Marcos 10:29
O Texto
Pedro acaba de apresentar a conta: "Eis que nós tudo deixámos, e te seguimos." Não é uma pergunta, é quase uma cobrança envergonhada, dita logo depois de o homem rico ter ido embora triste e de Jesus ter declarado que a salvação é impossível aos homens. A resposta do Senhor começa com a fórmula solene que ele usa quando quer que ninguém duvide: "Em verdade vos digo." E então vem a lista, lenta, item por item: casa, irmãos, irmãs, pai, mãe, mulher, filhos, campos. Tudo aquilo que sustentava a vida de um judeu da Galileia. Deixado, diz Jesus, "por amor de mim e do Evangelho". A frase fica suspensa; a promessa só chega no versículo seguinte.
O Cerne
Repare no que Jesus coloca no centro da frase: "por amor de mim e do Evangelho". Ele põe a si mesmo lado a lado com a mensagem de Deus, como se fossem uma coisa só, e exige uma lealdade que atravessa os laços mais sagrados da ordem criada. Poucos versículos antes, ele havia defendido o casamento apelando ao princípio da criação; agora fala de deixar mulher e filhos. Não é contradição: é a irrupção do Reino, que não anula a criação mas a relativiza diante daquele por quem ela existe. E note o silêncio de Jesus quanto ao mérito. Ele não corrige Pedro dizendo que a conta está errada; ele muda a moeda. Depois do "para Deus todas as coisas são possiveis", nenhum abandono compra coisa alguma. O deixar é consequência da graça, não pagamento por ela.
O Fio Condutor
A lista de Jesus tem eco antigo. "Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai": a vida do povo de Deus começa com um homem que deixa exatamente aquilo que Jesus enumera, e recebe em troca uma promessa que ele não pode fabricar. Abraão é o padrão, e o padrão é sempre o mesmo: Deus chama para fora do que é seguro e devolve cem vezes mais, mas do lado de lá da confiança. O que Marcos acrescenta é o nome. Agora não é apenas "por amor de Deus", é "por amor de mim". Jesus se coloca no lugar da voz que chamou Abraão. E poucos versículos adiante ele mesmo entrega tudo, subindo a Jerusalém à frente dos discípulos, dando "a sua vida em resgate por muitos". Ele não pede nada que não vá fazer primeiro, e maior.
O Espelho
O incômodo deste versículo é que ele nomeia coisas boas. Não diz vícios, diz casa, pais, filhos, terra. Ou seja: aquilo que você faz bem em amar pode ainda assim se tornar o lugar onde você negocia com Cristo. Isso aparece de formas discretas. A decisão de carreira que nunca é feita em oração porque a hipoteca já decidiu. O silêncio na mesa de Natal quando a fé é ridicularizada, porque a paz familiar custa menos que a fidelidade. A recusa em considerar algo mais arriscado porque os filhos "precisam de estabilidade", frase que às vezes é amor e às vezes é medo vestido de amor. Jesus não pede que você despreze nada disso. Pede que nada disso ocupe o lugar dele. Hoje, escreva num papel a única coisa que você mais teme perder por causa de Cristo, e diga em voz alta, com o papel na mão: "Isto é teu, Senhor, não meu."
O Perfil
Os primeiros leitores de Marcos não liam essa lista como metáfora. Muitos deles tinham perdido a casa ao serem expulsos da sinagoga, tinham sido riscados do testamento pelo pai, tinham mulher e filhos que ficaram do outro lado da linha. Em Roma, na década de sessenta, seguir Cristo podia custar o corpo. Para uma sociedade onde a identidade era inteiramente familiar e territorial, deixar "pae, ou mãe" não era coragem romântica, era morte social: sem clã você não era ninguém. Por isso a promessa do versículo seguinte, "cem vezes tanto, agora n'este tempo, casas, e irmãos, e irmãs", era literal e urgente. A igreja tinha de ser a nova casa, com mesa e teto de verdade. E Jesus acrescenta, sem suavizar: "com perseguições".
A Pergunta
Falta um nome nessa promessa. Jesus diz que quem deixou receberá casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, mas não repete "mulher". Alguns explicam com pressa; eu prefiro deixar a aspereza. A comunidade cristã pode devolver irmãos e mães, não pode devolver um cônjuge. Há perdas que não têm reposição neste tempo, e o texto sabe disso. Também não devemos ler aqui uma licença para abandonar a família, três parágrafos depois de Jesus ter dito "o que Deus ajuntou não o separe o homem". O deixar de que ele fala é a perda que a fidelidade impõe, não a que o egoísmo escolhe. E parte do preço fica em aberto até "no seculo futuro a vida eterna".
O Detalhe
"Ninguem ha, que tenha deixado." O verbo está no passado. Jesus não abre uma inscrição para candidatos heroicos; ele descreve pessoas que já perderam, gente que está no meio do prejuízo e não sabe se valeu. Pedro fala como quem apresenta uma fatura, e Jesus responde como quem reconhece uma ferida. É pastoral antes de ser exigente. Antes de qualquer chamado, há um Senhor que viu o que já lhe custou.
Reflexão
Qual item da lista de Jesus, casa, família ou campo, é o que você silenciosamente considera inegociável, e o que isso revela sobre onde está sua segurança?
Sua igreja é, de fato, casa e família para alguém que perdeu a sua por causa de Cristo? O que faltaria para ser?
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