Lucas 19:13
O Texto
"Negociae até que eu venha." Cinco palavras, e é tudo o que os dez servos recebem como instrução. O nobre está de partida para uma terra remota, para receber um reino; antes de sair, chama dez dos seus, coloca na mão de cada um uma mina, e vai-se. Nenhum plano de negócios, nenhum prazo, nenhuma explicação sobre o que conta como lucro. Apenas uma soma modesta, uma ordem breve, e a promessa embutida na própria frase: até que eu venha. Ele volta. Quando, não se diz. E entre a partida e o regresso abre-se um espaço vazio que os servos terão de habitar sem instruções adicionais, com uma moeda na palma da mão e uma ausência a que se acostumar.
O Coração
O que este versículo diz sobre Deus é desconcertante pela sua economia: ele confia, e depois cala-se. A mina é pouca coisa, o salário de uns três meses, não uma fortuna; o Senhor não sobrecarrega, dá o suficiente para que algo aconteça. Mas note-se o que não é dado: nenhum acompanhamento, nenhuma voz por cima do ombro. A fé, aqui, não é sobretudo acreditar em doutrinas corretas; é agir dentro de um silêncio prolongado, apostando que o dono da mina é bom e que voltará. Jesus conta isto às portas de Jerusalém, a pessoas que esperavam o reino "logo" (v. 11). A correção é delicada e dura ao mesmo tempo: o reino vem, sim, mas primeiro há um intervalo, e o intervalo é o vosso trabalho.
O Fio Condutor
Há um padrão antigo aqui, e Lucas conta com que o reconheçamos: Deus entrega e depois recua. Um jardim posto nas mãos de dois seres humanos, uma vinha arrendada a lavradores, uma terra prometida a ocupar. Sempre a mesma estrutura: dádiva real, autoridade real, e depois uma distância que parece silêncio mas é confiança. Aqui o padrão ganha rosto. O nobre "partiu para uma terra remota, a tomar para si um reino e voltar depois" (v. 12), e dias depois quem conta a parábola entrará em Jerusalém sobre um jumentinho, será morto, ressuscitará e subirá. Entre a subida e o regresso há um intervalo, e é nesse intervalo que estamos, com a mina na mão. A parábola não explica a demora; apenas nos coloca dentro dela.
O Espelho
A pergunta que este versículo faz não é se você acredita, mas o que tem feito com o pouco que lhe foi posto na mão enquanto o dono não aparece. E o pouco é mesmo pouco: um emprego que ninguém acha interessante, uma casa com contas apertadas, três alunos difíceis, uma mãe idosa que já não reconhece o seu nome, um dom que nunca deu nada de espetacular. A tentação não é gastar mal; é guardar. Esperar por instruções mais claras, por uma vocação mais nítida, por um tempo em que a ausência de Deus doa menos. O servo do lenço não roubou nada. Só teve medo e ficou quieto. Hoje: escreva num papel, em poucas palavras, aquilo que reconhece como a mina que lhe foi confiada nesta fase da vida, e deixe o papel onde o veja amanhã ao acordar.
A Personagem Principal
O nobre desta parábola é, antes de tudo, alguém que corre um risco absurdo. Dez servos, dez minas, nenhuma supervisão, nenhuma garantia. Ele sabe que os seus cidadãos o detestam, sabe que a viagem é longa, e mesmo assim entrega dinheiro a homens que podem perdê-lo, gastá-lo ou simplesmente adormecer sobre ele. Isto diz algo sobre Deus que a nossa religiosidade prudente costuma abafar: ele não trata os seus como ferramentas a controlar, mas como sócios a quem entrega capital verdadeiro. Um servo que não pode falhar também não pode ser fiel. E há, no gesto, uma espécie de dignidade oferecida: nada nesta parábola sugere que o nobre esperava dez resultados iguais. Esperava que se negociasse. Esperava, sobretudo, ser esperado.
O Intertexto
Em Mateus, uma história parecida distribui talentos em quantidades diferentes, cinco, dois, um, conforme a capacidade de cada um. Aqui é o contrário: a mesma mina para os dez. A diferença não está no que recebem, mas no que fazem, e isso desarma qualquer comparação entre nós. Mais perto ainda, no mesmo capítulo, está Zaqueu, que acabou de dizer: "Senhor, eis que eu dou aos pobres metade dos meus bens; e, se n'alguma coisa tenho defraudado alguem, o restituo quadruplicado" (v. 8). Lucas colocou de propósito um homem que negociou bem imediatamente antes da parábola. Zaqueu é o servo que não enrolou a mina num lenço. E note-se: o que ele fez com o dinheiro não foi guardá-lo religiosamente, foi devolvê-lo à vida das pessoas.
O Detalhe
A palavra que Jesus escolhe não é religiosa. "Negociae" traduz pragmateúomai, um verbo do mercado: fazer negócio, movimentar, arriscar capital. Não há aqui nenhum vocabulário de templo, nenhuma ordem de rezar ou vigiar. O reino, no intervalo, tem a forma de trabalho comum. E repare no que a frase omite: não se diz para quem se negocia, nem quanto se espera, nem em que ramo. Só o verbo e o prazo. Talvez seja essa nudez que mais incomoda; preferíamos uma lista. Mas uma lista transformaria os servos em executores, e o nobre quer outra coisa. Quer gente que, sem o ver, aja como se ele fosse voltar amanhã, porque acredita que ele volta.
Reflexão
O que é, hoje, a sua mina, e o que o impede de a pôr em movimento: falta de instruções, ou medo do dono?
Se o Senhor voltasse esta semana, que parte da sua vida está simplesmente à espera, e do quê exatamente?
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Pai, tenho medo de arriscar o pouco que me deste. Ensina-me a não guardar meus dons no escuro, com receio de errar. Quero investir o que tenho em amor, em serviço, em fé, confiando que tu multiplicas o que é entregue nas tuas mãos.
Senhor, entra também no que sou e afasta o que ali não deveria estar. Tanta coisa ocupou espaço em mim: pressa, barulho, negócios do coração. Faz de mim um lugar de encontro contigo, limpo e aberto, onde tua presença tenha o primeiro lugar.
Olha o cuidado das palavras: "Senhor, a tua mina rendeu dez minas." Ele não disse "eu consegui dez". Disse "a tua". O que multiplicou nas mãos dele nunca deixou de pertencer a Quem confiou. Talvez o teu dom, o teu tempo, aquele talento que te orgulha um pouco, também precise voltar a ser chamado de "teu, Senhor".
Obrigado, Senhor, porque Tu és Rei e reinas com justiça. Sou grato por não ficares indiferente diante do mal, e por me chamares hoje, com paciência, a Te render o coração antes que venha o dia do juízo. Tua misericórdia me alcançou a tempo.
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