Judas, irmão de Thiago: três versículos e um nome numa lista
Quem é Judas e quando viveu
Judas é um homem do tempo em que Jesus viveu, situado por volta de 4 a.C. a d.C. 33 (era situada na cronologia de Ussher, 1650). O registo familiar identifica-o como filho de José e de Maria, e portanto irmão de Jesus, de Thiago, de José e de Simão. A sua presença no texto é curta: três versículos, em três passagens, em três livros distintos, de Matthew 13:55 até Jude 1:1. Nenhuma dessas passagens conta uma cena da sua vida. Duas são perguntas feitas por gente da terra, e a terceira é a linha de abertura de uma carta.
O nome numa pergunta, em Matthew 13:55
A primeira menção chega pela boca de quem não está impressionado. A pergunta é registada assim: "Não é este o filho do carpinteiro? e não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Thiago, e José, e Simão, e Judas?" (Matthew 13:55). Judas é o último nome da lista. Não fala, não age, não é descrito. Serve de argumento na boca de outros: se esta família é conhecida, se os irmãos têm nomes correntes e rostos familiares, então o que haverá de extraordinário no que se está a ouvir?
É um tipo de menção que vale a pena nomear com honestidade. Judas não entra aqui como protagonista de nada. Entra como prova de normalidade. A sua notoriedade, nesta passagem, é precisamente não ter nenhuma.
A mesma lista, outra ordem, em Mark 6:3
A segunda menção repete a cena com pequenas diferenças: "Não é este o carpinteiro, filho de Maria, e irmão de Thiago, e de José, e de Judas e de Simão? e não estão aqui comnosco suas irmãs? E escandalizavam-se n'elle" (Mark 6:3). Judas aparece agora em terceiro lugar, antes de Simão. O versículo acrescenta que há irmãs presentes, sem lhes dar nome. E termina com uma nota dura sobre quem fazia a pergunta: escandalizavam-se nele. O texto atribui esse escândalo aos que perguntavam; não diz que Judas estivesse entre eles, e não devemos dizer mais do que está escrito.
Duas passagens, portanto, e ambas do mesmo género: catálogos familiares citados por terceiros. Nenhum diálogo. Nenhum gesto. Nenhuma viagem.
Uma assinatura, em Jude 1:1
A terceira menção é de outra natureza. Já não é alguém a falar sobre ele, é ele a escrever: "Judas, servo de Jesus Christo, e irmão de Thiago, aos chamados, sanctificados pelo Deus Pae, e conservados por Jesus Christo" (Jude 1:1). Aqui, o homem que era apenas um nome numa enumeração toma a palavra, e escolhe como se apresentar.
Repare-se no que ele põe em primeiro lugar: servo de Jesus Christo. Só depois, irmão de Thiago. O parentesco que os vizinhos usaram para reduzir Jesus a um conhecido qualquer é o mesmo parentesco que Judas não invoca para se engrandecer. Ele nomeia Thiago, e escreve a pessoas que descreve como chamadas, santificadas e conservadas.
Falhas
O texto regista falhas quando as há, e calar isso seria mentir sobre aquilo que está escrito. Neste caso, o inverso é o que se verifica: nestas três passagens não há nenhuma falta atribuída a Judas, nem nenhuma virtude narrada. Não temos dele um pecado nomeado, um arrependimento contado, uma queda ou uma restauração. Quem procurar aqui uma biografia moral não a encontra, e inventá-la seria acrescentar ao que se lê.
O que não sabemos
O desconhecido é grande e deve ser dito sem rodeios. Não há filhos nomeados. Não há uma única cena da sua vida: cada menção é uma lista, uma nota de passagem ou uma linha de saudação. Não sabemos onde viveu depois de Matthew 13:55 e de Mark 6:3, nem quando nem onde escreveu as palavras de Jude 1:1, nem como chegou a chamar-se servo daquele que é nomeado ao seu lado nas listas de família. Nada disso está registado nas passagens que temos.
A linha até Jesus Christo
A ligação está escrita nas próprias três passagens. Em Matthew 13:55 e em Mark 6:3, Judas é nomeado como irmão daquele a quem a gente da terra chama filho do carpinteiro e filho de Maria. É uma ligação de casa e de vizinhança, e é essa proximidade que faz tropeçar os que ouvem: "E escandalizavam-se n'elle" (Mark 6:3).
Em Jude 1:1, a ligação é dita de outro modo. Judas chama-se "servo de Jesus Christo", e descreve os destinatários como "conservados por Jesus Christo". O irmão apresenta-se como servo, e o parente é apresentado como aquele que conserva. Das três linhas que o texto lhe dedica, esta é a única que ele próprio escreveu, e é a que diz quem Jesus é para ele.

