Jó 1:22
O Texto
Depois de quatro mensageiros que chegam uns sobre os outros, cada um roubando a Job uma parte da sua vida, e depois de Job rasgar o manto, rapar a cabeça e cair por terra a adorar, o narrador acrescenta uma frase seca, quase jurídica: "Em tudo isto Job não peccou, nem attribuiu a Deus falta alguma." Não é Job quem fala aqui. É a voz que conta a história, a fechar o primeiro assalto com um veredicto.
O Cerne
Repare no que o versículo não diz. Não diz que Job se conformou, nem que compreendeu, nem que se sentiu em paz. Diz apenas que não pecou e que não atirou a Deus uma acusação de impropriedade. O texto separa, com um bisturi, duas coisas que nós misturamos: a dor e a acusação. Job grita, rasga, cai; e nada disso é pecado. O luto violento é permitido, esperado, até litúrgico. O que Job não faz é dizer que Deus agiu de forma indigna de si mesmo. E é precisamente aí que o livro coloca a pergunta que o vai atravessar todo: pode um ser humano continuar a chamar Deus de bom quando tudo à sua volta grita o contrário?
O Fio Condutor
Toda a Escritura conhece este ponto de tensão: o justo que sofre sem explicação. Job é o primeiro grande protótipo, e não o último. Tiago escreve à sua comunidade perseguida sobre "a paciência de Job" (Tiago 5,11), e não o faz para elogiar estoicismo, mas para lembrar que o fim daquela história estava nas mãos do Senhor. O padrão chega ao seu ponto final num Getsémani onde outro Justo cai por terra, suando, pedindo que o cálice passe, e mesmo assim não acusa o Pai de injustiça. A diferença é que Job não sabia porquê e nós também não sabemos; Cristo sabia, e bebeu na mesma. O silêncio de Job aponta para uma obediência que ele próprio não conseguia sustentar até ao fim, como veremos nos capítulos seguintes.
O Espelho
A tentação que este versículo desmonta não é a de blasfemar em voz alta. É a mais educada: aquela frase interior, formulada às três da manhã depois de um diagnóstico, de um despedimento, de um telefonema do hospital, que diz "isto não se faz". Não é raiva; é um processo judicial silencioso em que Deus fica arguido e nós, magoados, somos o júri. Job faz o luto inteiro, com o corpo todo, e não abre esse processo. Isso não é frieza. É a decisão de que a minha dor, por mais real que seja, não é competente para julgar o carácter de Deus. Se alguma vez teve de escolher entre confiar e compreender, sabe exactamente o custo dessa frase.
A Pergunta
Fica de pé um incómodo que o texto não resolve: e se Job estivesse simplesmente errado? Porque, do ponto de vista dos factos, Deus autorizou aquilo. Autorizou explicitamente, no versículo 12. O leitor sabe o que Job não sabe, e é isso que torna a cena quase insuportável: nós vimos a conversa nos bastidores e ela não torna a perda mais justa, apenas mais estranha. O narrador não diz que Job tinha razão nos seus factos; diz que Job não pecou. Talvez seja essa a distinção que o livro nos quer ensinar antes de tudo o resto: há uma fidelidade que não depende de ter percebido bem, e Deus prefere-a a uma teologia correcta dita por um coração que já O condenou.
O Perfil
Quem ouvia esta história vivia num mundo onde a prosperidade era o certificado visível do favor divino. Sete mil ovelhas, três mil camelos, dez filhos: qualquer ouvinte antigo lia esses números como um selo de aprovação do céu. E os bandos que caem sobre Job, sabeus do sul, caldeus organizados em três tropas, não eram literatura; eram o medo real de qualquer proprietário que dormia com a angústia de os pastores não voltarem. Rasgar o manto e rapar a cabeça eram gestos públicos, reconhecíveis, quase obrigatórios, a maneira socialmente correcta de dizer ao mundo que se estava destruído. Nada disso escandalizava o ouvinte. O que o deixava sem chão era ver um homem, despojado de todos os sinais do favor divino, continuar a bendizer o nome do Doador.
O Pormenor
A palavra hebraica traduzida por "falta" é tiphlah, e é rara. Não significa exactamente culpa moral; significa algo insosso, sem sal, impróprio, disparatado. Job não atribuiu a Deus um disparate. Não disse: "isto que fizeste não faz sentido nenhum, é indigno de ti." É uma acusação mais subtil do que blasfémia, e por isso mais nossa. Quantas vezes não negamos que Deus existe nem que é bom, mas insinuamos que desta vez se descuidou, que a gestão foi má, que faltou bom senso lá em cima. Job, sentado nas cinzas do seu império desfeito, recusa-se a dizer isso. Ainda não tem resposta nenhuma. Tem apenas a recusa de reduzir Deus a alguém que se enganou.
Reflexão
Onde, na sua história recente, o luto se transformou discretamente numa acusação, e conseguiria distinguir uma coisa da outra?
O que significaria, para si esta semana, chorar com o corpo todo sem atribuir a Deus "falta alguma"?
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Perguntas frequentes sobre Job 1:22
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