Apocalipse 9:11
O Texto
No fim do enxame que sobe do abismo, quando já vimos as asas de ferro, os dentes de leão e os ferrões nas caudas, João acrescenta uma informação quase lateral, e por isso mesmo arrepiante: aquelas criaturas não andam soltas. "E tinham sobre si um rei, o anjo do abysmo." O horror é organizado. Tem hierarquia, tem comando, tem um trono em algum lugar na fumaça. E esse rei recebe nome, duas vezes, em duas línguas: Abaddon em hebreu, Apollyon em grego. Ambos querem dizer a mesma coisa, e o texto não a explica. Ele apenas nomeia, como se nomear já fosse suficiente para que o leitor entendesse com que espécie de poder está lidando.
O Coração
Repare no que o texto faz e no que ele se recusa a fazer. Ele dá nome ao destruidor, mas não lhe dá autonomia. Em todo o capítulo, os verbos decisivos estão na voz passiva: "foi-lhe dada a chave", "foi-lhes dado poder", "foi-lhes dito". Dado por quem? O texto não diz, e esse silêncio é teologia. Nem o rei do abismo abre a própria porta. Ele reina sobre gafanhotos que receberam limites: cinco meses, não matar, não tocar na erva. Aqui está o coração incômodo desta visão: o mal é real, tem nome e tem rosto, e ainda assim opera dentro de uma permissão que não é sua. Deus não é nomeado nestas linhas, e mesmo assim é ele quem segura a coleira.
O Fio Condutor
Um detalhe do capítulo ilumina toda a Escritura: os gafanhotos só podem ferir "os homens que não teem nas suas testas o signal de Deus". Quem leu o Êxodo reconhece a cena. Naquela noite no Egito, o destruidor passou pelas ruas e não entrou onde havia sangue na porta. O padrão se repete aqui, transposto da porta para a testa, e adiante em Apocalipse será o Cordeiro quem marca os seus. O destruidor existe; nunca é ele quem decide onde para. E há uma ironia que atravessa toda a Bíblia: aquele cujo nome é Destruição encontra seu limite num Cordeiro que se deixou destruir. O sinal na fronte é, no fim, uma cicatriz emprestada.
O Espelho
Há sofrimentos que matam e há sofrimentos que apenas moem. O texto descreve os segundos: cinco meses de tormento, sem morte, ao ponto de os homens desejarem morrer e a morte fugir deles. É a dor crônica que nenhum exame explica. É o casamento que não termina e não cura. É a dívida que não afunda de vez, só corrói. É a insônia das três da manhã, quando o inimigo parece ter nome, rosto e autoridade sobre a sua casa. E é justamente aí que este versículo trabalha: o poder que te atormenta tem um rei, mas esse rei tem hora marcada. Cinco meses, não cinco séculos. Escreva hoje, num papel, o nome daquilo que te atormenta, e ao lado escreva "cinco meses"; depois leia em voz alta, em oração, e guarde o papel onde você o veja amanhã.
Contexto
João escreve a igrejas pequenas espalhadas pela Ásia Menor, comunidades que viviam sob a sombra longa de Roma e de seus cultos. Em algumas dessas cidades, Apolo era o deus patrono, e o gafanhoto figurava entre seus emblemas: divindade da luz, da profecia, da cura. Chamar o rei do abismo de Apollyon, num grego que soa como o nome do deus, é um golpe calculado. O deus que a cidade celebra no templo aparece na visão como comandante de uma praga. Para leitores judeus, o nome hebreu Abaddon dizia outra coisa, mas igualmente clara: perdição. A visão desmascara o poder que se apresentava como civilização e o devolve ao seu nome verdadeiro.
O Intertexto
Nos livros de sabedoria do Antigo Testamento, Abadom é um lugar, não alguém: aparece ao lado do Sheol, a região da perdição, o fundo de onde não se volta, e Jó afirma que nem esse abismo está oculto diante de Deus. Aqui, em Apocalipse, o lugar ganhou rosto e coroa. A destruição deixou de ser geografia e passou a ser pessoa, com exército e estratégia. Do outro lado do Novo Testamento, ouve-se a antítese em João 10: o ladrão vem para roubar, matar e destruir; aquele que fala vem para que haja vida em abundância. Duas vocações, duas coroas. O texto nos pergunta, sem retórica, sob qual rei nossos dias estão realmente organizados.
O Detalhe
Por que dois nomes? João poderia ter dito apenas um. Ele dá o hebreu e o grego, como se quisesse que ninguém pudesse alegar que aquilo se passa em outra língua, em outra cultura, longe de casa. Mas repare no que os dois nomes têm em comum: nenhum deles é propriamente um nome. São descrições de função. Destruição, Destruidor. Esse rei não tem identidade fora daquilo que faz; é oco por dentro, puro ato de desfazer. Enquanto o Deus da Bíblia se apresenta pelo que é e sustenta o que existe, o senhor do abismo só pode se apresentar pelo que aniquila. Há algo quase triste nisso, e algo profundamente esperançoso: o que só sabe destruir acaba, necessariamente, chegando ao fim de si mesmo.
Reflexão
Onde, na sua vida, você tem atribuído ao mal uma autoridade maior do que a permissão que ele de fato recebeu?
Se aquele rei não tem nome além do que faz, que nome as suas semanas revelariam a seu respeito?
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Apocalipse: Introdução e Comentário
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Perguntas frequentes sobre Revelation 9:11
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
nem se arrependeram dos seus homicídios, nem das suas feitiçarias, nem da sua prostituição, nem dos seus furtos." Quatro vezes "nem". A dor passou por aquela gente e não abriu nada. Sofrimento sozinho não converte ninguém, apenas revela o que já decidimos segurar. Pensa naquilo que você carrega há anos e já começou a chamar de normal.
Senhor, há portas que se abrem e deixam escapar coisas que me assustam, dentro e fora de mim. Lembra-me que nenhuma chave escapa das tuas mãos, que nada é solto sem que tu saibas. Guarda meu coração quando o escuro parecer maior do que eu.
Pai, é assustador perceber como o coração se apega ao que não vê, não ouve, não salva. Quebra em mim o que construí com as próprias mãos e passei a servir. Dá-me um coração que ainda se dobra, que ainda muda, que ainda volta para ti hoje.
Repara no detalhe: "sobre a cabeça tinham como que coroas parecendo de ouro". Parecendo. Não eram. O mal raramente chega anunciando ruína. Vem coroado, com rosto de gente, com um brilho que imita o que é precioso. Pergunta a ti mesmo hoje: o que na tua vida só parece ouro?
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