de dormir, diga em voz alta o nome daquilo que você mais queria evitar nesta semana, e depois acrescente, também em voz alta: "Pai, sê glorificado nisso."

A Pergunta

Por que Deus precisa de glória? A palavra soa a vaidade, como se o Criador dependesse de aplauso. E a pergunta fica mais áspera quando percebemos que a glória pedida custa a vida de um inocente. Não há resposta que dissolva o incômodo. O que o texto mostra é que a glória aqui não é Deus recebendo algo, mas Deus sendo visto como é: Pai e Filho glorificando-se mutuamente, um movimento de entrega que não tem começo e no qual ninguém está tentando subir. Deus não fica maior na cruz. Fica visível. Isso explica muito, mas não explica o preço, e o texto não se desculpa por isso.

O Detalhe

"Levantou seus olhos ao céu." João quase nunca descreve a postura física de Jesus na oração, e aqui demora um instante no gesto. Repare que Jesus não fecha os olhos nem se afasta dos discípulos para rezar sozinho, como em outras noites. Ele ora de olhos abertos, na frente deles, deixando-os ouvir tudo. É uma oração encenada, no melhor sentido: eles precisam escutar como o Filho fala com o Pai, porque daqui a pouco estarão sozinhos no mundo e será essa a única memória que terão de como se dirige a Deus quando tudo desaba. O gesto é pedagógico antes de ser devoto.

O Personagem Principal

Jesus, nesta frase, está inteiramente calmo e inteiramente exposto. Chama Deus de "Pae", palavra doméstica, e no mesmo fôlego fala de glória eterna, o vocabulário do templo. Essa combinação é o retrato dele: intimidade sem familiaridade barata, autoridade sem distância. E há uma segurança estranha no pedido, porque ele pede algo que sabe que receberá, e pede para devolver. Não quer glória para guardar; quer para que o Pai brilhe nela. Um homem a horas da tortura, e seu interesse principal é que o Pai apareça bem. Isso não é heroísmo. É amor antigo, de antes do mundo, chegando finalmente ao ponto onde pode ser visto.

Reflexão

Em que hora da sua vida você tem pedido cancelamento, quando talvez devesse pedir que Deus seja visto ali dentro?

Se alguém o ouvisse orar hoje, como os discípulos ouviram Jesus, o que aprenderia sobre quem é Deus para você?

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Perguntas frequentes sobre John 17:1

Respostas rápidas às perguntas mais comuns sobre esta passagem bíblica.

O que significa João 17:1?
A sala ainda cheira a pão e a vinho. As palavras longas da despedida acabaram de cessar, e por um instante ninguém fala. Então Jesus faz algo que os discípulos nunca o tinham visto fazer assim, diante deles: ergue o rosto, não para olhá-los, mas para olhar além do teto, além da noite de Jerusalém.
Sobre o que fala João 17:1?
"É chegada a hora" é uma frase que vem de longe. Desde Caná, onde Jesus disse à mãe que sua hora ainda não tinha vindo, João vem armando um relógio que só agora toca. E o que toca é a Páscoa. Na mesma semana em que cordeiros são degolados no templo, um homem ergue os olhos e pede que o Pai o glorifique.
Qual é o contexto histórico de João 17:1?
Por que Deus precisa de glória? A palavra soa a vaidade, como se o Criador dependesse de aplauso. E a pergunta fica mais áspera quando percebemos que a glória pedida custa a vida de um inocente. Não há resposta que dissolva o incômodo.
O que João 17:1 nos ensina sobre o caráter de Deus?
Jesus, nesta frase, está inteiramente calmo e inteiramente exposto. Chama Deus de "Pae", palavra doméstica, e no mesmo fôlego fala de glória eterna, o vocabulário do templo. Essa combinação é o retrato dele: intimidade sem familiaridade barata, autoridade sem distância. E há uma segurança estranha no pedido, porque ele pede algo que sabe que receberá, e pede para devolver.
Como João 17:1 continua relevante hoje?
Se alguém o ouvisse orar hoje, como os discípulos ouviram Jesus, o que aprenderia sobre quem é Deus para você?
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.

Reflexão Editorial em versículo 22

Horas antes da cruz, Jesus já fala no passado: "Eu lhes tenho transmitido a glória que me tens dado, para que sejam um, como nós o somos." A glória não foi guardada, foi repartida. E o propósito dela não é brilhar sozinho, é caber junto com o outro. Com quem você anda dividindo essa glória hoje?

Reflexão Editorial em versículo 7

Agora, eles reconhecem que todas as coisas que me tens dado provêm de ti." Levou tempo. Foram três anos de perguntas erradas, de brigas por primeiro lugar, de sono no Getsêmani. E ainda assim Jesus celebra diante do Pai o pouco que eles entenderam. Ele vê o que já nasceu em você, não só o que falta.

Reflexão Editorial em versículo 20

Horas antes da cruz, com a traição já a caminho, Jesus para e ora: "Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra." Você estava naquela oração. Antes de existir, antes de crer, já era lembrado por nome no coração dele. Quem te carregou assim, naquela noite, não te solta agora.

Reflexão Editorial em versículo 10

E todas as minhas coisas são tuas, e as tuas coisas são minhas; e neles eu sou glorificado." Jesus diz isso poucas horas antes de Pedro negá-lo e de todos fugirem. Ele sabia. E mesmo assim chamou aquele grupo frágil de sua glória. Se é assim que ele te vê, por que você insiste em se ver de outro jeito?

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