Apocalipse 2:9
O Texto
A Cristo ressuscitado, aquele "que foi morto, e reviveu", dirige-se à pequena comunidade de Esmirna com uma frase que abre todas as sete cartas: "Eu sei". Ele sabe da tribulação, sabe da pobreza, e no meio da frase abre um parêntese que muda tudo: "porém tu és rico". E sabe também da calúnia que vem de gente que se diz judia e que ele chama, sem suavizar, "a synagoga de Satanás". Nenhuma repreensão a Esmirna. Nenhuma exigência. Apenas o reconhecimento de um sofrimento que ninguém mais parecia registrar.
O Cerne
Aquele parêntese é o coração do versículo. O Senhor não diz "vais ficar rico" nem "a tua pobreza tem um sentido oculto". Diz: tu és rico. Presente do indicativo. A palavra grega usada para pobreza aqui, ptōcheia, não descreve quem vive apertado, mas quem mendiga, quem não tem nada. E é exatamente sobre esse nada que Cristo escreve a palavra riqueza. Não como consolo poético, mas como afirmação de fato, porque é ele quem define o real. Fica-se com uma pergunta que não se resolve depressa: se a avaliação de Cristo é a verdadeira, o que estamos realmente vendo quando olhamos para a nossa própria vida e a julgamos escassa?
O Fio Condutor
Repare em quem fala. A carta começa identificando-o como aquele que morreu e voltou a viver. Só depois vem "Eu sei as tuas obras, e tribulação, e pobreza". A ordem importa. Quem conhece a miséria de Esmirna é alguém que esteve mais fundo, que conheceu a pobreza absoluta da cruz e de lá saiu vivo. A riqueza que ele declara não é um truque de perspectiva; é a riqueza que ele mesmo conquistou passando pela morte. Toda a história bíblica caminha nessa direção estranha: Deus escolhe o povo mais pequeno, o filho mais novo, o servo sem beleza. Esmirna está dentro desse fio. E o fio termina numa coroa, não numa compensação.
O Espelho
Há uma contabilidade silenciosa que quase todos fazemos. O salário que não acompanha o dos colegas, a casa que não se conseguiu comprar, o corpo que já não responde, o filho que se afastou, o cargo que passou ao lado. Somamos, e a conta dá pobreza. O que este versículo faz não é negar a conta. Cristo não diz a Esmirna que ela se engana sobre a sua miséria; ele reconhece-a antes de a reinterpretar. Mas coloca ao lado da nossa soma uma outra, feita por quem vê tudo. E deixa-nos com o desconforto de não sentirmos a riqueza que ele afirma. Talvez seja aí, precisamente nessa distância entre o que sentimos e o que ele declara, que a fé aprende a respirar.
O Perfil
Esmirna era uma cidade bonita, orgulhosa, leal a Roma desde cedo, com templo dedicado ao imperador. Ser cristão ali significava ficar de fora: fora das guildas de artesãos que tinham os seus deuses e os seus banquetes, fora dos círculos de comércio, fora da proteção legal que a comunidade judaica desfrutava por antiga concessão imperial. Daí a violência da expressão sobre "os que se dizem judeos, e o não são". Havia denúncias, havia línguas que entregavam nomes às autoridades. A pobreza de Esmirna não era acaso económico; era o preço direto da confissão. Quando ouviram ler "porém tu és rico", ouviram alguém dizer que a fatura tinha sido registada no céu.
A Pergunta
E a frase dura? "A synagoga de Satanás" atravessou séculos como arma, e é honesto admitir que fez sangue. Precisamos de a ler com cuidado: quem escreve é judeu, num contexto de conflito interno, e o que está em causa não é a etnia mas a identidade diante de Deus. Ainda assim, o texto não fica confortável, e não devemos torná-lo confortável. Talvez a única maneira honesta de o ler seja esta: se a acusação foi dirigida a quem tinha o nome certo e a prática errada, então ela aponta primeiro para nós, que nos dizemos igreja. Deixo a pergunta aberta, porque o texto também a deixa.
O Intertexto
Há um eco de Paulo, em 2 Coríntios 6, onde ele se descreve como pobre mas enriquecendo muitos, sem nada e possuindo tudo. Não é retórica bonita; é a mesma contabilidade invertida que Cristo aplica a Esmirna. E há um contraste dentro do próprio Apocalipse: à igreja de Laodiceia, mais adiante, será dito exatamente o oposto, que se julga rica e é miserável. As duas cartas funcionam como espelhos voltados um para o outro. Entre a igreja que não sabe que é rica e a igreja que não sabe que é pobre, resta perguntar em qual das duas estamos sentados esta manhã.
Reflexão
Se Cristo escrevesse hoje uma carta à minha comunidade, começando por "Eu sei", o que ele saberia que ninguém mais vê?
Onde é que a minha contabilidade sobre a minha própria vida discorda da avaliação dele, e o que faço com essa discordância?
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Senhor, tu conheces o que ninguém vê em mim, os motivos escondidos por trás do que faço. Não quero aparentar uma fé que não vivo. Sonda o meu coração e me ajuda a andar com verdade, sabendo que cada escolha minha importa diante de ti.
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