O Livro de Apocalipse: Guia Completo e Explicação
Introdução
Existe um tipo de Bíblia muito comum nas prateleiras brasileiras: gasta nos Salmos, marcada em João, sublinhada em Filipenses, e praticamente nova nas últimas vinte e duas páginas. As folhas do Apocalipse ainda estão limpas, quase grudadas uma na outra. Não é por falta de interesse. É por medo, ou por cansaço de tanto ouvir alguém encaixar manchetes de jornal em taças e trombetas, e depois errar a data.
Mas as primeiras pessoas a ouvirem este livro não estavam com medo dele. Estavam com medo do império. Elas se reuniam em casas emprestadas, em cidades da Ásia Menor onde negar a divindade de César custava emprego, reputação e, às vezes, a vida. E alguém se levantou e leu em voz alta uma carta vinda de uma ilha de exílio, escrita por um velho pastor que via, no meio do trono, um Cordeiro.
Aqui você vai entender quem escreveu o Apocalipse, quando, para quem, como o livro é montado, o que significam seus símbolos mais discutidos e, principalmente, como lê-lo sem se perder nem se assustar.
A perspectiva deste guia
Este guia lê o Apocalipse pelo que ele é: uma carta pastoral escrita para ser lida em voz alta no culto de igrejas ameaçadas. Isso muda tudo. A pergunta que o livro responde não é "quando isso vai acontecer?", mas "quem está no trono agora, enquanto meu mundo desmorona?". O Apocalipse não foi dado para transformar cristãos em decifradores de códigos, mas em testemunhas fiéis que adoram no meio da pressão. Por isso, ao longo destas seções, voltaremos sempre ao mesmo eixo: cada visão existe para reposicionar quem escuta, arrancando os olhos das ameaças visíveis e fixando-os no Cordeiro que já venceu.
O que a Bíblia diz sobre o livro de Apocalipse?
O próprio livro se apresenta na primeira linha, e essa apresentação é a chave de leitura mais importante que existe: "Revelação de Jesus Cristo, a qual Deus lhe deu para mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer e que ele, enviando por intermédio do seu anjo, notificou ao seu servo João" (Apocalipse 1:1). A palavra grega traduzida por "revelação" é apokalypsis, que significa desvelamento, retirada do véu. O título do livro, portanto, não é "catástrofe"; é "desocultamento". E o que é desocultado, antes de qualquer coisa, é uma pessoa: Jesus Cristo. Ele é o conteúdo da revelação e também sua fonte.
Note ainda a expressão "aos seus servos". Este livro não foi endereçado a especialistas em profecia, mas a servos comuns, gente que precisava de coragem para a próxima semana. E há uma bênção prometida a quem simplesmente lê e ouve: "Bem-aventurado aquele que lê e aqueles que ouvem as palavras da profecia e guardam as coisas nela escritas, pois o tempo está próximo" (Apocalipse 1:3). É a única bênção desse tipo em toda a Bíblia ligada à leitura de um livro específico. Perceba o verbo final: guardam. O Apocalipse pede obediência, não decodificação.
O livro se autodenomina de três maneiras, e todas importam. É revelação (apocalipse), é profecia (Apocalipse 1:3; 22:18) e é carta, com remetente, destinatários nomeados, saudação de graça e paz e despedida final (Apocalipse 1:4-5). Essa terceira identidade é a mais esquecida. Sete igrejas reais receberam este texto: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia. Havia nomes, conflitos internos, falsos mestres, cristãos empobrecidos e cristãos acomodados.
É justamente numa dessas cartas que aparece um dos versículos mais amados de toda a Bíblia: "Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo" (Apocalipse 3:20). Costumamos usar essa frase em convites evangelísticos, e há verdade nisso, mas o endereço original era uma igreja: Laodiceia, morna, rica em conta bancária e miserável em comunhão. Cristo está do lado de fora da porta da sua própria igreja, batendo. Não arrombando. Batendo. Essa é a ternura escandalosa do Apocalipse: o Rei que vem com espada na boca é o mesmo que espera na soleira para jantar com quem abrir.
E o livro termina com um diálogo. Jesus fala, e a igreja responde: "Aquele que testifica estas coisas diz: Certamente, venho sem demora. Amém! Vem, Senhor Jesus!" (Apocalipse 22:20). O Apocalipse não se encerra com um mapa nem com uma cronologia. Encerra-se com uma oração de saudade. Se a sua leitura do livro não produz em você esse "Vem, Senhor Jesus", provavelmente você está lendo com as perguntas erradas.
O Apocalipse não decora o futuro; ele desvela o presente.
O fio condutor que atravessa a Bíblia
O Apocalipse é o livro mais bíblico da Bíblia. Não há uma única citação formal do Antigo Testamento nele, e ao mesmo tempo há centenas de alusões: os estudiosos contam entre trezentas e quinhentas referências, dependendo do critério. João não cita; ele pensa em linguagem de Escritura. Quem chega ao Apocalipse depois de ler Gênesis, Êxodo, Salmos, Isaías, Ezequiel, Daniel e Zacarias reconhece quase tudo. Quem chega direto, sente-se num país estrangeiro.
Comece pelo início. A Bíblia abre com um jardim, uma árvore da vida, um rio e a presença de Deus com o homem. Depois vem a serpente, a expulsão, a espada guardando o caminho. O Apocalipse fecha exatamente ali: a serpente é finalmente identificada e derrotada (Apocalipse 12:9; 20:2), o rio volta a correr, a árvore da vida reaparece dando folhas para a cura das nações, e a presença de Deus habita definitivamente entre os homens. A história bíblica não é um círculo que retorna ao Éden; é uma espiral que termina melhor, num jardim que se tornou cidade.
Depois vem o Êxodo. As pragas do Egito reaparecem nas trombetas e nas taças: sangue, trevas, gafanhotos, feridas. O cântico dos redimidos é chamado "cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro" (Apocalipse 15:3). O Faraó do Apocalipse é Roma, e todo império que se ergue como deus depois dela. E o Cordeiro pascal, cujo sangue marcava as portas para que a morte passasse por cima, agora está de pé no meio do trono.
De Daniel vem a estrutura das visões: as bestas que sobem do mar, os chifres, os tempos e a metade de um tempo, os livros abertos no julgamento e, sobretudo, aquele "como o Filho do Homem" que vem com as nuvens do céu para receber um reino que não passará (Daniel 7:13-14). De Ezequiel vêm os seres viventes, o rolo que se come, a medição do templo, os ossos e a cidade nova. De Isaías vem a promessa de "novos céus e nova terra" que João retoma quase palavra por palavra.
E tudo isso converge para uma única cena, no capítulo 5, que é o coração teológico do livro. João chora porque ninguém é digno de abrir o livro selado, ou seja, ninguém é capaz de conduzir a história ao seu propósito. Então lhe dizem que o Leão da tribo de Judá venceu. Ele se vira para ver o Leão e vê um Cordeiro que tem marcas de ter sido morto. O trono do universo é ocupado por um Cordeiro degolado. Aquela é a resposta cristã à pergunta sobre quem governa a história: não o poder que esmaga, mas o amor que se entrega e ressuscita. Todo o Antigo Testamento afunila nesse ponto, e todo o restante do Apocalipse é o desdobramento dele.
Estrutura e temas principais
João se identifica quatro vezes pelo nome (Apocalipse 1:1, 1:4, 1:9, 22:8) e escreve como alguém bem conhecido daquelas igrejas, sem precisar de credenciais. A tradição cristã antiga, com Justino Mártir e Irineu no segundo século, o identifica como o apóstolo João, filho de Zebedeu. Ele mesmo conta onde estava: "Eu, João, irmão vosso e companheiro na tribulação, no reino e na perseverança, em Jesus, achei-me na ilha chamada Patmos, por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus" (Apocalipse 1:9). Patmos era uma ilha rochosa no mar Egeu, usada pelos romanos para exílio. A data mais aceita é por volta de 95 d.C., no fim do reinado de Domiciano, quando a exigência de honras divinas ao imperador apertou a vida das igrejas da Ásia; alguns propõem os anos 60, sob Nero. Em qualquer das datas, o cenário é o mesmo: pressão imperial, culto ao poder, cristãos precisando decidir se vão queimar um punhado de incenso para César a fim de manter o negócio aberto.
A arquitetura do livro segue séries de sete. Depois do prólogo e da visão do Filho do Homem entre os candeeiros (capítulo 1), vêm as sete cartas às igrejas (capítulos 2 e 3), a visão do trono e do Cordeiro (4 e 5), os sete selos (6 até 8:1), as sete trombetas (8 até 11), o grande interlúdio dos sinais, com a mulher, o dragão e as duas bestas (12 até 14), as sete taças (15 e 16), a queda da Babilônia (17 até 19:10), a vinda do Rei, o milênio e o juízo final (19:11 até 20:15), a nova criação (21 até 22:5) e o epílogo com as últimas palavras de Jesus (22:6-21).
Um detalhe salva muitas leituras: essas séries provavelmente não são estritamente cronológicas. Selos, trombetas e taças terminam todas no mesmo ponto, o juízo final, e depois recomeçam de outro ângulo, com intensidade crescente. É como assistir ao mesmo período visto de três câmeras diferentes. Chamamos isso de recapitulação, e ela explica por que o "fim" parece chegar várias vezes antes do capítulo 21.
Quanto aos temas, quatro sustentam o livro. Primeiro, o trono: a palavra aparece mais de quarenta vezes, e a mensagem é que existe um assento de autoridade acima de todos os tronos de Roma. Segundo, o Cordeiro vencedor pelo sacrifício, que compra "os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação" (Apocalipse 5:9). Terceiro, a paródia: o dragão, a besta e o falso profeta formam uma trindade falsificada, a besta tem uma ferida de morte curada, imitando a ressurreição, e Babilônia é a antinoiva. O mal, no Apocalipse, não é criativo; é plagiador. Quarto, a adoração: a cada crise, o livro interrompe a ação e canta. Os hinos do Apocalipse são a resposta pastoral às ameaças, e é por isso que este livro nasceu no culto.
É nesse contexto de paródia que entra o número mais famoso da Bíblia: "Aqui está a sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. Esse número é seiscentos e sessenta e seis" (Apocalipse 13:18). O texto avisa que é "número de homem", isto é, humano, não sobrenatural. Muitos leitores antigos calcularam pelo valor numérico das letras, prática comum na época, e chegaram a "Nero César" transliterado para o hebraico. Outra leitura, complementar, observa que sete é o número da plenitude divina e seis é o que sempre falha em chegar lá: seis, seis, seis é o fracasso triplicado, a caricatura que nunca alcança a glória que finge ter. Em vez de procurar chips e códigos de barras, o leitor sábio pergunta a que sistema está prestando lealdade cotidiana.
Versículos-chave deste livro
Apocalipse 3:20. "Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo." Laodiceia era uma cidade rica, centro bancário e médico, famosa por um colírio e por tecidos negros. Cristo usa a linguagem da cidade contra a autossuficiência da igreja: comprem de mim ouro, vestes brancas e colírio. E então, em vez de fechar com ameaça, abre com um convite doméstico. "Cear" no mundo antigo não era comer rápido; era a refeição longa da noite, com conversa e vinho, sinal de intimidade e aliança. O Rei que caminha entre os candeeiros quer jantar na sua cozinha. Este é o versículo que impede qualquer leitura fria do Apocalipse: no meio de trovões e selos, há uma batida discreta na porta de quem se acostumou a viver sem ele.
Apocalipse 20:12. "Vi também os mortos, os grandes e os pequenos, postos em pé diante do trono. Então, se abriram livros. Ainda outro livro, o Livro da Vida, foi aberto. E os mortos foram julgados, segundo as suas obras, conforme o que estava escrito nos livros." Duas coisas se destacam. A primeira é a igualdade absoluta: "os grandes e os pequenos" no mesmo lugar, sem fila preferencial, sem imperador acima da lei. Para cristãos que eram julgados por tribunais romanos, isso era pura esperança: existe um tribunal acima do tribunal. A segunda é a distinção entre os livros das obras e o Livro da Vida. As obras são reais, contam, testemunham; mas a salvação depende de o seu nome estar escrito no livro que pertence ao Cordeiro que foi morto. Juízo verdadeiro e graça verdadeira não se cancelam nesta cena; eles se encontram.
Apocalipse 21:1. "Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe." O destino final do cristão não é uma nuvem, é uma terra. Deus não abandona sua criação; ele a refaz. E o mar, que no Apocalipse é de onde sobe a besta, o símbolo do caos e da separação que mantinha João longe de suas igrejas, simplesmente deixa de exister. Nenhuma fonte de ameaça sobra. Logo depois vem a explicação: Deus faz seu tabernáculo entre os homens, e enxuga toda lágrima dos olhos, "e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem choro, nem dor, porque as primeiras coisas passaram" (Apocalipse 21:4). Este é o alvo para onde o livro inteiro corria.
O Espelho
Você já percebeu que quase sempre lê o Apocalipse procurando os outros? A besta é o político que você detesta. Babilônia é a cidade decadente lá longe. Laodiceia é aquela igreja grande com holofotes. O livro, porém, foi escrito para ser lido em voz alta na sua frente, e as sete cartas começam com uma frase que não deixa saída: "Eu conheço as tuas obras."
Então deixe o espelho fazer seu trabalho. Onde é que você já queimou o seu punhado de incenso para César? Talvez tenha sido naquela reunião em que você riu de uma piada que humilhava alguém, porque discordar custaria a promoção. Talvez seja o silêncio calculado sobre sua fé no ambiente profissional, não por prudência, mas por vergonha. Talvez seja o cartão de crédito que revela, com mais honestidade que seu diário de oração, qual reino você realmente serve. Babilônia, no capítulo 18, é chorada pelos mercadores, e a lista de suas mercadorias termina com "corpos e almas de homens". Todo sistema que trata gente como mercadoria é filho dela. Você compra dele? Trabalha para ele? Sonha com ele?
E ao mesmo tempo, ouça a batida na porta. Se você é o cristão morno de Laodiceia, com a agenda cheia e o coração seco, saiba que Cristo não desistiu de você. Ele está do lado de fora, batendo, propondo jantar. Se você é o cristão de Esmirna, pobre, cansado, cuidando de alguém doente, achando que sua vida não rendeu nada visível, ouça: aquele que "estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos" (Apocalipse 1:18) chama você de rico.
O Apocalipse não pede que você adivinhe datas. Pede que você seja fiel na terça-feira. E promete que o Cordeiro vai enxugar, com as próprias mãos, cada lágrima que ninguém mais viu você chorar.
Explicado para crianças
Crianças não têm medo do Apocalipse; têm medo do que os adultos falam sobre ele. Por isso, a porta de entrada com os pequenos nunca deve ser o dragão, mas o trono. Uma explicação simples e verdadeira poderia começar assim: o último livro da Bíblia é uma carta que Jesus mandou para amigos dele que estavam com medo, e nessa carta ele mostra quem é o verdadeiro Rei de tudo. Existem monstros na história, sim, mas eles são como sombras grandes na parede: parecem enormes, e no fim são pequenos diante do Cordeiro. E a história termina do jeito mais bonito possível: Deus vem morar com a gente, seca todas as lágrimas, e nunca mais ninguém adoece, nem morre, nem chora.
Com os pequenos, vale contar o final antes do meio. Comece por Apocalipse 21, pela cidade que brilha, pelo rio, pela árvore que cura. Depois explique que o caminho até lá tem partes difíceis, mas Jesus vai junto. Evite imagens gráficas com crianças pequenas e evite, sobretudo, usar o livro como ameaça para conseguir obediência. O Apocalipse é um livro de consolo.
No Faith.network você encontra explicações específicas por faixa de idade: uma versão para pré-escolares de 3 a 6 anos, centrada no Rei bondoso e no mundo novo; uma versão para crianças de 7 a 12 anos, que já lida com símbolos, com as sete igrejas e com coragem; e uma versão para adolescentes de 12 anos ou mais, que enfrenta as perguntas sobre 666, sobre poder, mídia, lealdade e sobre por que cristãos discordam a respeito do milênio.
Perguntas frequentes
Quem escreveu o livro de Apocalipse?
O texto se apresenta como obra de João, que se identifica pelo nome quatro vezes e escreve às igrejas da Ásia Menor como alguém já conhecido delas, sem precisar defender sua autoridade. Escritores cristãos do segundo século, como Justino Mártir e Irineu de Lião, o identificam como o apóstolo João, filho de Zebedeu, o mesmo do quarto Evangelho. Alguns estudiosos antigos e modernos apontam diferenças de estilo e grego entre o Evangelho e o Apocalipse e sugerem outro João, chamado "o presbítero". A leitura tradicional segue sendo a mais forte, e o próprio livro insiste que a revelação é de Jesus, não do escritor.
Quando o Apocalipse foi escrito?
A datação mais aceita é por volta de 95 d.C., nos últimos anos do imperador Domiciano, com base no testemunho de Irineu e no quadro de pressão religiosa e culto imperial refletido nas sete cartas. Uma segunda proposta situa o livro nos anos 60, no fim do reinado de Nero, antes da destruição do templo de Jerusalém em 70 d.C., apoiando-se em possíveis referências ao templo ainda existente e à sequência de imperadores no capítulo 17. As duas datas mantêm o mesmo cenário essencial: cristãos sob suspeita num império que exigia lealdade absoluta.
O que significa a palavra "apocalipse"?
Vem do grego apokalypsis, que significa desvelamento, retirar a cobertura de algo que estava escondido. É a primeira palavra do livro em Apocalipse 1:1 e funciona como título. No uso popular, "apocalipse" virou sinônimo de catástrofe mundial, mas o sentido bíblico é bem diferente e mais esperançoso: Deus levanta o véu e mostra a realidade por trás das aparências, revelando quem realmente governa a história. O gênero literário apocalíptico já existia no judaísmo, com visões, símbolos, números e anjos intérpretes, e Daniel, Ezequiel e Zacarias são seus parentes mais próximos no Antigo Testamento.
O que significa o número 666?
Apocalipse 13:18 diz que é "número de homem", ou seja, humano e calculável. Na antiguidade, letras funcionavam como números, e muitos leitores somam as letras de "Nero César" transliteradas para o hebraico, chegando a 666, o que combina com um imperador que perseguiu cristãos e cuja morte gerou rumores de retorno. Outra leitura, que não exclui a primeira, entende o número simbolicamente: sete representa plenitude, e seis é sempre o que fica faltando; três seis são a falha completa, a imitação que nunca alcança a glória divina. Em ambos os casos, a pergunta prática é sobre lealdade, não sobre tecnologia.
Quem é a besta do Apocalipse?
No capítulo 13, duas bestas servem ao dragão: uma sobe do mar, com poder político e militar, e outra sobe da terra, com poder religioso e propagandístico, forçando a adoração da primeira. Para os primeiros leitores, o retrato apontava diretamente para Roma e para o sacerdócio do culto imperial nas cidades da Ásia. Mas o Apocalipse pinta com traços que se repetem na história: qualquer poder que se divinize, exija adoração e persiga o povo de Deus veste essa mesma roupa. O Novo Testamento fala também de um anticristo final, e a Igreja historicamente lê a besta como padrão presente e como figura escatológica.
O Apocalipse fala do fim do mundo nos nossos dias?
O livro afirma que as coisas anunciadas devem acontecer "em breve" e que "o tempo está próximo", o que indica relevância imediata para os leitores do primeiro século, e não apenas para uma geração distante. Ao mesmo tempo, ele aponta claramente para a consumação final: a volta de Cristo, o juízo e a nova criação, que ainda esperamos. Existem quatro grandes abordagens interpretativas, o preterismo, o historicismo, o futurismo e o idealismo, e cristãos fiéis se dividem entre elas. O que nenhuma delas autoriza é fixar datas, algo que Jesus proibiu explicitamente em Mateus 24:36.
O que é o milênio de Apocalipse 20?
É o período de mil anos em que Satanás é preso e os santos reinam com Cristo. Historicamente há três leituras principais. O amilenismo entende os mil anos como simbólicos, referindo-se ao presente reinado de Cristo desde a ressurreição até sua volta. O pós-milenismo espera um longo período de avanço do Evangelho antes do retorno. O pré-milenismo entende um reino visível de mil anos depois da volta de Cristo. Todas as três confessam a mesma esperança central: Cristo voltará, julgará e reinará para sempre. Essa é a linha que separa a fé cristã de qualquer especulação, e não o cronograma exato.
Quem são os 144 mil?
O número aparece em Apocalipse 7 e 14, formado por doze mil de cada uma das doze tribos de Israel. A grande maioria dos intérpretes o lê simbolicamente: doze ao quadrado multiplicado por mil, uma forma de dizer "o povo de Deus completo, sem faltar ninguém". Isso combina com o fato de que, imediatamente depois de ouvir o número, João vê "uma multidão que ninguém podia enumerar" de todas as nações. É o mesmo grupo visto de dois ângulos: contado com precisão militar antes da batalha, e inumerável na celebração da vitória. Nada no texto sustenta um limite literal de vagas no céu.
Quem é a grande Babilônia do Apocalipse?
Babilônia é a cidade que, no Antigo Testamento, destruiu Jerusalém e levou o povo ao exílio; virou o nome próprio do império arrogante e idólatra. No Apocalipse, ela reaparece como a grande prostituta sentada sobre sete montes, uma descrição que os primeiros leitores associavam de imediato a Roma. Seu retrato no capítulo 18 é econômico: luxo, comércio global, mercadores enriquecendo e, no fim da lista de produtos, corpos e almas humanas. Babilônia é o oposto da noiva do Cordeiro. Toda cultura que faz da riqueza e do poder seus deuses continua sendo, no sentido do livro, Babilônia.
O arrebatamento está no livro de Apocalipse?
O termo vem de 1 Tessalonicenses 4:17, onde Paulo descreve os vivos sendo arrebatados ao encontro do Senhor nos ares na sua vinda. O Apocalipse não usa essa palavra e não descreve claramente uma retirada da Igreja antes da tribulação; a proposta de um arrebatamento pré-tribulacional é uma leitura sistemática, popularizada no século XIX, que combina textos de vários livros. O que o Apocalipse enfatiza, de ponta a ponta, é diferente e igualmente consolador: o povo de Deus é preservado dentro da provação, selado, alimentado no deserto, guardado pelo Cordeiro.
Por que o Apocalipse é tão difícil de entender?
Porque estamos lendo a correspondência de outra pessoa, num gênero literário que não usamos mais e com um vocabulário simbólico que os primeiros leitores dominavam melhor do que nós. Números, cores, animais e minerais funcionam como uma língua: sete significa plenitude, chifres significam poder, branco significa vitória e pureza. Além disso, o livro é saturado de alusões ao Antigo Testamento, e quem não conhece Daniel, Ezequiel e Êxodo perde metade das pistas. A dificuldade não é falta de clareza do texto, mas distância cultural nossa. Ler com um bom comentário e com paciência resolve muito.
Como devo começar a ler o livro de Apocalipse?
Comece lendo o livro inteiro de uma vez, em voz alta se possível, sem parar para investigar cada símbolo, apenas para sentir o movimento geral, que vai do exílio à cidade nova. Depois volte devagar. Uma boa ordem de estudo é capítulo 1, capítulos 2 e 3, capítulos 4 e 5, e então capítulos 21 e 22, porque assim você fixa o Cristo do início, as igrejas reais, o trono e o destino final antes de entrar nas séries de juízos. Tenha ao lado Daniel, Ezequiel e Êxodo, e leia orando.
Para encerrar
Existe um jeito de estudar o Apocalipse que deixa a pessoa mais ansiosa, mais desconfiada dos vizinhos e mais orgulhosa do próprio esquema profético. E existe outro jeito, que é o jeito do livro: sair da leitura com os olhos fixos num Cordeiro que foi morto e está de pé, com menos medo dos poderes deste século e mais coragem para ser fiel na segunda-feira. A diferença entre os dois não está na inteligência do leitor, mas na pergunta que ele traz. Se você vier perguntando "quando?", vai colecionar teorias. Se vier perguntando "quem reina, e como devo viver diante dele?", vai encontrar consolo.
Deixe, então, que este livro faça em você o que fez naquelas sete igrejas: que ele levante seu queixo, exponha suas lealdades escondidas, aqueça seu coração morno com a batida na porta e coloque na sua boca a última oração da Bíblia. Leia Apocalipse 1 e Apocalipse 5 esta semana. Leia Apocalipse 21 num dia difícil. E quando terminar, responda como a Igreja sempre respondeu: Amém! Vem, Senhor Jesus!
