Rispa, filha de Aia: a concubina de Saul que velou sobre a penha
Quem é Rispa
Rispa, filha de Aia, é apresentada no texto como concubina de Saul. Viveu no tempo do reino unido, numa era situada entre, aproximadamente, 1095 a.C. e 975 a.C., segundo a era situada na cronologia de Ussher (1650). Seu nome aparece em apenas quatro versículos, todos no livro de 2 Samuel, distribuídos em duas passagens: 2 Samuel 3:7 e 2 Samuel 21:8-11. É pouco texto, e ainda assim nenhum desses versículos é neutro. Em cada um deles Rispa está no centro de uma disputa, de uma perda ou de uma vigília.
A pergunta de Isboseth
A primeira menção é uma nota de passagem dentro de um conflito entre homens. O texto diz: "E tinha tido Saul uma concubina, cujo nome era Rispa, filha de Aia: e disse Isboseth a Abner: Porque entraste á concubina de meu pae?" (2 Samuel 3:7). A frase apresenta Rispa por três coordenadas: o nome, o pai, Aia, e a relação com Saul. A acusação é feita por Isboseth a Abner. Rispa não fala. Ninguém lhe pergunta nada. Ela é mencionada como aquilo que está em causa entre dois homens, e o versículo termina com a pergunta de Isboseth suspensa no ar.
Vale registrar o que o versículo citado não diz. Não diz como Rispa chegou à casa de Saul, nem o que ela pensou, nem qualquer palavra sua. O leitor experiente sente a tentação de preencher o silêncio com o que sabe de outras histórias; aqui, o silêncio é parte do que o relato entrega.
Dois filhos tomados
A segunda passagem a nomeia duas vezes, e na primeira delas ela aparece como mãe. "Porém tomou o rei os dois filhos de Rispa, filha d'Aia, que tinha parido a Saul, a saber a Armoni e a Mephiboseth; como tambem os cinco filhos da irmã de Michal, filha de Saul, que parira a Adriel, filho de Barzillai, meholathita" (2 Samuel 21:8). Os dois filhos têm nome: Armoni e Mephiboseth. Junto deles são tomados outros cinco, filhos da irmã de Michal, filha de Saul, nascidos de Adriel, filho de Barzillai. Sete ao todo, dois dos quais eram de Rispa.
O sujeito da ação é "o rei". O versículo que vem depois, ao mencioná-la de novo, diz que a notícia chegou a David. O texto, nestes versículos, não explica o motivo do rei, e não cabe a nós acrescentá-lo. O que fica registrado é a perda: os filhos que Rispa tinha parido a Saul foram tomados.
A vigília sobre a penha
Então, e somente então, Rispa age. "Então Rispa, filha d'Aia, tomou um panno de cilicio, e estendeu-lh'o sobre uma penha, desde o principio da sega, até que distillou a agua sobre elles do céu: e não deixou as aves do céu pousar sobre elles de dia, nem os animaes do campo de noite. E foi dito a David o que fizera Rispa, filha d'Aia, concubina de Saul" (2 Samuel 21:10-11).
Cada detalhe pesa. O pano de cilício estendido sobre a penha não é abrigo confortável, é lugar de luto instalado onde estavam os corpos. O tempo é medido pela terra e pelo céu: desde o princípio da sega até que a água destilou sobre eles do céu. O trabalho é contínuo e dividido entre dia e noite: as aves do céu de dia, os animais do campo de noite. É uma mulher sozinha afastando bicos e dentes de filhos que não pôde salvar.
E o versículo 11 registra a consequência: foi dito a David o que fizera Rispa. A mulher que em 2 Samuel 3:7 era apenas objeto de uma pergunta entre dois homens é, aqui, aquela cuja ação chega aos ouvidos do rei. O texto a nomeia, pela última vez, com os mesmos três títulos do começo: Rispa, filha de Aia, concubina de Saul.
Falta ou silêncio?
Há quem leia 2 Samuel 3:7 esperando encontrar nela uma culpa. O versículo não a atribui. A pergunta "Porque entraste á concubina de meu pae?" é dirigida por Isboseth a Abner, e é a conduta de Abner que está sob acusação. Nenhuma palavra do relato condena Rispa, e nenhuma a elogia por nome. Honestidade com o texto significa aqui não inventar uma falta que ele não registra, assim como não inventar virtudes que ele não declara. O que ele mostra é uma mulher usada numa disputa de poder e, depois, uma mãe enlutada sobre uma rocha.
O que não sabemos
O conjunto de menções é curto, e convém dizer com franqueza o que falta. Nenhuma tribo nem povo lhe é atribuído. Não há nenhuma palavra dita por ela. Não há notícia de seu nascimento, de sua morte, nem do que lhe aconteceu depois da vigília. Rigorosamente, nenhuma cena é contada sobre ela: cada menção é uma lista, uma genealogia ou uma nota de passagem, e até a vigília nos chega como informação levada ao rei.
Nas passagens reunidas aqui não há nenhuma referência das escrituras do pacto novo ligada a Rispa, e por isso nenhuma linha dessa espécie pode ser traçada a partir dela. O que resta é o que o texto guardou: um pano de cilício sobre uma penha, desde o princípio da sega até a água do céu, e a notícia que chegou ao rei.
