Explicação bíblica

Salmos 46

Bíblia
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O Texto

O salmo começa com uma afirmação que soa quase provocadora diante do que vem logo a seguir: Deus é refúgio e fortaleza, "soccorro bem presente na angustia". E então o poeta imagina o pior cenário possível, a terra mudando de lugar, as montanhas despencando no fundo do mar, as águas rugindo, e diz: mesmo assim, "não temeremos". No meio desse caos aparece uma cidade regada por um rio calmo, onde Deus habita e que por isso "não se abalará". As nações se enfurecem, os reinos se movem, Deus levanta a voz e a terra derrete. Ele quebra arcos, corta lanças, queima carros de guerra. E no fim vem a ordem, seca e desarmante: "Aquietae-vos, e sabei que eu sou Deus".

O Cerne

Esse salmo não promete que nada vai desmoronar. Promete que quem desmorona não é Deus, e que há um lugar onde ele está "no meio" que segue de pé. A diferença é enorme na prática. A fé que o salmo descreve não é otimismo sobre as circunstâncias, é lealdade a uma Presença enquanto as circunstâncias caem. Repare que os versos 8 e 9 não mostram Deus consolando, mostram Deus desarmando: quebrando arco, cortando lança, queimando carro. A paz bíblica não é ausência de conflito, é o fim da capacidade de fazer guerra. E o versículo 10 não é um convite a relaxar; é uma ordem de cessar-fogo dirigida a nações armadas até os dentes, e também a você, que ainda mantém o arco na mão dentro de casa.

O Fio Condutor

Há um detalhe geográfico que não fecha: Jerusalém não tem rio. Tem uma fonte modesta, o Giom, um fio de água que corria por um túnel escavado na rocha. Babilônia tinha o Eufrates, o Egito tinha o Nilo, os impérios se construíam sobre águas largas. E o salmista canta um rio "cujas correntes alegram a cidade de Deus". Ele está descrevendo algo que ainda não existe, ou que existe de um modo que os olhos não alcançam. Esse rio atravessa a Escritura inteira, do jardim do Gênesis até a cidade final. E o eixo dele é a frase que se repete duas vezes: "O Deus de Jacob é o nosso refugio", Deus conosco, Emanuel, que em Mateus 1 deixa de ser uma cidade fortificada e passa a ser um corpo humano no meio da nossa terra que se derrete.

O Espelho

"Aquietae-vos" traduz um verbo hebraico que significa, na raiz, afrouxar a mão, soltar o que se está segurando. Não é um convite ao silêncio contemplativo; é uma ordem para largar. E aqui o salmo fica incômodo, porque cada um de nós sabe exatamente o que está segurando. O e-mail que você guardou como prova contra um colega. A conversa que você ensaia no chuveiro para ganhar a discussão com seu cônjuge. A reserva financeira que deixou de ser prudência e virou fortaleza particular, seu refúgio alternativo. O silêncio que você usa em casa como arma, porque fere mais do que gritar. Deus queima carros de guerra; os nossos ficam intactos na garagem, lustrados, prontos. Hoje: escreva num papel o nome da arma que você tem usado no seu conflito mais recente, diga em voz alta "Senhor, quebra este arco", e rasgue o papel.

Contexto

O salmo vem dos filhos de Corá, cantores do templo, e respira a teologia de Sião: a convicção de que Deus escolheu habitar num monte pequeno de um reino pequeno, encravado entre impérios. "Senhor dos Exercitos" é título militar, Deus à frente de tropas. Quando o texto diz que "as nações se embraveceram" e "os reinos se moveram", o primeiro ouvinte não pensava em metáfora: pensava em carros assírios subindo pela estrada da costa, em tributos, em cercos. Judá era um estado vassalo com quase nenhum poder de barganha. Cantar que Deus faz cessar as guerras "até ao fim da terra" era, naquele contexto, uma afirmação politicamente arriscada, quase absurda, feita por gente que sabia perfeitamente quanto pesava uma lança de verdade.

A Pergunta

Se Deus faz cessar as guerras até o fim da terra, por que as guerras não cessaram? Jerusalém, que "não se abalará", foi arrasada em 586. O salmo não foi retirado do hinário depois disso; continuaram cantando. Isso já nos diz que os próprios israelitas não o liam como garantia de imunidade. A promessa é verdadeira, mas em outro tempo além do nosso, e a fé aqui consiste em cantar algo que os jornais desmentem todas as manhãs. Não há saída barata: quem chora um filho morto na guerra não recebe deste salmo uma explicação. Recebe uma Presença e uma direção. Deus está "no meio d'ella" agora; o arco quebrado ainda está a caminho. Entre as duas coisas, vivemos.

O Personagem Principal

O Deus deste salmo é surpreendentemente físico. Ele levanta a voz e a terra derrete, como cera perto de fogo. Ele parte madeira e metal com as mãos. Nada nele é sereno, exceto o lugar onde ele mora, e é essa combinação que desconcerta: violência contra os instrumentos de violência, para que sobre um rio quieto. Note também o horário: "Deus a ajudará ao romper da manhã", a hora clássica dos ataques militares, a hora em que os cercos se decidiam. Ele não chega cedo demais para poupar a noite de angústia, e não chega tarde. E o seu último gesto não é um golpe, é uma palavra dirigida a todos, agressores e agredidos: parem, soltem, saibam quem eu sou.

Reflexão

Qual arma você mantém carregada em casa, no trabalho ou no seu silêncio, e o que aconteceria concretamente se Deus a quebrasse esta semana?

Você consegue nomear uma ocasião em que Deus chegou "ao romper da manhã", tarde demais para o seu gosto, mas não tarde demais de fato?

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Perguntas frequentes sobre Psalms 46

Respostas rápidas às perguntas mais comuns sobre esta passagem bíblica.

O que significa Salmos 46?
O salmo começa com uma afirmação que soa quase provocadora diante do que vem logo a seguir: Deus é refúgio e fortaleza, "soccorro bem presente na angustia". E então o poeta imagina o pior cenário possível, a terra mudando de lugar, as montanhas despencando no fundo do mar, as águas rugindo, e diz: mesmo assim, "não temeremos".
Sobre o que fala Salmos 46?
Há um detalhe geográfico que não fecha: Jerusalém não tem rio. Tem uma fonte modesta, o Giom, um fio de água que corria por um túnel escavado na rocha. Babilônia tinha o Eufrates, o Egito tinha o Nilo, os impérios se construíam sobre águas largas. E o salmista canta um rio "cujas correntes alegram a cidade de Deus".
Qual é o contexto histórico de Salmos 46?
O salmo vem dos filhos de Corá, cantores do templo, e respira a teologia de Sião: a convicção de que Deus escolheu habitar num monte pequeno de um reino pequeno, encravado entre impérios. "Senhor dos Exercitos" é título militar, Deus à frente de tropas.
O que Salmos 46 nos ensina sobre o caráter de Deus?
O Deus deste salmo é surpreendentemente físico. Ele levanta a voz e a terra derrete, como cera perto de fogo. Ele parte madeira e metal com as mãos. Nada nele é sereno, exceto o lugar onde ele mora, e é essa combinação que desconcerta: violência contra os instrumentos de violência, para que sobre um rio quieto.
Como Salmos 46 continua relevante hoje?
Você consegue nomear uma ocasião em que Deus chegou "ao romper da manhã", tarde demais para o seu gosto, mas não tarde demais de fato?

O que lhe toca em Psalms 46?

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