Atos 2
O Texto
Nove horas da manhã, uma casa em Jerusalém, um grupo reunido sem saber exatamente o que esperava. Então o barulho: "de repente veiu do céu um som, como de um vento vehemente e impetuoso", e o fogo se reparte em línguas que pousam sobre cada cabeça. Lá fora, peregrinos de meio mundo ouvem galileus falando os idiomas de suas infâncias. Alguns perguntam o que aquilo significa; outros riem e dizem que os homens beberam demais. Pedro se levanta, cita Joel, cita Davi, e conclui com uma frase que não deixa ninguém em paz: o Jesus que vocês crucificaram, Deus o fez Senhor e Cristo. Três mil pessoas são batizadas naquele dia. E começam a partir o pão de casa em casa.
O Cerne
Repare em quem está derramando. Pedro não diz que o Espírito desceu por conta própria, mas que Jesus, "exaltado já pela dextra de Deus, e recebendo do Pae a promessa do Espirito Sancto, derramou isto que vós agora vêdes e ouvis". O vento e o fogo são a fumaça visível de algo que aconteceu fora do alcance dos olhos: uma entronização. Pentecostes é a notícia terrena de uma coroação celeste. E o mais duro está no versículo 36: os mesmos ouvidos que escutam "Senhor e Christo" pertencem às mãos que gritaram por crucificação. Deus não exige que eles primeiro se limpem. Ele oferece perdão exatamente aos culpados, e o Espírito como presente, não como prêmio. A graça aqui não é um tema; é o próprio choque da cena.
O Fio Condutor
Pentecostes é uma festa antiga antes de ser um acontecimento cristão: a colheita, e na memória judaica também o dia da lei no Sinai, com trovão, fogo e uma montanha tremendo. Agora o fogo não fica no monte, desce sobre pessoas. E as línguas não confundem, como em Babel, onde a humanidade foi espalhada por querer fazer nome para si; aqui a diferença permanece e a compreensão volta. Partos, medas, elamitas, cretenses, árabes: Lucas gasta versículos inteiros com essa lista de povos porque ela é o índice de um mundo que Deus está recolhendo. A promessa a Abraão, de que nele todas as famílias da terra seriam abençoadas, começa a soar em dialeto.
O Espelho
Há um detalhe que costuma passar: a pergunta que salva não é "o que devo entender?", mas "que faremos, varões irmãos?". Eles foram atingidos onde não queriam, "compungiram-se em seu coração", e o primeiro impulso foi agir. A maioria de nós é hábil em adiar isso. Ouvimos algo verdadeiro sobre o dinheiro que guardamos com medo, sobre o irmão com quem não falamos há dois anos, sobre a maneira como tratamos quem trabalha para nós, e transformamos a punhalada em assunto de estudo. Reparemos ainda que a resposta de Pedro não é sentimental: arrependimento e batismo, algo público, com testemunhas, com corpo. Hoje, antes de dormir, diga em voz alta, sozinho se preciso, o nome daquilo em que você participou e que precisa ser perdoado. Não pense: fale.
O Intertexto
Duas ligações valem o desvio. A primeira é Joel, citado por Pedro justamente na parte escandalosa: "do meu Espirito derramarei sobre toda a carne; e os vossos filhos e as vossas filhas prophetizarão". Filhos e filhas, moços e velhos, servos e servas. Num mundo onde a palavra pertencia a homens livres e formados, isso é uma redistribuição de voz. A segunda é o Salmo 16, que Pedro lê com um argumento quase forense: Davi morreu, o túmulo dele está ali na esquina, logo o salmo fala de outro. A ressurreição não é sentimento pascal, é o cumprimento de um texto que os ouvintes cantavam sem entender do que falavam.
O Personagem Principal
Pedro, de pé, com os onze. O mesmo homem que meses antes negou conhecer Jesus diante de uma criada, agora levanta a voz diante da cidade que matou seu mestre e acusa a multidão de assassinato. Não é bravata; é alguém que já foi ao fundo do próprio fracasso e voltou perdoado, e por isso pode falar de perdão sem soar superior. Note como ele fala: "Varões irmãos". Ele acusa de dentro, não de cima. E quando eles perguntam o que fazer, ele não impõe condições, alarga: "a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe". Um homem restaurado tende a abrir portas que nunca teria aberto antes de cair.
A Pergunta
O versículo 23 não se deixa domesticar: Jesus foi entregue "pelo determinado conselho e presciencia de Deus", e ainda assim Pedro diz, na mesma frase, "vós o crucificastes e matastes pelas mãos de injustos". Deus determinou, e vocês são culpados. As duas coisas, sem costura visível entre elas. Quem tenta resolver isso rápido acaba destruindo uma das metades: ou Deus não estava no comando da cruz, ou ninguém foi realmente responsável por ela. O texto recusa as duas saídas. Talvez o consolo esteja justamente aí: o pior crime da história humana já estava dentro do propósito de Deus, o que significa que nada do que fizemos escapa ao alcance da sua misericórdia, nem por isso deixa de ser nosso.
Reflexão
Quando um texto o atinge no peito, o que você costuma fazer com essa pontada: age, ou a transforma em assunto para pensar depois?
A comunidade do versículo 45 vendia propriedades conforme a necessidade de cada um. O que, na sua vida concreta, você ainda considera intocável?
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Perguntas frequentes sobre Acts 2
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Pai, obrigado porque Jesus está sentado ao teu lado, com autoridade sobre tudo o que me assusta. Quando o mundo parece fora de controle, lembra o meu coração de quem realmente reina. Descanso nisso hoje, mesmo sem entender tudo.
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