Romanos 6:11
O Texto
Paulo termina um argumento denso com uma ordem curta e cortante: considerem-se mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus. Não é um conselho, nem uma sugestão espiritual. É uma conclusão lógica do que veio antes: se Cristo morreu de uma vez para o pecado e agora vive para Deus, o mesmo vale para quem está unido a ele pelo batismo. O verbo central, "considerae-vos", é uma palavra de contabilidade, quase administrativa: façam as contas, reconheçam o que já é verdade sobre vocês.
O Cerne
Aqui está o coração escondido de toda a vida cristã, e é mais estranho do que parece à primeira vista. Paulo não diz "tentem morrer para o pecado" nem "esforcem-se para viver para Deus". Ele diz: considerem-se. Reconheçam uma realidade que já foi estabelecida em Cristo. O evangelho, neste versículo, não é primeiramente algo que fazemos, mas algo que aprendemos a ver. Existe uma distância entre o que já é verdade sobre quem está em Cristo e o que essa pessoa sente ou vive no dia a dia, e Paulo ensina a atravessar essa distância pela fé, não pela força. O pecado ainda bate à porta, mas perdeu a autoridade legal de entrar. Você não obedece mais a um dono; obedece, se obedece, a um fantasma sem direitos.
O Fio Condutor
Este versículo só faz sentido dentro de um arco maior. Desde Gênesis, a história bíblica é a de uma humanidade escravizada por um poder que ela mesma convidou para dentro de casa. A Lei, dada a Israel, expôs a escravidão sem quebrá-la. Então veio Cristo, que fez o que nenhum sacrifício animal jamais pôde fazer: morreu de uma vez, definitivamente, "de uma vez morreu para o peccado", como Paulo diz no versículo anterior. O que era impossível para o velho Israel, morrer para o pecado e viver para Deus, tornou-se realidade em uma pessoa concreta. E agora, por união com essa pessoa, esse status novo é transferido para os que estão nele. O versículo 11 é onde o grande drama da redenção chega ao endereço pessoal do leitor.
O Espelho
Então olhe para si mesmo por um momento. O que ainda te governa como se tivesse direito? Aquele hábito que você chama de "meu jeito de ser". Aquela raiva que você defende como justa contra uma pessoa específica no trabalho. Aquele olhar que desliza pela tela do celular tarde da noite, quando ninguém vê. Aquela inveja que você mascara de admiração. Aquele medo do que os outros pensam, que ainda dita metade das suas decisões. Paulo não te chama para lutar mais duro contra essas coisas primeiro. Ele te chama para uma operação anterior: pare de tratá-las como donas. Elas mentem sobre quem você é. Elas dizem "você sempre será assim", e você acredita, e obedece por hábito a alguém que já foi legalmente destituído.
O que dói neste versículo é justamente que ele nos tira a desculpa da identidade. Não podemos mais dizer "eu sou assim". Em Cristo, você não é assim. Você é morto para aquilo e vivo para Deus. Ainda que não sinta.
Faça isto hoje: escolha um pecado específico que você tem tratado como parte de você, dê-lhe um nome em voz alta, e diga também em voz alta: "estou morto para isso, e vivo para Deus em Cristo Jesus". Não como fórmula mágica, mas como contabilidade honesta diante de Deus.
O Detalhe
O verbo "considerae-vos" merece atenção. No grego é um termo do mundo dos livros contábeis, "logizomai", contar, calcular, lançar na coluna certa. Paulo usa o mesmo verbo em Romanos 4 quando fala da fé de Abraão sendo "imputada" como justiça. Não é imaginação, nem autossugestão. É reconhecer o registro que Deus já fez. Você não está criando uma realidade ao considerar-se morto para o pecado; está lendo em voz alta o que já foi escrito no livro-caixa do céu. Isso muda tudo na aplicação. Não estamos fingindo até acreditar. Estamos aprendendo a ver o que é. E ver o que é, com o tempo, molda o que vivemos.
O Intertexto
Duas passagens ecoam aqui de modo iluminador. Gálatas 2:20, onde Paulo diz "já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim", é o mesmo pensamento em primeira pessoa, com a mesma estranheza: uma morte que produz vida. E Colossenses 3:3, "porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus", acrescenta o adjetivo importante: escondida. É por isso que Paulo precisa mandar considerar. A nova vida não está sempre visível, nem mesmo para nós mesmos. Ela está escondida em Cristo, e a fé é o órgão que enxerga o escondido. Sem esse ver de fé, cairemos de volta na velha contabilidade, tratando pecados destronados como se ainda governassem.
O Personagem Principal
O centro deste versículo, no fim das contas, não é você. É Cristo Jesus, mencionado como o lugar onde tudo isso acontece: "em Cristo Jesus nosso Senhor". Ele é quem morreu de uma vez, ele é quem vive para Deus, e é dentro dele que a nova aritmética se aplica a nós. Isso importa porque nos tira do centro de nossa própria transformação. Não somos nós que precisamos gerar essa morte nem essa vida por esforço espiritual. Cristo já as viveu, e nós somos incorporados nele. O Senhor deste versículo é ativo; nós somos, em certo sentido, participantes por união. Paulo não te chama para ser Cristo; ele te chama para reconhecer que você está nele. Toda a energia da santificação começa aí, não no seu vigor moral, mas na sua união com um Cristo ressuscitado que não morre mais.
Reflexão
Onde, especificamente, você ainda vive como se o pecado tivesse autoridade legal sobre você, apesar de saber que Cristo o destronou?
O que muda na sua oração de hoje se você começar não pedindo força para lutar, mas reconhecendo diante de Deus quem você já é em Cristo?
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor." Repare na diferença: salário é o que você ganha, o que lhe é devido no fim do mês. Dom é o que ninguém merece. O pecado sempre paga direitinho. Deus não paga, Ele dá. E o que Ele dá custou o Filho.
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