Mateus 13:34
O Texto
Depois de encadear parábola após parábola, o semeador, o joio, o grão de mostarda, o fermento, Mateus faz uma pausa e comenta o que acabou de acontecer: "Tudo isto disse Jesus por parabolas á multidão, e não lhes fallava sem parabolas". Não é um detalhe de bastidores. É uma constatação sobre o método fixo de Jesus diante daquela massa de gente na praia: nada de discurso direto, nada de doutrina exposta em linha reta. Só histórias de terra, sementes, farinha e trigo. E o versículo seguinte explica que isso cumpre uma palavra profética: aquilo que estava escondido desde a fundação do mundo agora vem à tona, mas vem embrulhado em imagens do cotidiano.
O Cerne
Aqui há algo que incomoda: Deus revela escondendo. A parábola não é uma ilustração simpática pendurada num ensino que já foi dado de forma clara; é a própria forma da revelação. Jesus não simplifica para ser entendido por todos, ele fala de um jeito que separa quem quer ouvir de quem só quer assistir. A multidão recebe a mesma história que os discípulos, palavra por palavra, e sai com sementes e joio na cabeça; os que perguntam recebem o sentido. O reino, portanto, não se impõe pela evidência. Ele se oferece a quem se aproxima. Isso diz algo desconfortável sobre Deus: ele não força a porta do entendimento humano. E diz algo sobre nós: entender não é questão de inteligência, mas de aproximação.
O Fio Condutor
Mateus não deixa o comentário solto: ele o ancora numa profecia, "Abrirei em parabolas a minha bocca; publicarei coisas occultas desde a fundação do mundo". A frase vem do Salmo 78, um poema em que Asafe reconta a história de Israel para a geração seguinte, justamente porque os pais viram os prodígios e mesmo assim endureceram o coração. Ou seja: contar histórias já era, no Antigo Testamento, o modo de Deus manter viva uma verdade diante de um povo que ouve mal. Jesus assume esse lugar. Ele não é apenas mais um narrador na linha de Asafe; ele é o conteúdo escondido desde a fundação do mundo, agora dito em linguagem de lavoura. O mistério do reino não é uma informação secreta, é uma pessoa que fala em imagens até que alguém se levante e pergunte.
O Espelho
Você provavelmente já sabe explicar a parábola do semeador. Consegue dizer, sem consultar nada, o que são as pedras, os espinhos, os cem por um. E é exatamente aí que este versículo encosta o dedo: a multidão também ouviu tudo, palavra por palavra, e voltou para casa sem nada. A diferença entre a multidão e os discípulos não foi o acesso ao conteúdo, foi um gesto simples registrado duas vezes no capítulo: eles se aproximaram e perguntaram. Nós, que lemos todo dia e preparamos estudos, corremos um risco específico, o de trocar a aproximação pela competência. Sabemos comentar o texto sem nunca mais ter dito a Jesus: eu não entendi isso. Há orgulho nisso, e também medo, porque admitir que uma parte da Escritura ainda é opaca parece rebaixamento para quem ensina os outros. Hoje, então: escolha uma parábola deste capítulo que ainda te escapa, escreva num papel a pergunta exata que você tem sobre ela e diga em voz alta, com as palavras dos discípulos, "explica-nos".
O Perfil
Quem estava na praia era gente da Galileia rural: pequenos lavradores que sabiam na pele o que é semente comida por pássaro, terreno pedregoso, safra sufocada por espinho. Mulheres que amassavam farinha e conheciam de cor a proporção das três medidas. Para eles, ouvir o reino de Deus descrito com esse vocabulário foi ao mesmo tempo uma dignificação e uma frustração. Dignificação, porque o mundo deles, sujo de terra, servia para falar de Deus. Frustração, porque esperavam do Messias um programa, um sinal, uma palavra sobre Roma, e receberam sementes e fermento. Muitos ali tinham vindo pelos milagres do capítulo anterior. Saíram com histórias na cabeça e nenhuma instrução clara. Alguns voltaram para casa entretidos. Poucos voltaram inquietos.
O Detalhe
Repare na dupla negativa: "não lhes fallava sem parabolas". Mateus não diz que Jesus usava muitas parábolas, diz que, diante daquela multidão, não havia uma única frase fora desse formato. É uma afirmação absoluta e um pouco chocante. A palavra grega é parabolē, literalmente algo lançado ao lado, uma coisa colocada junto de outra para que se comparem. A parábola não entrega a verdade, ela a coloca ao lado de uma cena conhecida e espera. Isso significa que Jesus escolheu deliberadamente um modo de falar que exige trabalho do ouvinte. Ele não seleciona um público inteligente; seleciona um público disposto a ficar mais tempo do que o confortável diante de uma história que ainda não se abriu.
Contexto
Isto acontece num dia carregado. No capítulo anterior, os fariseus atribuíram o poder de Jesus a Belzebu e exigiram um sinal; sua própria família ficou do lado de fora esperando. "Tendo saido da casa n'aquelle dia", Jesus se senta à beira do mar, entra num barco por causa da pressão da multidão e ensina com a água servindo de caixa acústica, o povo em pé na areia. A posição sentada é a do mestre oficial. Mas o ensino mudou de temperatura: depois da rejeição aberta das autoridades, a palavra passa a vir velada. E o capítulo termina em Nazaré, onde os conterrâneos sabem o nome da mãe, dos irmãos, do ofício do pai, e por isso mesmo não veem nada. Familiaridade não é o mesmo que compreensão.
Reflexão
Quando foi a última vez que você admitiu, diante de Deus e não apenas diante de si mesmo, que não entendeu um texto que costuma ensinar?
O que na sua rotina de leitura te mantém na praia, ouvindo, em vez de te levar a se aproximar e perguntar?
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Perguntas frequentes sobre Matthew 13:34
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Pai, tenho medo de guardar o pouco que me deste e vê-lo secar nas minhas mãos. Ensina-me a ouvir com o coração aberto e a colocar em uso aquilo que recebo, para que o que semeias em mim cresça e não se perca.
Obrigado, Senhor, porque me avisas antes que o sol venha: sem raiz, tudo seca. Agradeço por não me deixares na fé rasa, por cavares fundo em mim com tua Palavra e por sustentares o que plantaste, mesmo quando o calor aperta.
Obrigado, Senhor, porque não escondeste de mim a verdade sobre a fornalha acesa, onde há choro e ranger de dentes. Esse aviso me despertou. E Jesus carregou na cruz o juízo que era meu, por isso hoje respiro perdão e não condenação.
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