Explicação bíblica

Romanos 1:28

Bíblia

O Texto

Paulo chega ao fundo de uma espiral que vem descrevendo desde o versículo 21: pessoas que conheceram algo de Deus pela criação e decidiram que esse conhecimento não valia a pena guardar. Aqui ele resume o desfecho: "como elles se não importaram de reconhecer a Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não conveem". A frase tem a forma de uma balança. De um lado, a recusa humana em considerar Deus digno de atenção; do outro, a resposta divina, que não é um raio do céu mas algo bem mais silencioso: Deus solta as rédeas. A mente que rejeitou o Criador é entregue a si mesma, e o resultado aparece na conduta, na longa lista de fealdades que Paulo despeja nos versículos seguintes.

O Cerne

A palavra grega por trás de "não se importaram" é a mesma raiz de "perverso": as pessoas não aprovaram Deus no exame, e Deus as entrega a uma mente reprovada. Era vocabulário de banca de câmbio e de oficina de ourives, familiar a qualquer um que andasse pelas ruas de Roma: você mordia a moeda, pesava, testava o metal, e se não passasse no teste era descartada como falsa. Paulo diz que a humanidade colocou Deus na balança e o julgou moeda sem valor. A ira de Deus, aqui, não é explosão de temperamento. É a decisão terrível de respeitar a escolha: você não me quer no seu raciocínio, então raciocine sozinho. O castigo não vem depois do pecado; o castigo é o pecado deixado solto.

O Fio Condutor

Guarde o verbo "entregou". Paulo o repete três vezes neste capítulo, como um martelo, e depois o deixa cair por um tempo, até que ele reaparece no coração da carta com o sujeito invertido: Deus entrega o próprio Filho por causa das nossas transgressões. É a mesma palavra. A humanidade é entregue às suas ruínas; Cristo é entregue às nossas. O que em Romanos 1 é sentença passa a ser substituição. Por isso Paulo pôde escrever, poucas linhas antes, que não se envergonha do evangelho, "pois é o poder de Deus para salvação a todo aquelle que crê". Sem o versículo 28, essa frase é otimismo religioso. Com ele, é notícia de resgate: alguém teve de ser entregue no lugar dos entregues.

O Espelho

O perigo deste texto é lê-lo como retrato dos outros. Mas repare no mecanismo: não começa com um crime, começa com uma desatenção. Não se importaram de reconhecer a Deus. É exatamente o que acontece quando você monta a planilha do mês, decide sobre a mudança de emprego, escolhe as palavras que vai usar com seu filho adolescente, e Deus simplesmente não entra na conta. Não por rebeldia declarada; por irrelevância prática. Você continua orando de manhã e pensando à tarde como se Deus não existisse. E o que se atrofia não é o comportamento primeiro, é o discernimento: aos poucos você deixa de perceber que aquilo não convém. Hoje, faça isto: pegue a decisão concreta que está pesando em você esta semana, escreva-a numa folha, e diga em voz alta a Deus que você ainda não o consultou sobre ela. Depois pergunte.

A Pergunta

Existe um ponto sem volta? O texto sugere um movimento de mão única: recusa, entrega, degeneração, e no versículo 32 até o aplauso para quem faz o mesmo. Paulo não abre uma porta de saída aqui, e seria desonesto fabricar uma. Mas há um fato incômodo do outro lado: essa carta chega às mãos de pessoas que vieram exatamente desse mundo, e algumas dessas coisas constavam do currículo delas. O endurecimento é real e o evangelho o interrompeu. As duas afirmações permanecem lado a lado sem se dissolverem uma na outra. O que não podemos dizer é que a entrega seja leve, ou reversível por vontade própria. Quem foi entregue à própria mente não tem como usar essa mente para se resgatar.

O Detalhe

"Coisas que não conveem" soa vago em português, quase educado. No grego é uma expressão técnica, kathēkonta, o vocabulário dos filósofos estoicos para os deveres apropriados a um ser racional: o que convém a um pai, a um cidadão, a um homem que vive segundo a natureza. Era linguagem de gente culta, dos manuais de ética que circulavam entre a elite romana. Paulo pega o termo predileto dos moralistas e o vira do avesso. Vocês, que sabem tão bem definir o que convém, tornaram-se incapazes de fazê-lo, porque a faculdade que julga é justamente a que foi entregue. A crítica não vem de fora da cultura; vem por dentro, usando as palavras dela.

O Perfil

Imagine ouvir isto num apartamento apertado de Trastevere, cheiro de peixe e de fumaça de lamparina, vinte ou trinta pessoas: judeus voltando do exílio decretado por Cláudio, escravos da casa imperial, artesãos gregos. Lá fora, estátuas em cada esquina, altares fumegando, o imperador chamado filho de deus. Ao ouvirem a lista, os judeus da sala provavelmente assentiram: é isso mesmo, é assim que são os gentios. Os convertidos do paganismo baixaram os olhos, porque reconheceram as próprias festas. E todos entenderam o risco político da frase: dizer que a mente do mundo civilizado, o mundo que administrava impérios e escrevia tratados sobre a virtude, era uma mente reprovada, era falar mal da cidade em que se estava. Paulo escreve isso e ainda diz que quer visitá-los.

Reflexão

Em que decisão recente você percebeu, olhando para trás, que Deus simplesmente não entrou na sua conta?

Se o castigo pode ser o próprio pecado deixado solto, o que na sua vida já não incomoda como incomodava antes?

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Perguntas frequentes sobre Romans 1:28

Respostas rápidas às perguntas mais comuns sobre esta passagem bíblica.

O que significa Romanos 1:28?
Paulo chega ao fundo de uma espiral que vem descrevendo desde o versículo 21: pessoas que conheceram algo de Deus pela criação e decidiram que esse conhecimento não valia a pena guardar. Aqui ele resume o desfecho: "como elles se não importaram de reconhecer a Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não conveem".
Sobre o que fala Romanos 1:28?
A palavra grega por trás de "não se importaram" é a mesma raiz de "perverso": as pessoas não aprovaram Deus no exame, e Deus as entrega a uma mente reprovada. Era vocabulário de banca de câmbio e de oficina de ourives, familiar a qualquer um que andasse pelas ruas de Roma: você mordia a moeda, pesava, testava o metal, e se não passasse no teste era descartada como falsa.
Qual é o contexto histórico de Romanos 1:28?
Guarde o verbo "entregou". Paulo o repete três vezes neste capítulo, como um martelo, e depois o deixa cair por um tempo, até que ele reaparece no coração da carta com o sujeito invertido: Deus entrega o próprio Filho por causa das nossas transgressões. É a mesma palavra.
O que Romanos 1:28 nos ensina sobre o caráter de Deus?
O perigo deste texto é lê-lo como retrato dos outros. Mas repare no mecanismo: não começa com um crime, começa com uma desatenção. Não se importaram de reconhecer a Deus. É exatamente o que acontece quando você monta a planilha do mês, decide sobre a mudança de emprego, escolhe as palavras que vai usar com seu filho adolescente, e Deus simplesmente não entra na conta.
Como Romanos 1:28 continua relevante hoje?
Existe um ponto sem volta? O texto sugere um movimento de mão única: recusa, entrega, degeneração, e no versículo 32 até o aplauso para quem faz o mesmo. Paulo não abre uma porta de saída aqui, e seria desonesto fabricar uma. Mas há um fato incômodo do outro lado: essa carta chega às mãos de pessoas que vieram exatamente desse mundo, e algumas dessas coisas constavam do currículo delas.
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.

Oração Editorial em versículo 20

Pai, tudo o que criaste fala de ti, e às vezes eu passo por isso sem perceber. Abre meus olhos para o que já está diante deles: o céu, a luz, o fôlego que me sustenta. Que eu reconheça tua mão e não finja que não vi.

Oração Editorial em versículo 5

Pai, tudo o que tenho começou como presente teu: a graça que me alcançou e o chamado que não mereci. Ajuda-me a responder com uma confiança que vira obediência no dia a dia, não pelo meu nome, mas pelo teu, entre as pessoas que colocas no meu caminho.

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