Mateus 6:7
O Texto
Jesus continua a instruir sobre a oração, e agora o alvo não são os hipócritas das sinagogas, mas os pagãos: "E, orando, não useis palavras vãs, como os gentios, que pensam que por muito fallarem serão ouvidos." O problema não é falar muito, é o cálculo escondido dentro do falar muito: a suposição de que a quantidade de palavras funciona como moeda, que Deus cede ao acúmulo, que a oração é uma técnica de pressão. O versículo seguinte desmonta a lógica pela raiz: "vosso Pae sabe o que vos é necessario, antes de vós lh'o pedirdes." Antes de você abrir a boca, já está sabido. A oração, então, não informa Deus nem o convence. Ela é outra coisa inteiramente.
O Núcleo
Toda religião pagã do mundo antigo funcionava numa lógica de troca: você dá o suficiente, repete o nome correto o número correto de vezes, e a divindade se move. Deus como caixa registradora, oração como o valor exato. Jesus corta esse fio e coloca no lugar uma palavra que muda tudo: Pai. Não um poder distante que precisa ser acordado, mas alguém que já sabe, já se inclinou, já decidiu ser bom com você. Isso significa que a oração não é o instrumento pelo qual você consegue o favor de Deus; é o espaço onde você habita um favor que já existe. E é exatamente aqui que a coisa fica desconfortável: se Deus já sabe, então a oração deixa de ser trabalho meu e se torna confiança minha. Muita gente prefere trabalhar.
O Fio Condutor
O Deus da Bíblia nunca precisou de muitas palavras para ser movido. Ele desce ao Egito porque ouve um gemido inarticulado, não uma liturgia bem construída. Israel foi ensinado, geração após geração, que seu Deus não é como os deuses das nações: não se compra, não se manipula, não se cansa. E ainda assim Israel voltava a rezar como os vizinhos, achando que a fórmula certa arrancaria a chuva. O que Jesus faz aqui é levar essa antiga distinção até o fim, dando-lhe um nome próprio. O Filho conhece o Pai por dentro, e é ele quem nos ensina a falar com Deus não como suplicantes negociando com um estranho, mas como filhos em casa. A oração cristã existe porque Cristo já garantiu o acesso; não é a escada que subimos, é a porta que ele abriu.
O Espelho
Pense na última vez que você orou por alguém no hospital. Notou o impulso de encontrar as palavras certas, como se a formulação exata pudesse inclinar a balança? Ou a culpa depois, aquela suspeita fina de que se você tivesse orado mais, com mais insistência, mais lágrimas, talvez o resultado fosse outro. Esse é o pagão dentro de nós, e ele não é irreligioso; ao contrário, ele é devoto, disciplinado, produtivo. Ele ora meia hora e sente que fez algo por Deus. Ele repete a mesma frase quinze vezes porque no fundo desconfia que Deus não ouviu na primeira. Jesus não está proibindo persistência, está tirando de você um peso que nunca foi seu: você não é responsável por convencer o seu Pai a ser bom. Isso liberta e humilha na mesma medida, porque também significa que sua oração não é uma performance que você pode melhorar até funcionar.
Contexto
Jesus fala numa Galileia cercada de cultos gregos e romanos, onde a oração pública era espetáculo verbal. Havia orações que empilhavam títulos divinos por linhas inteiras, na esperança de acertar o nome que a divindade preferia ouvir. Havia encantamentos que só valiam se pronunciados sem erro, na ordem correta, o número certo de vezes. Quem ouvia Jesus conhecia isso de vista, nas cidades helenizadas próximas, nos templos, nos amuletos vendidos nas feiras. E conhecia também a tentação de importar aquela lógica para dentro da própria fé. O Sermão do Monte é dirigido a gente pobre, sem poder, para quem religião facilmente se torna a única alavanca disponível para mexer no destino. Jesus tira a alavanca da mão deles e coloca no lugar a palavra "Pai", que é bem menos controlável e infinitamente melhor.
O Detalhe
"Palavras vãs" traduz um verbo grego raro, battalogeo, que soa como o que descreve: um tagarelar, um balbucio repetido, palavra que se enrola sobre si mesma sem ir a lugar nenhum. O som imita o vazio. E note onde está o problema, segundo Jesus: não na boca, mas na cabeça, "que pensam que por muito fallarem serão ouvidos". A crítica é a uma teoria implícita sobre Deus. Você pode orar três frases curtas com essa teoria no coração, e é oração pagã; pode orar duas horas em lágrimas sem ela, e é oração de filho. A diferença não se mede em minutos. Ela se mede pela pergunta: estou falando com alguém que já se inclinou para mim, ou tentando fazer alguém se inclinar?
O Intertexto
O contraste mais duro está em 1 Reis 18, os profetas de Baal gritando desde a manhã até a tarde, cortando-se, subindo o volume, porque acreditavam que o deus precisava ser acordado. Elias ora algumas frases. A cena é a ilustração perfeita do que Jesus descreve aqui. E há um contrapeso necessário, porque Jesus em outro lugar elogia a viúva que insiste noite e dia diante do juiz injusto. As duas coisas não se contradizem: a viúva não repete porque duvida, ela repete porque não tem mais ninguém. Persistência que nasce de confiança é oração; persistência que nasce de desconfiança é battalogeo. O próprio Jesus, no Getsêmani, ora três vezes com as mesmas palavras. A repetição não é o pecado. A suspeita silenciosa contra o Pai é.
Reflexão
Quando você ora, o que está tentando conseguir: a resposta, ou a certeza de que fez a sua parte?
Se Deus já sabe do que você precisa antes de você pedir, o que exatamente sua oração ainda serve? Responda com honestidade, não com a resposta certa.
Aprofunde-se em Matthew
Livros selecionados a dedo que aprofundam ainda mais este livro da Bíblia.
Mateus: Introdução e Comentário
Um comentário conciso e confiável, versículo a versículo, que ajuda a entender o propósito de Mateus ao apresentar Jesus como o Messias prometido a Israel.
A Mensagem do Sermão do Monte: Contracultura Cristã
Uma exposição calorosa e desafiadora de Mateus 5–7, mostrando como é, na prática, a vida do discípulo no Reino dos céus.
Pregações profundas e pastorais sobre o coração do ensino de Jesus em Mateus 5–7, que unem doutrina sólida e exame do coração.
Faith.network earns a small commission on Kobo purchases made through these links, at no extra cost to you. It helps keep the studies free.
Perguntas frequentes sobre Matthew 6:7
Respostas rápidas às perguntas mais comuns sobre esta passagem bíblica.
O que significa Mateus 6:7?
Sobre o que fala Mateus 6:7?
Qual é o contexto histórico de Mateus 6:7?
O que Mateus 6:7 nos ensina sobre o caráter de Deus?
Como Mateus 6:7 continua relevante hoje?
O que a comunidade compartilha sobre Matthew 6
Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Repare na ordem: antes de pedir o pão de cada dia, Jesus ensina a dizer "venha o teu reino, faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu". E essa terra não é só o mundo lá fora. É a sua casa, a sua mesa, a conversa difícil de amanhã. Você consegue orar isso sabendo que a vontade dele pode desfazer a sua?
Porque Deus, o vosso Pai, sabe do que tendes necessidade, antes que lho peçais." Então por que orar? Não para informar, nem para convencer. Você ora porque precisa ouvir a própria voz dizendo em quem confia. Repare: Jesus não diz "Deus sabe", diz "o vosso Pai sabe". Isso muda o tom da oração inteira.
Explore esta passagem em outro nível
Iniciante, teólogo ou uma leitura de outro tamanho? Ajuste as configurações e gere sua própria versão.
Abrir na ferramenta de estudo