Marcos 9:39
O Texto
João acabara de confessar uma espécie de proeza: encontraram alguém expulsando demônios em nome de Jesus e o impediram, pelo simples motivo de que o homem "não nos segue". Jesus corta a lógica pela raiz: "Não lho proíbaes; porque ninguem ha que faça milagre em meu nome e possa logo fallar mal de mim." O argumento do Senhor não é sentimental nem diplomático. É uma constatação sobre o que acontece com uma pessoa quando o nome de Jesus passa por sua boca com poder: aquele nome a marca, a compromete, torna difícil que ela se volte contra ele na frase seguinte. O exorcista desconhecido fica de pé. Quem é repreendido é o discípulo do círculo íntimo.
O Cerne
Aqui se decide uma questão que atravessa toda a Escritura: a quem pertence o poder de Deus. Israel aprendeu isso desde cedo, quando o Espírito desceu sobre dois homens que nem sequer estavam na tenda, e Moisés recusou o zelo possessivo de Josué. O reino de Deus não é uma concessão administrada por um comitê; é a irrupção do próprio governo de Deus, e Deus não assina contratos de exclusividade com os que se acham mais próximos. Note que Jesus não diz que o homem está salvo, nem que doutrina é irrelevante. Diz algo mais sóbrio e mais profundo: o Nome tem eficácia própria. Onde o nome de Jesus opera com poder, ali já está agindo uma graça que ninguém de nós inventou, autorizou ou merece controlar.
O Fio Condutor
Marcos coloca esta cena num lugar que não é acidental. Poucos versículos antes, os discípulos haviam discutido "qual d'elles havia de ser o maior", e Jesus respondeu colocando uma criança no meio deles. Agora João reclama de alguém que trabalha fora do grupo. É a mesma doença em outra forma: a sede de posição, o instinto de desenhar fronteiras em torno do que é de Deus. E tudo isso acontece no caminho para Jerusalém, logo depois do anúncio de que o Filho do homem "será entregue nas mãos dos homens". O Messias que caminha para a cruz desmonta por dentro a lógica do círculo fechado, porque a cruz é precisamente o lugar onde o Nome deixa de ser propriedade de um povo e se torna oferta a todos. O que Jesus faz aqui com palavras, ele fará depois com sangue: derrubar o muro.
O Espelho
Existe um prazer sutil em vigiar as credenciais dos outros. Você sente isso quando descobre que a pessoa que mais ajuda o vizinho doente frequenta uma igreja que você considera rasa. Ou quando o colega de trabalho que fala de Jesus sem seu vocabulário consegue tocar alguém que você nunca alcançou. Ou quando um filho adulto volta à fé por um caminho que não é o seu, e algo em você fica mais incomodado do que grato. João não estava sendo cruel; estava protegendo o grupo. Esse é justamente o perigo: o zelo possessivo quase sempre se veste de fidelidade. Jesus não elogia a vigilância; desmonta-a. Hoje, escreva num papel o nome de um cristão ou de uma comunidade que você costuma criticar, e ore em voz alta pedindo que Deus abençoe o trabalho deles.
Contexto
Estamos em Cafarnaum, dentro de uma casa, depois de um dia pesado. Jesus acabara de curar o menino que os discípulos não conseguiram libertar, uma derrota pública diante dos escribas e de uma multidão. A autoridade do grupo ficou abalada. É nesse clima que João menciona o exorcista estranho: talvez com ressentimento, talvez com vergonha, porque alguém de fora fez o que eles não conseguiram fazer. No mundo judaico do primeiro século, invocar um nome poderoso para expulsar espíritos era prática conhecida, e os discípulos de um rabino formavam uma escola com fronteiras claras. Bloquear quem usava o nome do mestre sem pertencer ao círculo parecia simples disciplina. Jesus recusa a lógica da escola fechada porque ele não está fundando uma escola, mas inaugurando um reino.
O Intertexto
Dois textos iluminam este. Em Números 11, Eldade e Medade profetizam no acampamento, fora da tenda, e Josué pede a Moisés que os impeça. Moisés responde com um desejo que soa quase imprudente: que todo o povo do Senhor fosse profeta. O instinto de Josué é o de João, e a resposta de Moisés antecipa a de Jesus. O contraste vem logo depois, em Marcos 9:40: "quem não é contra nós é por nós". Noutro momento Jesus dirá o oposto, que quem não é com ele é contra ele. Não há contradição: diante de si mesmo, Jesus não admite neutralidade; diante dos outros discípulos, proíbe a suspeita. A exigência é severa para dentro e generosa para fora. Invertemos isso com assustadora facilidade.
O Protagonista
O que mais impressiona em Jesus aqui é a serenidade de quem não precisa defender o próprio nome. Ele acabou de ser frustrado pela incredulidade da geração, acabou de anunciar a própria morte, e ainda assim não demonstra nenhuma ansiedade institucional. Não pergunta quem autorizou o homem, não exige exame doutrinário, não teme a concorrência. Há nele uma confiança tranquila de que o Nome se defende sozinho: quem experimenta o poder daquele nome não consegue, logo em seguida, falar mal dele. É a liberdade de alguém que sabe quem é. E é também, se olharmos bem, misericórdia: Jesus está protegendo um estranho da censura dos seus amigos mais próximos. O pastor defende a ovelha que ainda nem sabe que pertence ao rebanho.
Reflexão
Onde, na sua vida, o zelo pela verdade já se transformou em instinto de propriedade sobre o que pertence a Deus?
Se o Nome de Jesus realmente marca quem o invoca, o que isso muda na forma como você avalia cristãos de tradições diferentes da sua?
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Perguntas frequentes sobre Mark 9:39
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O que a comunidade compartilha sobre Mark 9
Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Quando ele viu a Jesus, o espírito imediatamente o agitou com violência." Repare: o pior ataque aconteceu na presença de Jesus, não longe dele. Às vezes, chegar perto não acalma de imediato, expõe. E Jesus não recua diante da cena feia. Ele fica, pergunta, toca. O que você ainda esconde dele por achar que é demais?
Pai, chego como aquele pai cansado, com mais dúvida do que certeza. Se podes alguma coisa, tem compaixão de mim. Não consigo resolver isso sozinho, e já tentei de tudo. Ajuda-me, mesmo que minha fé seja pequena demais para caber nesse pedido.
Obrigado, Senhor Jesus, porque não fugiste do que estava escrito a Teu respeito: que padecesses muito e fosses aviltado. Escolheste o desprezo para que eu fosse acolhido. E ainda prometes restaurar todas as coisas. Meu coração descansa nisso.
Os discípulos vinham discutindo quem era o maior. Jesus não responde com argumento: "tomou uma criança, colocou-a no meio deles e, abraçando-a, disse-lhes." Ele pega no colo justamente quem não tinha voz naquela roda. E hoje, quem você colocaria no meio? Talvez a resposta diga mais de você do que qualquer discussão sobre grandeza.
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