Lucas 4
O Texto
Jesus sai do Jordão cheio do Espírito e é levado ao deserto, onde durante quarenta dias o diabo o pressiona em três pontos: o pão, o poder e a prova espetacular. Ele responde três vezes com a Escritura e o tentador se afasta "por algum tempo". Depois, na sinagoga de Nazaré, Jesus lê Isaías 61, senta-se e declara: "Hoje se cumpriu esta Escriptura em vossos ouvidos", e em poucos minutos a admiração da cidade vira fúria assassina. O capítulo termina com ele expulsando demônios, curando a sogra de Simão e recusando-se a ficar onde é querido.
O Núcleo
Repare na pergunta que atravessa o capítulo: quem tem autoridade de dizer quem Jesus é. O diabo tenta definir: "Se tu és o Filho de Deus." Os demônios sabem e gritam: "o Sancto de Deus." Nazaré reduz: "Não é este o filho de José?" Jesus, porém, não se define pelas condições do inimigo, nem pela expectativa da sua cidade natal, nem pela aclamação das multidões. Ele se define pela palavra escrita: "Escripto está." Aqui está o coração teológico do texto: o Filho de Deus vive de fora para dentro, não do próprio prestígio nem da própria fome, mas do que Deus diz. E é exatamente por isso que ele pode libertar cativos; quem não precisa ser adorado pode servir.
O Fio Condutor
Quarenta dias no deserto, fome, tentação, e respostas todas tiradas de Deuteronômio: Lucas quer que ouçamos Israel. O povo passou quarenta anos no deserto e caiu precisamente nessas três coisas, o pão, os ídolos, o pôr Deus à prova. Onde Israel falhou, este Filho permanece firme, e não como um super-homem imune, pois "teve fome". Depois, em Nazaré, ele abre Isaías e diz que o ano aceitável do Senhor, o Jubileu em que dívidas se perdoam e escravos voltam para casa, não está mais no calendário nem no futuro: está de pé na sinagoga lendo em voz alta. Toda a promessa do Antigo Testamento se aperta num único advérbio: "Hoje."
O Espelho
O que me incomoda em Nazaré não é a raiva, é a rapidez. Eles se maravilharam com as "palavras de graça" enquanto pensavam que a graça era um benefício local, um filho da terra que faria em casa o que fez em Cafarnaum. A ira só explode quando Jesus menciona uma viúva de Sarepta e um general sírio. Ou seja: o problema não foi a graça; foi a graça indo para os outros.
Faça a conta na sua própria vida. Você aceita que Deus abençoe o colega que não se esforçou tanto quanto você? A igreja do outro lado da cidade, que cresce sem sua teologia? O irmão que, depois de anos de desastre, hoje parece mais em paz do que você, que nunca saiu da linha? Existe uma fome mais difícil que a do deserto: a fome de ser o preferido. E existe uma tentação mais sutil que pedras em pão: usar a Escritura, como o diabo faz nos versículos 10 e 11, para exigir de Deus o tratamento que julgamos merecer.
Hoje, antes de dormir, escreva num papel o nome de uma pessoa que você não gostaria que Deus abençoasse mais do que a você. Em seguida, em voz alta, peça bem para ela pelo nome. Depois rasgue o papel.
O Intertexto
Isaías 61 é a fonte da leitura de Jesus, mas note o que ele faz com ela: no texto de Isaías segue-se "o dia da vingança do nosso Deus", e Jesus fecha o livro antes disso. Ele para no "anno acceitavel". A porta ainda está aberta, e quem se enfurece com isso está furioso com a paciência de Deus.
O segundo eco é Tiago 2: "Também os demônios creem e tremem." Em Lucas 4 os espíritos imundos têm a cristologia perfeita, dizem "Tu és o Christo, o Filho de Deus", e continuam perdidos. Saber quem Jesus é não é a mesma coisa que pertencer a ele. Isso desmonta qualquer segurança baseada apenas em doutrina correta.
A Pergunta
"A mim me foi entregue, e dou-o a quem quero", diz o diabo sobre os reinos do mundo, e Jesus não o contradiz. Não corrige a afirmação; recusa apenas a adoração. Isso deveria nos deixar desconfortáveis. Se os impérios estão de algum modo nas mãos do inimigo, o que fazemos com nossas ilusões sobre poder, política e influência cristã? O texto não resolve. Diz apenas que o caminho do Filho para o trono não passou pelo atalho do monte alto, mas pela cruz, e que nós, atraídos pelo mesmo atalho, chamamos isso de estratégia. Fique com o desconforto; ele é mais honesto que a resposta rápida.
O Perfil
Lucas escreve para leitores de origem gentia, gente como Teófilo, que talvez se perguntasse se realmente tinha lugar nesta história judaica. Para eles, a menção de Sarepta e de Naamã, o sírio, não era polêmica abstrata: era a certidão de nascimento da própria fé. E os primeiros ouvintes conheciam também o custo: se em Nazaré quiseram precipitar Jesus do monte por dizer isso, quem repetisse a mensagem sabia o que arriscava na própria sinagoga, na própria família, na própria rua.
Reflexão
Onde você tem esperado que Deus lhe dê tratamento especial porque você é "de casa"?
Qual das três tentações, o pão, o poder ou a prova, você reconheceu como sua ao ler este capítulo?
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Perguntas frequentes sobre Luke 4
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo." Repare onde o inimigo escolheu falar: no ponto mais alto do templo, o lugar mais santo. E repare no "se". Poucos dias antes, o céu já havia dito: "Tu és o meu Filho amado". Jesus não precisou saltar para provar nada. E você, que salto está querendo dar para que Deus prove que te ama?
Quarenta dias sem comer, e a tentação chega em forma de pão. Nada escandaloso, só comida para quem está com fome. Jesus podia, mas respondeu: "Não só de pão viverá o homem." Talvez sua prova de hoje não seja fazer algo errado, e sim resolver sozinho, na pressa, o que Deus ainda não mandou você resolver.
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