Explicação bíblica

Salmos 34:17

Bíblia

O Texto

Uma linha só, e nela três verbos que se atropelam: "Os justos clamam, e o Senhor os ouve, e os livra de todas as suas angustias." Alguém grita. Alguém escuta. Alguém é arrancado de dentro do aperto. O versículo está encaixado entre uma ameaça (o rosto do Senhor contra os que fazem o mal) e uma ternura (perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado), e é precisamente aí, nesse entremeio, que ele respira. Não promete que não haverá angústia. Promete que o grito não cai no vazio.

O Coração

Imagine o quarto onde esse grito acontece. Não é uma oração composta, com introdução e amém. O verbo hebraico aqui, tsa'aq, é o berro de quem está sendo esmagado, o mesmo som que subiu do Egito e chegou aos ouvidos de Deus. É som antes de ser palavra. E o Salmo diz: o Senhor ouve isso. Não a versão editada, não a oração que você teria feito se estivesse mais calmo. O grito. Aqui está o coração da coisa: Deus não exige eloquência como condição para agir. Ele se inclina ao som bruto do sofrimento. E "os livra de todas as suas angustias" não significa que a vida ficará lisa; significa que nenhuma delas terá a última palavra.

O Fio Condutor

Continue lendo três versículos adiante e a coisa fica estranha: "Elle lhe guarda todos os seus ossos; nem sequer um d'elles se quebra." João, escrevendo sobre a cruz, vê os soldados chegarem para quebrar as pernas dos crucificados, chegarem a Jesus, e pararem. Ele já estava morto. Nenhum osso quebrado. O evangelista lembra desta linha. Ou seja: o justo por excelência clamou, e não foi poupado da morte, mas foi guardado através dela. O Salmo 34 não é desmentido pela cruz; é ali que ele encontra seu fundo verdadeiro. Livramento "de todas as angústias" passa, no caso de Cristo, por dentro da pior delas. Quem clama hoje clama com uma voz que já foi ouvida antes, do lado de dentro do túmulo.

O Espelho

Você já esteve nesse quarto. Talvez tenha sido o telefonema do médico, o e-mail do banco, a porta do quarto do seu filho fechada há três semanas. E talvez o que mais tenha machucado não foi a dor, mas a suspeita de que você não se qualifica: os justos clamam, sim, mas eu não sou justo, eu sou o que gritou com raiva e depois pediu desculpas a Deus. Repare que o Salmo não define o justo como o impecável. Define-o, dois versículos depois, como o de coração quebrantado e espírito contrito. Justo, aqui, é quem não tem outro lugar para ir. Se a sua oração de ontem foi uma frase malfeita dita no chuveiro para ninguém ouvir, ela foi ouvida.

O Perfil

Israel cantava isto em voz alta, junto. Repare no convite do versículo 3: "Engrandecei ao Senhor comigo; e juntos exaltemos o seu nome." Não era um diário devocional privado; era um testemunho público de alguém que voltou vivo. E quem cantava eram os "mansos" do versículo 2, palavra que significa ao mesmo tempo humilde e pobre, gente sem advogado, sem padrinho na corte, sem grão guardado. Para eles, "os seus ouvidos attentos ao seu clamor" não era poesia bonita: era a única instância de recurso que existia. Quando um camponês endividado ouvia isso no pátio do templo, ouvia algo político. O Rei do universo tem os ouvidos voltados para os que ninguém escuta.

Contexto

A tradição judaica liga este salmo ao episódio mais humilhante da vida de Davi. Fugido de Saul, sem exército, ele entra em Gate, cidade dos filisteus, cidade de Golias, e é reconhecido. Encurralado, finge-se louco: bate nas portas, deixa a saliva escorrer pela barba. O rei o expulsa com desprezo, e é assim, ridicularizado, que ele escapa. É desse chão que sai "Louvarei ao Senhor em todo o tempo". Não do palácio. Da vergonha. Isso muda o tom do versículo 17: quem escreve não é um homem para quem tudo deu certo, mas um fugitivo que aprendeu que ser ouvido por Deus às vezes tem a aparência de uma retirada indigna. O livramento nem sempre chega com honra.

O Intertexto

Hebreus 5 diz algo desconcertante sobre Jesus: ele ofereceu orações com forte clamor e lágrimas àquele que podia salvá-lo da morte, e foi ouvido. Ouvido, e ainda assim crucificado. Guarde essa frase ao lado do versículo 17, porque ela impede duas mentiras. A primeira: que ser ouvido significa receber exatamente o que pedimos. A segunda, mais cruel: que não receber o que pedimos significa não ter sido ouvido. O Salmo 34 promete o livramento e o versículo 19 admite, no mesmo fôlego, que "muitas são as afflicções do justo". As duas coisas cabem na mesma linha porque o horizonte é mais largo do que a nossa semana.

Reflexão

Qual grito seu ficou sem resposta, e o que você concluiu sobre Deus a partir desse silêncio?

Se ser ouvido não é o mesmo que ser poupado, o que muda na maneira como você ora amanhã de manhã?

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Perguntas frequentes sobre Psalms 34:17

Respostas rápidas às perguntas mais comuns sobre esta passagem bíblica.

O que significa Salmos 34:17?
Uma linha só, e nela três verbos que se atropelam: "Os justos clamam, e o Senhor os ouve, e os livra de todas as suas angustias." Alguém grita. Alguém escuta. Alguém é arrancado de dentro do aperto.
Sobre o que fala Salmos 34:17?
Imagine o quarto onde esse grito acontece. Não é uma oração composta, com introdução e amém. O verbo hebraico aqui, tsa'aq, é o berro de quem está sendo esmagado, o mesmo som que subiu do Egito e chegou aos ouvidos de Deus. É som antes de ser palavra. E o Salmo diz: o Senhor ouve isso.
Qual é o contexto histórico de Salmos 34:17?
Continue lendo três versículos adiante e a coisa fica estranha: "Elle lhe guarda todos os seus ossos; nem sequer um d'elles se quebra." João, escrevendo sobre a cruz, vê os soldados chegarem para quebrar as pernas dos crucificados, chegarem a Jesus, e pararem. Ele já estava morto.
O que Salmos 34:17 nos ensina sobre o caráter de Deus?
Você já esteve nesse quarto. Talvez tenha sido o telefonema do médico, o e-mail do banco, a porta do quarto do seu filho fechada há três semanas. E talvez o que mais tenha machucado não foi a dor, mas a suspeita de que você não se qualifica: os justos clamam, sim, mas eu não sou justo, eu sou o que gritou com raiva e depois pediu desculpas a Deus.
Como Salmos 34:17 continua relevante hoje?
Israel cantava isto em voz alta, junto. Repare no convite do versículo 3: "Engrandecei ao Senhor comigo; e juntos exaltemos o seu nome." Não era um diário devocional privado; era um testemunho público de alguém que voltou vivo. E quem cantava eram os "mansos" do versículo 2, palavra que significa ao mesmo tempo humilde e pobre, gente sem advogado, sem padrinho na corte, sem grão guardado.

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