Mateus 24:15
O Texto
Jesus está sentado no monte das Oliveiras, de frente para o templo que acabara de sentenciar à ruína, e agora entrega aos discípulos um sinal concreto em meio a tanta advertência genérica sobre guerras e falsos messias: "Quando pois virdes que a abominação da desolação, de que fallou o propheta Daniel, está no logar sancto". Há algo profanador que se instalará onde só a santidade de Deus deveria habitar. E então, no meio da frase, a voz muda de direção e fala não aos ouvintes daquele monte, mas a quem tem o texto nas mãos: "quem lê, attenda". O versículo seguinte transforma o sinal em ordem prática: fujam.
O Cerne
O que está em jogo aqui não é curiosidade sobre o calendário do fim, mas a pergunta de onde Deus habita. O "logar sancto" era o coração da presença divina em Israel, o ponto de encontro entre céu e terra. Jesus anuncia que esse lugar será tomado por aquilo que o nega. Isso é mais duro do que parece: não é apenas que os inimigos vencerão militarmente, é que o próprio sistema de mediação entre Deus e o povo será profanado até o esvaziamento. E note quem diz isso. Aquele que dois dias antes chamou o templo de "minha casa" agora sai dele e senta-se do lado de fora, na montanha. A presença já mudou de endereço antes que a pedra caia.
O Fio Condutor
Daniel falara de um horror instalado no santuário, e a história já dera a Israel uma versão daquilo: um rei estrangeiro erguendo um altar pagão sobre o altar de Deus, dois séculos antes de Jesus. Quando o Senhor cita o profeta, ele não está apenas repetindo uma previsão antiga, está dizendo que o padrão vai se repetir e que desta vez ele não será interrompido por uma revolta vitoriosa. Mas há uma inversão silenciosa e decisiva. A verdadeira abominação da desolação já acontecera fora dos muros: o Santo de Deus foi levado para longe do lugar santo e pendurado num madeiro, contado entre os profanos. O templo de pedra ficou vazio porque a presença andou até uma cruz. Depois disso, a desolação do edifício é apenas a confirmação visível de algo já consumado.
O Espelho
Este versículo cutuca uma ilusão bastante respeitável: a de que aquilo que é sagrado para nós é intocável. A igreja onde você serve há vinte anos, o casamento que você construiu com cuidado, a integridade profissional que sempre foi seu orgulho quieto, tudo isso pode ser invadido por aquilo que o nega, e às vezes por dentro. Jesus não diz aos discípulos que orem para que o templo seja poupado. Diz que reconheçam o sinal e ajam. Há uma coragem específica em admitir que algo está profanado em vez de continuar acendendo velas num lugar que Deus já deixou. E há uma tentação igualmente específica em fingir que não vemos. Hoje: pegue o celular, veja qual aplicativo você abriu primeiro ao acordar, escreva o nome dele num papel e diga em voz alta, sozinho, que aquilo não é Deus.
O Intertexto
Daniel é a fonte que o próprio Jesus indica, e vale ler o capítulo 9 devagar: ali a profanação do santuário está amarrada ao fim dos sacrifícios, como se a interrupção do culto e a chegada da justiça definitiva fossem o mesmo movimento. É exatamente essa amarração que Jesus assume. A segunda ponte é João 2, onde ele responde à exigência de um sinal falando da destruição e reconstrução do santuário em três dias, e o evangelista explica que falava do seu corpo. Ponha os dois textos lado a lado e o versículo 15 muda de peso: o templo de Jerusalém cai porque o templo verdadeiro já foi levantado, e este não conhece desolação.
A Pergunta
Então quando isso aconteceu, ou vai acontecer? A resposta honesta é que o texto resiste a uma escolha limpa. Jesus diz mais adiante que "não passará esta geração sem que todas estas coisas aconteçam", e de fato em 70 d.C. as legiões romanas entraram no santuário com seus estandartes e não sobrou pedra sobre pedra. Mas ele também diz que a aflição daqueles dias será como nunca houve nem haverá, e a história depois de 70 não permite que fechemos essa conta com facilidade. A profecia parece ter a forma de uma onda que quebra mais de uma vez na mesma praia. Não vou resolver isso com um esquema. O próprio Jesus recusa o esquema quando diz que nem os anjos sabem o dia. O que ele nos deixa não é um mapa, é uma vigilância.
O Detalhe
"Quem lê, attenda." A frase é estranha porque quebra a cena. Estamos ouvindo Jesus falar a quatro homens sentados numa encosta, e de repente alguém se dirige a nós, os que temos o rolo diante dos olhos. O verbo grego é noeitō, entenda, perceba com a mente, não simplesmente tome nota. É um cutucão do texto no leitor: isto exige de você trabalho, discernimento, cabeça. Numa igreja que às vezes prefere o arrepio à compreensão, essa pequena interrupção é um repreensão amável. A profecia não é dada para produzir emoção, é dada para produzir gente que reconhece o momento e sabe o que fazer nele. Você está lendo. Portanto, entenda.
Reflexão
O que, na sua vida de fé, você continua tratando como sagrado embora suspeite que a presença de Deus já se mudou dali?
Se Jesus liga o sinal profético diretamente a uma ação concreta, "fujam", que ação concreta a sua leitura da Bíblia tem produzido nesta semana?
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