João 6:3
O Texto
Jesus atravessa o lago, uma multidão enorme vem atrás dele por causa das curas, e então vem este versículo quase sem peso: "E Jesus subiu ao monte, e assentou-se ali com os seus discipulos." Nenhum discurso, nenhum milagre, nenhuma reação à pressão que o segue pela margem. Ele sobe, encontra um lugar, senta-se. E os doze sentam-se com ele. É tudo. João, que raramente desperdiça uma palavra, gasta uma frase inteira para dizer que o Filho de Deus parou de andar e se acomodou numa encosta, com um pequeno grupo, enquanto milhares de pessoas se aproximavam carregando as suas doenças e as suas esperanças.
O Cerne
Sentar-se, no mundo antigo, não era descanso apenas: era a postura do mestre e a postura do rei. O rabino sentava-se para ensinar; o soberano sentava-se para governar. Jesus sobe ao monte e assume essa posição antes de qualquer multidão exigir algo dele. Aí está o coração escondido deste versículo: a iniciativa nunca é da necessidade humana. Daqui a dois versículos ele "levantando os olhos" verá a multidão e perguntará onde comprar pão, e João acrescenta que "elle bem sabia o que havia de fazer". O plano já estava formado na encosta silenciosa. Deus não é empurrado para a ação pelo volume do nosso clamor. Ele age a partir de um lugar de serenidade soberana, e é por isso que a sua graça nunca tem o gosto amargo da obrigação.
O Fio Condutor
Um monte, uma Páscoa próxima (versículo 4), um povo faminto no deserto verde, e um homem sentado no alto com os seus. João está a pintar Moisés sem o nomear. Moisés subia o monte e descia com pão do céu e com a Palavra; aqui o próprio Pão desce e senta-se. Mais tarde no capítulo, quando a multidão lhe atirar o maná como desafio, Jesus responderá: "Moysés não vos deu o pão do céu; mas meu Pae vos dá o verdadeiro pão do céu." Esse diálogo começa neste versículo mudo. Antes da discussão teológica, antes da carne e do sangue que escandalizarão tantos, há uma encosta e um mestre sentado. A redenção avança assim: não com estrondo, mas com Deus a tomar o seu lugar entre os seus.
O Espelho
Repare em quem se senta com ele. Não os cinco mil. Os discípulos. Os que já andavam com ele antes de haver espetáculo. Há em nós um apetite por estar na multidão: no grupo grande, na conversa animada, no lugar onde algo visivelmente acontece. É mais fácil seguir Jesus com dois mil do que sentar-se com ele quando não se passa nada. E confessemos a inquietação: ficar parado numa encosta, sem produzir, sem resolver, com o trabalho por fazer e as mensagens por responder, parece-nos desperdício. Medimos a nossa fidelidade pelo movimento. Jesus mede-a pela proximidade. Antes de ele distribuir pão a milhares, sentou-se com doze. Antes de usar você, ele quer você sentado.
Hoje, antes de qualquer outra coisa: sente-se dez minutos sem telemóvel, sem leitura, sem pedido, e diga em voz alta, uma só vez, "Senhor, estou aqui contigo". Depois fique calado o resto do tempo.
O Intertexto
Lucas conta de outra mulher que escolheu o chão: Maria, "assentada aos pés de Jesus", enquanto Marta se afligia com o serviço. A postura é a mesma deste versículo, e o veredicto de Jesus também: aquilo não se tira. E no fim deste mesmo capítulo, quando muitos "tornaram para traz, e já não andavam com elle", são precisamente os que se sentaram no monte que permanecem, e Pedro diz: "Senhor, para quem iremos nós?" Os que estiveram sentados na encosta quando nada acontecia são os que ficam de pé quando tudo desmorona. A multidão dispersa-se com a mesma facilidade com que se juntou. O círculo dos sentados é o que sobrevive ao discurso duro.
O Perfil
Os primeiros leitores de João conheciam multidões assim: gente da Galileia sob ocupação romana, esmagada por impostos, doente, sem rede de proteção. Eles iam atrás de quem curasse, e tinham razão em ir. Mas esses leitores sabiam também como termina esta história: dois versículos depois do milagre, querem "arrebatal-o, para o fazerem rei". A multidão não é hostil; é faminta, e a fome transforma-se facilmente em exigência. Para uma comunidade cristã do fim do primeiro século, talvez já expulsa da sinagoga e reduzida a um punhado de pessoas numa casa, este versículo soava como consolo cortante: o Senhor não está onde há mais gente. Está sentado com os seus, num monte, longe do ruído.
A Pergunta
Então Jesus retira-se de pessoas doentes? Elas vinham porque viam "os signaes que operava sobre os enfermos", e ele sobe o monte e senta-se. Não podemos limpar isto depressa. O evangelho mostra repetidamente um Jesus que se afasta, que dorme na tempestade, que demora dois dias antes de ir ter com Lázaro. Há nele uma liberdade que nos incomoda, porque a nossa ideia de amor é disponibilidade total e imediata. A resposta parcial é que ele sobe para descer de novo, e que o pão que acabará por dar é maior do que o que lhe pediam. Mas resta uma aresta: Deus não funciona à nossa velocidade, e nunca nos explicou inteiramente porquê.
Reflexão
Quando foi a última vez que esteve com Jesus sem lhe pedir nada e sem fazer nada por ele?
Se amanhã não houvesse multidão, nem resultado visível, nem ninguém a notar, continuaria sentado com ele?
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Perguntas frequentes sobre John 6:3
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Não que alguém tenha visto o Pai, senão aquele que vem de Deus; este o tem visto." O rosto que você imagina quando pensa em Deus talvez tenha sido desenhado por medos antigos, por um pai ausente, por alguma cobrança religiosa. Jesus é o único que viu de verdade. Deixe que Ele redesenhe esse rosto em você.
Obrigado, Pai, porque não nos deixaste apenas com o maná que alimentava um dia e depois se esquecia. Os pais comeram no deserto e morreram, mas Tu enviaste Jesus, pão vivo, que sustenta minha alma hoje e me guarda para a vida que não acaba.
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